Malabares, saxofone e arte de rua: As aventuras de uma viajera pela América do Sul

Poe Maria Fernanda Romero e Cami Mochileira

Minas pela Estrada

Conheci Cami em uma festa de rua no carnaval de Recife e a identificação foi instantânea. Ela que já viajou até o fim do mundo e encontrou o seu amor na estrada precisava participar desse projeto! Nesse post ela vai contar um pouquinho pra gente como se descobriu viajando e como sua vida de mochileira mudou após ela encontrar a sua mochila gêmea.

Quem é a Camila?

Eu sou a Camila, mas me descobri sendo a Cami Mochileira. Tenho 25 anos, e saí para viajar aos 23, justo uma semana depois de receber meu diploma de bacharel em Psicologia. Qual seria o caminho tradicional? Buscar um trabalho na área, engatar um mestrado e seguir minha vida desejada de professora universitária. Só que não!

menina com nariz de palhaço e cavaquinho pedindo carona com suas mochilas em uma estrada do Equador
Cami Mochielira pedindo carona no Equador

Lista de desejos

Minha vida sempre foi marcada por viagens. Nasci do encontro de um pai carioca com uma mãe amazonense, que namoravam por cartas. Enfim, nos mudamos todos para o nordeste. Aqui cresci e aspirava, assistindo programas de viagens pela televisão, algum dia poder também viajar o mundo.

Escrevi aos 18 anos uma lista de desejos, a qual esqueci no fundo do baú. Um deles era “fazer um mochilão depois de terminar a faculdade”, esquecido no fundo do inconsciente, assim foi, esquecido da memória. Mas nada se perde… nada se cria, tudo se transforma.

Pé na estrada – o início de uma vida nômade

Viajei para Buenos Aires, sozinha, pois pedi muito que alguma amiga fosse comigo, sem sucesso, aceitei a realidade de viajar só (e com medo mesmo)! No avião, olhei pra janela e pude avistar as luzes da cidade de buenos aires, eu quis chorar, as luzes simbolizavam que finalmente… eu estava livre. Uma nova história começa.

menina fazendo trilha em uma montanha com lago bem esverdeado chamado Torres del Paine no Chile
Torres del Paine – Chile

A partir de então, me diverti muito na capital Argentina! Tudo era mágico, inclusive as pessoas. Utilizei o Couchsurfing como modo de me hospedar. Economizava em tudo! Eu não queria que meu sonho acabasse por falta de dinheiro, né? Mais tarde, fui à Córdoba. Ali aprendi que ou você aprende pelo amor ou pela dor.

Eu morei numa casa ocupação rodeada de malabaristas e punks. Oi? Sim! Ali estava eu. Todos trabalhavam na rua, e eu , a simples viajera. Bem, eu tive que me movimentar!

Fazer Dinheiro na estrada

Comecei a vender brigadeiros e assim, aprendi a mágica de vender na rua! Era muito divertido. Depois aprendi a fazer artesanato, e pelas primeiras vezes não mexi nas minhas economias e passei a viver do meu próprio trabalho. Comprei um saxofone com o que ganhei na rua. Aprendi malabares, trabalhei no semáforo e finalmente aprendi o que é viver de arte de rua! Um artista não pede esmola! Pede contribuição no chapéu!

menina de mochila atravessando a fronteira do Equador com a Colombia
Cami chegando na Colômbia

Com isto, me movi pela América do sul. Da Argentina até a Colombia (que até então seria meu destino “final”).

Mochila Gêmea

Conheci um amor no Peru, que virou o meu companheiro de estrada. Juntos, chegamos a Colombia de carona, e este também era um dos meus desejos da lista dos 18 anos. A carona nos permitiu viajar por muito mais tempo, e muito mais lentamente (recomendo)! Cruzamos a Amazônia, adotamos um cachorro no Pará e regressamos de volta à minha cidade, Natal.

casal de viajantes em praia do Equador
Cami e namorado no Equador

Mas a aventura não podia parar! Tínhamos que conhecer o fim do mundo! E mais uma vez descemos de carona até o sul do Brasil. Ganhamos de presente uma passagem de avião para o fim do mundo, e esta foi a minha última viagem. Agora, da cidade do fim do mundo torcendo para que este momento de pandemia não seja fim do mundo, espero ansiosamente embarcar para mais uma aventura do outro lado do oceano atlântico! Um novo capítulo vem aí.

Moral da história

Crie uma lista de desejos! Crie um artista em você! Crie a sua nova história. Ou melhor… transforme-se nisso viajando! O resto, a própria viagem se encarrega.

Menina malabarista em Machu Picchu
Machu Picchu – Peru

Nada se cria, nada se perde… tudo se transforma.

Como são as despedidas para quem vive em movimento?

Por Maria Fernanda Romero e Julia Mendonça

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é um projeto que dá voz as mulheres que estão ganhando o mundo de diferentes maneiras. No post de hoje teremos um texto super sensível de uma viajante muito especial que conheci na Bahia. A Ju Mendonça, uma mineira que está na estada desde 2017 fazendo uma rota do Japão ao México, passando por Namíbia, Moçambique e outros cantos mágicos do mundo.

menina com vestido longo colorido em cima de tabetes tipicos do Oriente médico e turbante vermelho na cabeça

Kurdistão – Iran

Julia, uma exploradora sem pré-definições

Eu acho que a maioria das pessoas se perdem com essa pergunta. Falar sobre nós mesmos é uma tarefa muito difícil. Estou em um processo de exploração de mim mesma, e essa palavra “explorar” já significa muito sobre mim.
Julia é uma exploradora do mundo, exploradora de sentimentos, culturas, religiões, pessoas e emoções. Como viajante do mundo, eu não poderia viver de outra maneira. Eu preciso estar aberta a tudo o que me chega no percurso dos meus caminhos. E quase sempre eu estou…aceito e recebo tudo com gratidão.
Falar brevemente de mim não é fácil, porque não sou um relato único, sou um todo – forte, apaixonada, curiosa e, acima de tudo, muito viva. E assim vivo, para SER VIVO.

julia sentada em um tapete fumando o classico shisha, ou narguile, arabe

Shiraz- Iran

“Hoje resolvi escrever sobre as despedidas”

Sempre quando começo a pensar em escrever sobre alguma coisa que vivi nesses últimos 3 anos viajando pelo mundo, fico confusa em como organizar uma ideia, muitas vezes ainda nem compreendida por mim mesma, mas hoje resolvi escrever sobre as despedidas, mesmo que agora não seja muito bem a hora delas. Agora é hora de presença e não de partida, e um viajante de longo prazo começa a entender isso na estrada mesmo, que as vezes é hora de ficar.

Uns dias, umas semanas, uns meses. Por um amor, por um amigo ou pelo próprio corpo que pede pra ficar, e o coração é quem escolhe por quanto tempo.
Mas a gente sabe que em algum momento vai partir, já que a estrada sempre nos chama, e a parte mais difícil de uma viagem de longo prazo é na verdade partir. No caso, sempre partir.

Júlia com alguns jovens de todas as idades e suas roupas coloridas em Dar es Salaam
Moneia- Moçambique


A gente pensa que um dia vai se acostumar com a despedida mas as vezes parece que ela cria um buraco. Um interessante buraco preenchido a cada partida por sentimentos diferentes. Sentimentos confusos…que as vezes alivia, as vezes aperta o peito, e as vezes a gente sente a dor da partida no estômago mesmo.

moto com 4 passageiros na india
Moto em Delhi – Índia, sempre cabe mais um

Depende de qual situação a gente está deixando pra trás e o que vem em seguida. Quem vive na estrada sabe disso, sempre vai ter algo novo a explorar, um pico pra subir, uma trilha pra fazer, um país interessante e uma outra família pra nos receber.

Somos curiosos, queremos sempre bater de frente com o novo, temos muitas perguntas e poucas respostas. Porém, logo um viajante percebe que a viagem por si só não dá as respostas prontas. É preciso ver as respostas em cada movimento, e talvez por isso a gente sempre se move.

duas indianas com roupas tipicas no deserto de Thar
Deserto de Thar- India


As vezes partimos com a sensação entalada na garganta mesmo, um choro não chorado, e acabamos por mergulhar nos nossos próprios sentimentos mais profundos de desapego e gratidão. Despedir quase sempre é difícil, e as vezes é necessário se despir também, tirar tudo que tá no corpo e na alma e esvaziar-se.
Sair do lugar assim vazio, se REconhecer no vazio, e despertar pra uma nova trajetória que sempre existirá, já que a estrada nos grita por todos os lados, a “estrada, essa desgraçada”.

As vezes eu quero que ela me deixa em paz, mas ela sempre foi a maior concorrência dos meus grandes amores e endereço fixo

Como aprender idiomas viajando?

Por Maria Fernanda Romero

As línguas que aprendi na estrada

Não lembro qual foi a minha primeira palavra em italiano, mas sei que na primeira que ouvi, tive certeza que era a língua mais bonita do mundo. Na primeira vez que troquei trabalho por hospedagem, dividi quarto com uma italiana, que me deixou um livro. E mesmo sem entender muito bem o que estava escrito, lia e anotava trechos que me soavam como as poesias mais belas. Quis traduzir tudo que eu mesma já tinha escrito.


Em italiano, os versos simples teriam impacto. “A areia branca se desfaz em meu quintal, o branco, que nunca me canso, é invadido pela força do azul.”
Traduzi meu primeiro verso e decidi ir morar na Itália. Até dar para aprender uma língua pela internet, mas eu não tenho muita paciência para ficar muito tempo na frente do computador, ainda mais lendo aulas de italiano. Eu precisava ouvir.

Pantheon de Roma formado por um telhado triangular e colunas estilo greco-romano
Roma


Continuei lendo meu livro, assisti alguns filmes e quando cheguei na Itália, pelo menos achava que entendia tudo. Responder era uma grande mistura de portunhol e italiano. Mas eu estava me esforçando para melhorar. Repetia cada palavra nova dezenas de vezes como uma criança. Chegou um ponto que eu sabia me apresentar, falar sobre o que eu fazia e gostava, contar sobre meu dia e reclamar da chuva, mas não sabia as coisas mais básicas, como os pronomes, o gênero das palavras, as cores… Falar comigo devia ser engraçado. Eu era aquele gringo que fala “O casa é bonito”. Eu fui persistente, se me respondiam em outra língua, continuava respondendo em italiano.

ilha vista de cima, mar muito azul e verde ao redor
Taormina

Tudo era bonito, mesmo falando errado. Quando meu chefe pediu para tirar a “spazzatura” a primeira vez, eu pensei que era algum elogio, alguma pessoa, alguma referência. Foi difícil aceitar que uma palavra tão bonita, era como eles se referiam ao lixo. Com o tempo, fui percebendo as variações de sotaques e dialetos e achei o italiano, na verdade, um pouco melancólico. Alguma coisa naquelas linhas daquele livro, me davam vontade de chorar, me lembravam da dor. Talvez aquelas palavras traduzem muito bem a minha dor, de uma forma aparentemente bela.

cadeados em primeiro plano, mar do lado de fora de uma grade e um castelo de fundo
Napoli

“il cuore si scioglieva in un immenso dolore per le sofferenze che avevano involontariamente inflitto. Spesso volano intorno come mosche e sono innumerevoli…”

Il Sogno, Émile Zola

ALGUMAS DICAS QUE TORNARAM MINHA VIDA MAIS FÁCIL NA ITÁLIA

A primeira é claro: fique longe de brasileiros e se junte com os locais. Ouvir italiano foi o que de fato me ajudou a assimilar tudo que eu estudava.

Filmes, livros e séries são excelentes, mas existem muitos aplicativos que também ajudam na gramática e vocabulário! Eu adoro o Duolingue.

Outra dica, que ao menos comigo funcionou, fou ler jornal! Todos os dias eu abria os principais portais de noticías do país e a estrutura familiar da notícia me fez entender bastante a dinâmica da língua.

Não tenha medo de errar!

Aprender uma nova língua é quase como voltar a ser criança. Não tenha medo de falar errado, fale, tente e tente até conseguir!

vulcão etna marrom, com texturas e nuvens cobrindo o céu azul
Vulcão Etna

Viajante quer dar volta ao mundo em 20 anos sem pegar aviões

Por Maria Fernanda Romero
Fotos Dora Lua

Esse é o projeto de Dora, uma pirata romântica extremamente intensa – como ela se define em seu blog. Seu nome de batismo é Luane, mas em homenagem a personagem de Jorge Amado, escolheu ser chamada de Dora nesse seu projeto de transmitir suas vivências na estrada.

Dora nasceu em Recife e abandonou o colégio aos 15 anos por não se adequar saudavelmente ao sistema escolar, entretanto ela nunca deixou de estudar e aprender sozinha. Leu muitos livros e aprendeu duas línguas estrangeiras, inglês e espanhol. Viaja pela BR desde dos 19 anos e afirma categoricamente “ A vida nômade é a única vida possível para mim”.

menina segurando uma gata no canteiro de uma estrada de Pernambuco, com sua bicicleta adptada para carregar sua mochila
Dora Lua na BR 232, chegando em Arcoverde-PE

Volta ao mundo

Apesar de viajar há alguns anos, o projeto Intuitive Dora nasceu em 2018. O objetivo é continuar viajando, mas também poder revelar os mundos que descobre a outras pessoas tão curiosas e apaixonadas pela vida quanto ela, mas que não querem ou não podem estar na estrada também. 

Durantes esses 20 anos Dora quer dar a volta ao mundo, passando por todos os continentes e sem pegar aviões. Indo sempre por terra e mar, independente do meio de transporte, e sempre produzindo conteúdos em textos, vídeos e fotos sobre sua jornada, para o seu blog.

“Desde que saí de Recife tenho viajado principalmente de bike e, eventualmente, carona. Ao longo das décadas de duração dessa jornada, pretendo escrever livros sobre a viagem”.

menina empurrando uma bicileta em uma estrada do Brasil
Show de Segunda, um texto sobre a partida

Um idioma nativo de cada continente

Outro objetivo de Dora durante a sua jornada é aprender um idioma de cada continente. Ela já fala três línguas da Europa. Inglês ela aprendeu em 2017 estudando até atingir um bom nível para conversação, espanhol aprendeu escutando calle 13, mas principalmente viajando. Além do namorado peruano que teve, em Búzios, onde passou uma temporada de um ano, muitos turistas são argentinos. 

Búzios-RJ

Saber outros idiomas não só aproxima os viajantes das culturais e povos locais como também aproxima os viajantes entre si. Falar uma língua não é imprescindível, mas é uma chave muito importante na comunicação e na construção de amizades. “Ao grosso quem tá na estrada, mesmo no Brasil, são pessoas de outros países. Então, falando espanhol, eu estou integrada nessa comunidade viajera latino americana”, conta Dora.

“Permiti meu corpo flutuar na superficie, fechei os olhos e relaxei completamente. Pedi à mente que enviasse à minha consciência, a oração ideal para conjurar o mais perfeito estado de bem-estar. Focando na delícia de boiar no mar, ganhei a frase: “Deus é assim”.
Ainda de olhos fechados, deitada sobre a mais confortavel cama do mundo, repetia e sorria “Deus é assim”.Deus é assim e tudo o que há no cosmos, há em mim também, por isso tenho tudo, nada me falta, a vida é uma delícia.”

Dora Lua

Pausa durante a quarentena

Antes de começar a quarentena, a viajante pretendia realizar uma rota passando pelo Uruguai, Argentina, Paraguai, Mato Grosso do Sul, Bolívia e Peru. Quando comecou a pandemia ela percebeu que teria que fazer uma pausa nos planos de viagem para a quarentena. O problema é que ela já estava no Rio! 

Dora pedalou durante 30 dias até a Bahia e agora está em quarentena na casa de um amigo. Seu plano para quando as fronteiras abrirem é ir direto para a Bolívia. Lá ela quer aprender seu primeiro idioma nativo sulamericano, o Quechua.

Serra da Fumaça, Bahia

Desafios na estrada

Dora viaja como der, no momento é de bike ou carona e ela não enxerga isso como um desafio. Ela acredita que os únicos desafios na estrada são mentais e que não teve nenhum desafio concreto para começar essa volta ao mundo.

“A vida na estrada é a vida mais moleza entre tudo o que eu já experimentei. Passei por grandes desafios nos outros anos antes dessa saída definitiva para a vida nômade”.

Rio São Francisco- BA

No ano de 2017 Dora focou em resolver a sua mente. Ela quase não viajou naquele ano, mas depois que sentiu que estava livres dessas questões, saiu para volta ao mundo e até então não encontrou um desafio de verdade.

Na estrada, a rede serve de cama e a bike é o meio de transporte de Dora Lua

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é o meu projeto de entrevistar ou postar conteúdos produzidos por mulheres viajantes de todos os tipos. Esse espaço foi criado para mostrar que diferentes tipos de mulheres podem viajar de diferentes formas!

Travessia de Belmonte para Canavieiras- BA

Meu vício é a liberdade

Por Maria Fernanda Romero

Agradeço pela minha liberdade, ao mesmo tempo que percebo que hoje ela é o que me prende. Talvez a liberdade seja a prisão mais perigosa da vida. Porque ela se disfarça. Ela é o convite para um leque de caminhos. Mas ela não oferece bússola. 

Ela é o leme do barco. Sem prever as tempestades. 
Ela é o salto, sem nem olhar o tamanho da queda.
Liberdade é a genuína essência do homem. É direito.
Mas é também escolha.

praia que o mar se mistura com o rio. azul do ceu, com areia e o rio cortando.
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

A mais difícil das escolhas, porque não oferece opções ao mesmo tempo que engloba todas as opções.

Ser livre é tão subjetivo! 

A minha liberdade é saber reinventar em todas as situações, sem me prender em conceitos e definições.  Minha liberdade transmuta o medo e permite o fluxo.  Ela é movimento, constante ou inconstante. Ela questiona.

Ela se tornou um vício discreto e silencioso. Há quem diga que o silêncio é como o vazio. A ausência de significado e de sentido.
Enxergo o silêncio, o nada e o vazio como oposições que trazem sentido, mas nenhum significado pode ser fixo.
Assim como a liberdade.

barco navegando no rio em praias com coqueiros verdes e ceu azul de fundo
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

Não ter amarras é ser livre, e ao mesmo tempo estar preso na condição de não aceitar nada imutável, estável, permanente.

Enquanto viaja fotógrafa vende suas artes inspiradas no universo

Por Maria Fernanda Romero
Fotos Alice Perácio

MINAS PELA ESTRADA 

Eu sou privilegiada e sei disso! Meu privilégio facilitou meu processo para viajar, mas conheci diferentes viajantes, com diferentes tipos de vida e dificuldades, que encontraram diferentes formas para viajar. Viver na estrada não é possível para todo mundo, e na verdade, poucas pessoas querem essa vida. Não quero vender um discurso que “tudo é possível, só basta querer”,  mas quero mostrar que viajar não é apenas hotel caro, comida boa e vinho que custa um rim. Há viagens e viagens! e se planejar ajuda muito!

Quem são as minas pela estrada?

Todas as viajantes! Para me aproximar mais das minhas leitoras e mostrar que diferentes tipos de mulher podem viajar criei a série Minas pela Estrada. Aqui vou compartilhar história de outras mulheres viajantes. Hoje o maravilhoso conto é da Alice Perácio, do Creative Roads, sobre uma experiência dela no Rio Grande do Norte em 2018.

ilustradora segurando uma de suas producoes, uma pintura da luda
Alice e uma das artes exuberantes em suas texturas

“É como se o tempo girasse à velocidade das pás daquelas torres…”

 O som é do silêncio, que preenche e retumba em mente, apesar de que às vezes parece um zumbido… Não me incomoda.

O zumbido é como o “som” do Universo, e é só jogar no YouTube se quiser sentir a experiência intergaláctica da qual me refiro. Imagina só, o som das torres humanas confundidos com o que ecoa aqui e sei lá mais onde ao infinito… Eu já nem sei aonde essas palavras vão me levar – quem sabe aos aneis que circulam velozes em torno de Saturno.

O sol tomava os meus olhos. Ele brilhava tão forte que, por momentos, eu não podia enxergar. Aquela luz que quase me cegava, trazia consigo um cansaço – aquele de quem teve um dia bom… Cansaço de água, sabe? O fundo lamacento da lagoa grudava nos meus pés. Um refresco, um alento e gosto de sal nos lábios. Uma dose de caipirinha com um pouco mais de açúcar seria o ideal.

A água escorre pelos cabelos, pinga sobre a areia… Todas aquelas gotas me parecem estrelas que a Mãe Terra agora abraça, e então elas são absorvidas pelo ciclo que continua. Plantinhas irão crescer, minúsculos insetos irão matar a sede e as nuvens vão se encher de gotículas.

menina em deserto de sal refletida no chao, onde também se reflete o ceu e as nuvens
Alice em mochilão pela América do Sul

O dia está lindo, a natureza mais bela do que nunca! Pequenas ondas perfeitas verde-água me tomam o olhar num tom de fascínio. A estrada é a areia, e o mar às vezes teima em ir de encontro às rodas do veículo. Tudo bem, ele é o dono de tudo. O tempo fecha, o céu cinza escuro. A água me parece ainda mais límpida… Gosto de parar e admirar a chegada da tempestade – um mantra.

Eis que vou de encontro a um farol vermelho e branco. Já não consigo mais interagir, a paisagem à minha volta toma absolutamente toda a minha atenção. Ondas brutas se chocam contra as rochas e respigam suaves sobre os meus cílios e a lente da câmera. Pernas já doloridas, caminhadas em dunas, barriga cheia… Descanso na rede para voltar a pular ondas. O mar se agita, mas a água morna nos prende.

E as pás das torres continuam girando… O tempo passa ao ritmo delas. O zumbido elétrico universal agita as minhas partículas, assim como quando o sol toca a pele. E os raios da tempestade continuam a dançar distantes…

arte cheia de texturas sobre o universo
Arte de Alice

Viver do que ama

Alice,  24 anos, nasceu em Belo Horizonte e cresceu no interior do estado de Minas Gerais. Apaixonada em aprender coisas novas, viajar, cantar, escrever, fazer arte e natureza, decidiu seguir o sonho de viver de alguns projetos pessoais, dedicando todas suas energia à eles. “Passei por momentos cercados de muitas dúvidas, dor e angústia até tomar essa decisão. Eu nunca me encaixei no estilo de vida mais tradicional e gostaria de trabalhar de forma mais livre e independente. No momento estou em transição para viver de arte”.

diversas ilustracoes de aquarela, imitando montanhas, galaxias e o universo. cores e texturas estao em evidencia
Diferentes artes da Alice
E onde a estrada entra nisso?

No final de 2018 Alice criou o Projeto Nômade, atual Creative Roads, e desde então vende suas artes enquanto viaja. Como o projeto está em transição, Alice têm sua base, inclusive já viveu em diferentes lugares do Brasil, mas enquanto se movimento, leva seu trabalho consigo e espalha arte pelas estradas. 

“O meu foco no @creativeroads são aquarelas de montanhas, mapas, galáxias e planetas – puramente inspirada no Universo! Faço as minhas próprias tintas de aquarela com pedras e terra coletadas, já que venho buscando viver uma vida mais sustentável e minimalista e sinto a necessidade de me manter próxima da natureza.”

A arte está presente em tudo 

Alice é uma artista nata. Fotógrafa trabalha com design, ilustração e ainda por cima canta! Alice também pretende escrever livros (por favor, escreva!!) Para acompanhar mais sobre suas histórias, viagens, projetos e muiita arte é só entrar no instagram @aliceperacio

E bora para estrada, manas ! ❤

Por que eu ainda viajo?

Por Maria Fernanda Romero

Desde comecei essa página mudei muito minha forma de viajar, me expressar, criar conteúdo- até abandonei um pouco o site, postando mais no instagram, mas nunca deixei de viajar, ao contrário, hoje não tenho endereço fixo, não pago conta de luz, nem aluguel, não tenho conforto e nem sempre uma cama macia- e às vezes tenho dor nas costas, mas continuo viajando e nem penso em abandonar esse estilo de vida !

Viajar não é uma fuga da vida. E sim viver a vida da forma mais intensa, real e presente dela. Viajar é não ter certezas e se reencontrar no desconhecido. Eu comecei a viajar por uma mistura de curiosidade sobre o mundo e suas diferentes formas, decepção sobre a minha rotina e ansiedade de viver logo tudo que eu poderia viver. Mas, rapidamente, toda viagem mudou.

meninas em primeiro plano, em uma estrada de terra, montanhas no fundo
Tankwa Karoo National Park, África do Sul

Eu comecei uma viagem de perdas: de certezas, de verdades, de medos, de rótulos. Uma viagem de compreensão: pelas diferenças, pelos sentimentos. De encontros: com pessoas especiais que me mostraram que vale a pena acreditar na humanidade. Às vezes me falam que tenho que tomar cuidado, que nem todas as pessoas são boas e eu posso ir lá e me hospedar na casa delas, sem nem a conhecerem. Ou pegar uma carona. Mas viajando conheci pessoas, que me fizeram sentir que eu poderia confiar e acreditar.

Minha fé no próximo e na bondade só cresceu durante a viagem. E agora, viajo com mais calma, me surpreendo com a rotina. Mas a viagem mais importante que comecei dentro de tantas viagens, foi a viagem para dentro de mim. Todas as minhas camadas de ser, de luz e de sombra. Viajando lido com a minha escuridão o todo tempo, percebo o quão importante é saber reconhecer e enxergar onde ela está e ainda sim continuar positiva e confiante. E afinal, quando deixo a sombra de lado, priorizo os encontros fantásticos, que parecem ser feitos de sonhos.

victoria falls, cataratas na zambia, arco-iris e menina
Victoria Falls, Zâmbia

O que viajar me ensinou sobre planos

Por Maria Fernanda Romero

Planejar é bom, mas seguir os planos é impossível. Isso porque quando planejamos não levamos em conta um fator crucial, a realidade do momento presente. O momento presente é imprevisível, porém é a única realidade que existe. O agora é a única coisa que importa, que temos controle. Ou que deveríamos ter. 

Na vida real a gente quebra o pé no dia que queria sair para dançar. Pega trânsito quando tinha marcado um encontro. Conhece alguém especial na hora de ir embora.

praia deserta, de um lado a vegetação, no fundo as montanhas de pedra, no meio o encontro do rio com o mar
Aljezur, Portugal

Já pensei que os imprevistos pudessem ser como um anti-destino, ao mesmo tempo são eles que te obrigam improvisar. E é nessa hora que começamos a viver. Então, se é verdade que tudo acontece por algum motivo os imprevistos fazem parte do destino. 

E se nessa hora não sabemos improvisar, perdemos um pouco da vida. Seria o improviso um antídoto contra a morte? Diante aos fatos, me permito sentir tudo que tem dentro de mim. Nos dias de sol e também nos dias de tempestades inesperadas…

areia em primeiro plano, montanha do lado esquerdo e no fundo sob a neblina da manha, casas brancas de pescadores sobem a segunda montanha
Aljezur, Portugal

…E quando me permito sentir também dores, sei que estou vivendo a realidade, e não apenas um exílio da vida.

Mar, meu lar

Por Maria Fernanda Romero

O mar sempre foi a minha fonte de energia,
Nos dias de paz observo as ondas e permaneço tranquila,
Nos dias difíceis olho a imensidão do horizonte e me lembro que o mundo é bem maior,
Nos dias felizes entro correndo e pulando as ondas,
Nos dias tristes misturo minhas lágrimas com água salgada,

Outros dias eu só quero sentar sozinha na beira do mar.
Uns dias eu o olho e grito: um brinde a vida!
Em outros eu quero que ele me leve à outra vida,
Respiro fundo e continuo a navegar

Ainda bem que achei no mar, um lar.

barco no meio do oceano indico, representa o lar e o conforto do mar
Zanzibar, Tanzania

O que você faria com todo tempo do mundo?

Por Maria Fernanda Romero

Se você tivesse todo o tempo do mundo, com o que gastaria seu tempo? Se todas as suas necessidades já estivessem satisfeitas, que necessidades você teria? Se o dinheiro não fosse necessário e a vida fosse a base de trocas  o que você trocaria? 

A verdadeira utopia é preencher o dia somente com as coisas que te fazem feliz? Esse é o caminho para descobrir o sentido da nossa missão?  Se nada fosse uma obrigação, financeira ou estatal, passaríamos os dias desenvolvendo nossas habilidades, se alimentando bem, cuidando do corpo e da alma? Ou apenas morreríamos de tédio? O que é essencial para você? O que te faz ser você? Até que ponto você vive a vida que você quer e não a vida que você precisa?

Qual a forma mágica para conciliar os dois mundos? E porque não tornar nossos desejos as nossas necessidades?  Não tenho nenhuma resposta, mas quando tenho todo o tempo do mundo, percebo que não preciso de mais nada. A partir do momento que o pensamento se tornou “como eu posso ser a minha melhor versão, para mim e para o mundo?” nada mais se é uma obrigação dolorosa, e sim etapas para uma evolução maior.  

yosemite national park, montanhas maravilhosas nevadas em tom de azul refletindo a agua e verdes
Yosemite National Park, Califórnia