Uma mistura bem napolitana: lendas, histórias e comidas

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

Nápoles é mais uma cidade do sul da Itália que bem que poderia estar na América do Sul. Desorganizada, caótica e com trânsito, a cidade da pizza também é conhecida pela suas belezas naturais. Às margens do mediterrâneo e perto de um dos maiores vulcões ativos da Europa, Nápoles também tem muitos mistérios.

prédios coloridos, mar azul, pedras e ondas batendo
Nápoles

O QUE FAZER EM NÁPOLES

A Piazza Dante é uma das praças centrais da cidade. Ali é um bom ponto de partida para começar explorar a região: além de estar bem perto do emblemático Museu Arqueológico Nacional, um dos museus mais importantes da Europa, a piazza também fica perto do centro histórico da cidade.

A rua principal do centro histórico é apelidada de “Spaccanapoli”, em italiano “Divisor de Nápoles”, pois olhando de cima, parece que a rua literalmente divide a cidade. Ela vai da Piazza del Gesù Nuovo até a Piazza San Domenico Maggiore.

No centro histórico de Nápoles é possível encontrar tudo aquilo que temos no nosso imaginário sobre os italianos: os varais que cruzam as ruas, as pessoas gritando e gesticulando, bagunça, igrejas maravilhosas e muita pizza e massa.

IGREJA E MURAL NO TETO



Comi as melhores pizzas da minha vida na cidade. A pizzeria mais famosa é a  L’Antica Pizzeria Da Michele, que, inclusive, está no filme Comer, Rezar e Amar. Mas todos as pizzerias da região são maravilhosas.

A viagem valeria a pena só pela pizza. Entretanto, fui me envolvendo pela cidade a cada segundo. As igrejas são maravilhosas. O Duomo di San Gennaro é a principal Catedral da cidade. Lá está o sangue do santo padroeiro da cidade e duas vezes por ano acontece a sua “liquefação”. De denso, o sangue do Bispo se torna fluido e traz toda uma comoção na cidade.

VARAL ENTRE PRÉDIOS EM NAPOLES
Centro Storico

Descobri que o napolitano acredita muito em lendas. Eles também têm uma outra relação com a morte: uma fé um pouco mística. Além das lendas relacionadas a San Gennaro e a “liquefação” do sangue, há também uma lenda sobre cuidar dos restos mortais de desconhecidos, para que virem protetores dos seus cuidadores quando saírem do purgatório. Na Igreja di Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco é possível aprender um pouco sobre essas lendas e também ver alguns esqueletos. A entrada é gratuita, mas é necessário pagar 6€ para ver os esqueletos.
Outra igreja que vale uma visita é o Pio Monte Della Misericordia, onde fica um vitral pintado por Caravaggio. Para entrar na igreja, é necessário pagar 7€.

Na frente da Igreja di Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco fica outro museu importante para a cidade: o Napoli Sotterranea.  Lá é possível visitar escavações, passagens secretas, catacumbas, aquedutos e todas as ruínas dos templos greco-romanos que existiam ali. O ingresso custa 10€.

A via San Gregorio Armeno é outro ícone do centro histórico. O ano inteiro há uma exposição de presépios em tamanho real. É muito bonito e colorido.

CASTELO DELL OVO E MAR EM BAIRRO TRADICIONAL NAPOLITANO
Castell dell´Ovo

Saindo do Centro histórico em direção ao mar,  passando pelo Quartieri Spagnoli, chega-se ao Castel Nuovo, uma fortaleza medieval e museu de arte. A entrada custa 6€. Ao lado do museu fica a Piazza del Plebiscito, onde está o Palácio Real e, há alguns metros de distância, a Galleria Umberto I, um centro comercial com uma arquitetura chamativa e imponente.

Continuando até o mar, encontramos também o Castel dell’Ovo, guardião de outra lenda da cidade. O poeta Virgílio teria escondido ali um ovo mágico que manteria em pé toda a fortaleza. Se um dia o ovo quebrar, não só o castelo cairá como uma série de catástrofes acontecerão à cidade.

Vulcão Vésuvio
Vulcão Vésuvio

Música, luz e cores de Palermo: Viajando pelo sul da Itália

Por: Maria Fernanda Romero
Revisão: Clara Porta Guimarães

Palermo, a capital da Sicília, é uma cidade bem intensa e cheia de contrastes. Me senti fora da Europa, na capital da Argentina ou em uma grande metrópole do Brasil.

As cidades da Sicília são conhecidas pela desorganização e pelo caos, mas Palermo tem uma desordem ainda mais evidente nas ruas de Kalsa, o bairro árabe, ou nas vielas do Quattro Canti, que começa no cruzamento entre a Via Maqueda e a Corso Vittorio Emanuele.

FESTIVAL DE ARTE DE RUA

Foi lá que aconteceu o festival de arte de rua “Ballarò Buskers” nos dias 19, 20 e 21 de outubro.  A região também é conhecida pelos mercados, que lembram as feiras brasileiras. O Mercato Ballarò é o mais conhecido. Frutas frescas, peixes e artesanatos se misturam e colorem Palermo.

praca com muito verde na capital da sicilia
Palermo

Durante o Buskers Festival tudo isso se misturou com circo, teatro, dança e música. A abertura do Festival foi na Piazza Mediterraneo com Marco Masetti e Alessia Spatoliatore: uma combinação de circo de rua com teatro. Leve e divertido, agradou público de todas as idades.

mulher danca na rua em festival de arte em palermo

Sábado e domingo, durante a tarde, as crianças tomaram conta das ruas. As praças Mediterraneo, Brunaccini e Casa Professa, foram palco de laboratórios de circo e artesanato. Os pequenos se divertiram e coloriram o bairro ainda mais.

Durante a noite muita música acompanhou as apresentações de teatro e circo. A praça Ballaró e a Santa Chiara foram as mais animadas, com shows que se estenderam até o início da madrugada.

pessoas caminham na rua  e saxofonista e seu filho se apresentam em Palermo

MAIS EM PALERMO

Motoqueiros sem capacetes, carroças, gritaria e arte estão por toda a parte na capital cultural da ilha. Os contrastes de Palermo são notados principalmente pelas ruas velhas e muitas vezes sujas, nas casas mal-cuidadas contra a arquitetura deslumbrante. O renascimento italiano impera nas construções, principalmente nas Igrejas indescritivelmente bonitas, imponentes e com muito mármore. As mais conhecidas do Centro Histórico, além da Catedral de Palermo são a Chiesa di San Giovanni degli Eremiti e a Chiesa di Santa Maria dell’Ammiraglio ou Chiesa della Martorana.

ESCOLA DE SAMBA EM PALERMO

Outros pontos turísticos da região são o Palazzo dei Normanni e a Piazza Bellini, onde está a Fontana Pretoria. Alguns edifícios da Piazza Bellini estão conservados desde 1400. É impressionante e maravilhoso. Além disso, no Borgo Vecchio fica o Teatro Massimo, uma das casas de ópera mais famosas do mundo e a maior da Itália. É uma das locações de “O Poderoso Chefão”.

CATEDRAL DE PALERMO
Catedral de Palermo

Quem desembarcar em Palermo viverá uma experiência intensa e encontrará muita história, cultura e diversão.

Bordei Marrakech no meu coração

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

O coração já estava acelerado antes de entrar no avião. Era um misto de ansiedade com receio. Não queria criar expectativas, mas já tinha um monte delas. Me avisaram que os marroquinos eram super comerciantes, que eu teria que negociar todos os preços. Estava preparada para brincar de leilão, cobrir os ombros e conhecer um mundo totalmente novo.

Meu vôo pousava 22h30 e a primeira dificuldade seria chegar sozinha em um país muçulmano pela noite. Tinha pedido um transfer para o hotel, mas a fila da imigração estava enorme. Demorei duas horas para passar pelo controle de passaporte e o transfer não esperou.

casas em marrakech, mesquita de fundo e tapetes coloridos em vários prédios

No Aeroporto de Marrakech-Menara é proibido ficar dentro do saguão. Tanto para embarcar, como para desembarcar. Só é possível passar direto para área de embarque e é uma segurança super pesada: tem raio-x na porta para sair à rua e também para voltar. Quando percebi que estava sozinha e não havia ninguém do meu hotel, quis voltar para o aeroporto, mas já não era possível. Tinha que pegar um táxi. E eu estava com medo.

Quando cheguei no ponto de táxi, a única semelhança que vi com os pontos de táxis que eu estava acostumada é que havia carros. Os marroquinos têm muita facilidade com as línguas e é super comum vê-los falando inglês, espanhol e até português. Eles querem te vender a qualquer custo e por isso tentam descobrir da onde você é e que língua fala para serem mais enfáticos nas abordagens. Entre eles a língua é o árabe.

O QUE FAZER EM MARRAKECH

Tudo no Marrocos deve ser negociado antes: A a arte da pechincha é muito usada, inclusive obrigatória. Mas às vezes me sentia insegura de oferecer um preço e eles não gostarem. Para negociar o táxi aconteceu exatamente isso. Tinham me dito que o aeroporto era perto e o táxi custaria cerca de 100Dh (mais ou menos 10€) mas na hora que eu dei minha oferta eles desataram a resmungar em árabe um com o outro. Me ofereceram 250Dh e acabamos fechando por 220Dh.

homens encatadores de cobras em praca em Marrakech
Praça Jemaa el-Fnaa

Marrakech é uma das cidades imperiais do Marrocos. As cidades imperiais foram as capitais das antigas dinastias do país ao Norte da África. Todas elas têm a mesma disposição espacial: Uma Medina, um núcleo religioso principal, que é a Mesquita, uma muralha protegendo e bem em frente à entrada, um cemitério.

A Medina é sempre bem protegida e forma labirintos. Em Marrakech a Medina é um mundo à parte, onde os acessórios, tapetes, portas, artesanatos e objetos religiosos ou não colorem as ruas. O muro que protege a Medina de Marrakech tem 19km e é todo furado para evitar rachaduras do sol.

Dentro da Medina de Marrakech fica uma das praças mais famosas do país: A praça Jemaa el-Fna que é um patrimônio oral e cultura da UNESCO. É uma das primeiras vezes que uma atração não palpável é considerada patrimônio da organização.

mesquita em Marrakech
Mesquita Koutoubia

Antigamente a Praça era o lugar onde cortavam as cabeças dos sentenciados à morte. Depois Jemaa el-Fna foi convertida em uma praça de animação.  Lá tem macacos, encantadores de cobras, mulheres que fazem tatuagem de renas e principalmente venda de especiarias. Acho que todo nosso imaginário ocidental sobre o que é o Marrocos pode ser representado na Jemaa el-Fna. Mas é importante lembrar: tudo é pago! Até fotos!  E se não pagar irá arrumar um problema com os locais.

Na Medina também tem os Souks. São como lojas especializadas. Existem Souks de couro, porcelana, roupas. Tudo muito bem trabalhado e encantador. Fazer compras no Souks é uma atividade a ser considerada.

A maioria das hospedagens em Marrakech chamam Riad. Antigamente Riad era a casa de uma família rica. Por fora parece mal cuidada, mas por dentro é muito bonita. Todas têm alguns quartos, uma fonte no meio e jardins laterais. Hoje em dia essas casas são hostels, onde é possível se hospedar por um preço justo dentro da Medina.

A Medina é muito viva. Não é permitida a entrada de carros, mas tem várias motos que cortam as ruelas do centrinho e é melhor tomar cuidado com elas.  Me incomodou um pouco o fato de não ter muitas mulheres na rua, mas consegui me virar bem e com cautela.

A comida marroquina é maravilhosa. O tradicional Homus e Tahine serve de acompanhamento para tudo. Também há uma variedade de geleias impressionante. Nas refeições grandes, a carne de cordeiro é um ingrediente comum. Muitos pratos são feitos com ela. O cuscuz também é muito tradicional, tanto com peixe como com vegetais. Sobre os temperos, nem preciso me alongar: A variedade de especiarias marroquinas não tem fim.

plantas verdes em contraste com a decoracao azul em Marrakech
Jardim Majorelle

Há também restaurantes franceses e estrangeiros em Marrakech, como o Nomad e o Le Jardin. Esses restaurantes mesclam a cozinha mediterrânea com a cozinha marroquina e estão muito bem localizados.

O Palácio da Bahia também é lindíssimo. Uma arquitetura que mistura a simetria dos árabes, os mosaicos dos andaluzes e os arcos dos berberes, os marroquinos da montanha. Ninguém sabe se os árabes incorporaram a arquitetura andaluza em suas construções, ou se os andaluzes incorporaram a arquitetura árabe depois das invasões. A questão é que a combinação da arquitetura árabe-andaluza é incrível.

Todas as construções do palácio são feitas de gesso, pó de mármore e clara de ovo.Ele tem 160 quartos e vários pátios e salões. A entrada custa 10Dh.

Na Mesquita Koutoubia, a principal de Marrakech, não é permitida a entrada de estrangeiros, mas um passeio pelos seus jardins vale a pena.Fora da Medina também há muita coisa linda.

O Jardim Majorelle é um jardim botânico extremamente colorido, principalmente em tons de azul e amarelo. Ele pertencia ao pintor francês Jacques Majorelle, mas depois de sua morte ficou abandonado então o estilista Yves Saint Laurent o comprou, restaurou e o doou à Marrakech. O jardim é muito rico, tem plantas do mundo todo, principalmente da América Latina.

Montanhas atlas marrocos com neve
Montanhas Atlas

Montanhas Atlas

Também fiz um bate-volta nas montanhas do Atlas. É o povo berbere que ocupa as montanhas, ao norte do Marrocos. Até 2004, a língua local era apenas oral. Eles vivem principalmente da agricultura. O trigo é o grão mais cultivado. Os berberes vivem da terra e respeitam a natureza. As casas nas montanhas são todas feitas de barro.

A primeira cidade que parei foi Tahennaout. Lá há uma cooperativa de mulheres que faz extrações do argan, uma erva muito boa para o cabelo e para a pele e que tem propriedades terapêuticas. Elas vendem os óleos, dentre outros produtos artesanais.

Seguimos para Tamazirt. Lá é possível fazer uma trilha pelas montanhas do Atlas de 1900m de altitude. O Atlas é uma das cordilheiras responsáveis pela existência do deserto do Saara. As massas de umidade ficam presas na montanha (onde até neva!) e não passam para a área do Saara, que fica desértica.

mulheres produzem oleo de Arghan no marrocos

Há também muitos rios na região. Os rios são permanentes, mas seu nível depende da chuva e do degelo na região. Os rios continuam para a área desértica, mas secam ao longo do percurso. O povo Berbere é muito receptivo e muitas casas oferecem um almoço típico marroquino com chá de ervas da montanha.

Shukran, Marrocos, por me mostrar um tanto mais do mundo e quebrar tantos conceitos já formados em mim.