Eu perdi tanto viajando

Por Maria Fernanda Romero

Viajar foi me perder de tudo que eu conhecia

Eu perdi alguns amigos. Mas também descobri que o amor é mais forte que qualquer distância, e não precisa estar perto para amar. As demonstrações mais sinceras, nem sempre compartilham comitantemente o mesmo espaço.

Eu perdi tantas roupas! Algumas eu deixei por aí, tem aquelas que alguém gentilmente guardou para mim, outras encontraram novos lares. Mas descobri que elas nunca definiram minha aparência.

perdida em uma praia deserta nas Canárias
Ilhas Canárias

Nessa viagem eu também perdi apego.

Tudo que é “meu” pode não vir-a-ser mais. De uma hora para outra. Talvez nada nunca tenha sido meu. Então, também perdi tudo que me pertencia.

E se nada mais me pertencia, não pude levar mais nada de onde passei. Escrevo as lembranças para eternizar memórias. Pois, depois de lotar a parede de alguma sala com cartões postais, perdi todas as coleções, que carregava no intuito de ter cada lugar comigo para sempre.

Foi aí que perdi a vaidade. Mas também encontrei meu brilho, e ele nada tinha a ver com quartzos pendurados no pescoço, ou com qualquer pintura na cara. E minhas manias? Eram vários tipos de rituais. Para acordar. Antes de comer e de dormir. O jeitinho de falar, a hora de escrever. A luz certa. A posição de sentar. E também de dormir. Deixei elas espalhadas em alguns encontros.

Perdi o medo de ver o tempo passar. De observar, mediocremente, a vida. De deixar de existir ou permanecer inerente.

Perdi o medo de não realizar os sonhos. Perdi o medo de não conseguir criar. Ou de não aguentar o peso. Da vida. Da mochila. Foi então que eu perdi o medo de lidar comigo. De me ouvir e me conhecer. Percebo que perdi tanta coisa, que continuar deve significar que também perdi a razão.

Meu vício é a liberdade

Por Maria Fernanda Romero

Agradeço pela minha liberdade, ao mesmo tempo que percebo que hoje ela é o que me prende. Talvez a liberdade seja a prisão mais perigosa da vida. Porque ela se disfarça. Ela é o convite para um leque de caminhos. Mas ela não oferece bússola. 

Ela é o leme do barco. Sem prever as tempestades. 
Ela é o salto, sem nem olhar o tamanho da queda.
Liberdade é a genuína essência do homem. É direito.
Mas é também escolha.

praia que o mar se mistura com o rio. azul do ceu, com areia e o rio cortando.
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

A mais difícil das escolhas, porque não oferece opções ao mesmo tempo que engloba todas as opções.

Ser livre é tão subjetivo! 

A minha liberdade é saber reinventar em todas as situações, sem me prender em conceitos e definições.  Minha liberdade transmuta o medo e permite o fluxo.  Ela é movimento, constante ou inconstante. Ela questiona.

Ela se tornou um vício discreto e silencioso. Há quem diga que o silêncio é como o vazio. A ausência de significado e de sentido.
Enxergo o silêncio, o nada e o vazio como oposições que trazem sentido, mas nenhum significado pode ser fixo.
Assim como a liberdade.

barco navegando no rio em praias com coqueiros verdes e ceu azul de fundo
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

Não ter amarras é ser livre, e ao mesmo tempo estar preso na condição de não aceitar nada imutável, estável, permanente.

Zanzibar: Ilha paradisíaca no leste africano

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

Imagine uma ilha paradisíaca na costa da Tanzânia, na África Oriental. O que vem à sua cabeça? Pense em um mar claro, vegetação verde viva, frutas doces, especiarias várias… cúrcuma, cravo, canela… e o cheiro delas mesclado com a maresia.

Pense em uma população bem humorada, em canções em swahili, em flores cor-de-rosa. Tudo isso poderia definir Zanzibar, mas ainda seria muito pouco considerando tudo que essa ilha pode oferecer.

coqueiro em praia paradisiaca na ilha de Zanzibar na tanzania
Kizimkazi


Como chegar em Zanzibar?


O aeroporto da ilha é super pequeno. Mesmo assim, lá chegam vôos de diversos lugares do mundo. Outra opção para acessar a ilha, é pegar a balsa em Dar Es Salaam, a ex-capital da Tanzânia. A travessia custa 35 usd.

Para entrar na Tanzânia é necessário um visto no valor de 50 usd e um comprovante de vacina de febre amarela. O visto é obtido na entrada do país, tanto no aeroporto de Zanzibar, quanto no aeroporto de Dar Es Salaam, e também nas fronteiras terrestres.

O que fazer em Zanzibar?


Todas as praias da ilha são excelentes e todas têm sua particularidade. No sul, a tábua da maré varia tanto que às vezes parece uma praia deserta, sem mar, e, horas depois, o mar sobe até as casas construídas na frente da praia.

Kizimkazi é o extremo sul da ilha e é muito tranquilo. Não há muito turismo, como em outras partes de Zanzibar e a vila local é habitada por pescadores. Ali se observa uma forma de viver bem simples e tranquila. Vale muito a pena.

mar azul, areia e conchas em praia da ilha paradisiaca de Zanzibar
Jambiani


De Kizimkazi saem passeios para ver e até nadar com golfinhos:

MAS ATENÇÃO

descobri um pouco tarde demais que o barulho dos barcos (e saem muitos barcos) atrapalha a ecolocalização dos golfinhos, isto é, a capacidade deles de se localizar através do som. Isso é extremamente estressante e prejudicial para eles, por isso, recomendo buscar um barco a vela para ir visitá-los. Além disso, o melhor é fazer esse passeio o mais cedo possível, porque barcos e turistas saem de todas as partes da ilha em busca dos golfinhos.

Em Kizimkazi também fica a Promised Land, um lodge e restaurante super aconchegante, com uma vibe de paz de espírito e um reggae tocando ao fundo. Um ótimo lugar para descansar, tomar uma cerveja e ver o maravilhoso pôr-do-sol.



Também vale a pena subir a ilha e visitar as praias de Jambiani e Paje. Lá o mar tem o mesmo tom azul-esverdeado das praias ao sul, porém há muito mais vento, o que torna Paje um dos principais points de Kitesurf de toda ilha. Jambiani também é especial pela presença dos “red monkeys”, uma espécie de macacos ameaçada de extinção. Um dos únicos lugares em que eles ainda podem ser vistos, é Zanzibar. Outro lugar da ilha em que os red monkeys, assim com outras espécies de macacos estão presentes é o parque nacional Jozani Chwaka Bay. A entrada custa 8 usd.

A Chwaka Bay, ao norte de Paje e ao centro da ilha, é onde fica o famoso restaurante The Rock. Sinceramente, foi a minha única decepção em Zanzibar. O restaurante fica no meio do mar e para acessá-lo é necessário pegar um barco ou esperar a maré baixar. Além disso o restaurante é absurdamente caro e as porções são minúsculas. Um passeio extremamente caro, turístico e pouco relevante para a experiência como um todo.

Um destaque da costa leste são as praias Kiwengwa e Matemwe. Já o norte da ilha é muito mais famoso e turístico que o sul e existe uma razão para isso: a água do mar ao norte, tem um tom de azul turquesa que eu nunca tinha visto antes na vida.

pôr-do-sol maravilhoso na praia de Kizimkazi, ilha paradisiaca de Zanzibar
Kizimkazi

Areia fina, água turquesa, uma maré que não varia tanto… Não é surpresa que a praia de Nungwi, no extremo norte da ilha, se tornou a mais famosa! E por isso, o que não falta por lá são restaurantes, hotéis e festas. Gostei muito dos restaurantes Coco Cabana, Mama Mia e Coccobello. Também gostei da festa da lua cheia em Kendwa Rocks.

No norte da ilha também tem muitas opções de mergulho e snorkeling. A ilha de Tumbatu é deslumbrante, com uma vida marinha exuberante, muitos corais coloridos, peixes e estrelas do mar.

Na costa oeste, tem as “Spices Farms”, as fazendas com plantações dos temperos mágicos da ilha. Um tour por ali vale muito a pena, principalmente para quem gosta de cozinhar. Os valores dos passeios variam muito, porque encontrar quem te leve nessas fazendas é algo que se faz através do boca a boca e de contatos. Meu tour custou 5 usd.

Lua cheia no ceu azul no norte da ilha de Zanzibar
Lua cheia



O centro antigo da ilha, conhecido como Stone Town, é uma atração além das praias. Foi ali que Freddie Mercury, astro principal da banda Queen morou com sua família. Hoje a casa dele é um hotel e só pode ser visitada por fora.

Zanzibar teve muita influência árabe. E isso se manifesta na cultura, língua e arquitetura da ilha. As vielas e arcos de Stone Town são um retrato disso. Considerado patrimônio da Unesco, o centro de Zanzibar tem muitas construções e prédios importantes e cheios de história. Alguns deles são o museu “Beit el-Ajaib”, o antigo forte e a catedral anglicana, construída no local do maior mercado de escravos, fazendo-nos lembrar e refletir sobre a tristeza e as injustiças da escravatura.


De Stone Town também saem barcos para Prison Island, onde tem tartarugas gigantes de até 100 anos de idade. Também é possível ir para Nakupenda beach. Essas viagens custam cerca de 15usd

Para se locomover de norte a sul na ilha é um pouco complicado, pois as estradas são péssimas e o táxi é caríssimo. O transporte local é o dala dala, e andar nele é uma aventura à parte, mas que faz parte da experiência, além de ajudar muito na economia da ilha. De qualquer forma, recomendo organizar muito bem os passeios, e até dividir as hospedagens para não perder tempo e energia com os deslocamentos.

transporte local da Tanzânia, o dala dala
Dala dala


O que comer em Zanzibar?

Frutas. Muitas frutas. A ilha tropical é rica em todas as frutas imagináveis, como o nosso país, Brasil. Só que lá eles as usam muito na preparação das refeições todas. Há muitos pratos com banana e muitos com coco, que é utilizado até no feijão. Água de coco também é abundante, além, claro, de pratos com as especiarias da ilha, que são muitas.

Em Zanzibar ficam algumas das praias mais incríveis que eu já vi na vida. Lá tem muita dança, alegria, cultura, diversidade e tantas outras coisas que não são possíveis descrever. Isso é Zanzibar.