Qual é o impacto do nosso turismo?

Por Maria Fernanda Romero

O jogo da especulação imobiliária, todos conhecemos. Desapropriação de espaços para construção de prédios, empresas ou outros comércios mais lucrativos é comum em todas as grandes cidades. E cada vez mais o turismo está envolvido com este tipo de negócio.

Observo muito, em Barcelona, faixas que dizem “Barcelona não está à venda” e “Salve Barcelona” (ou Drassanes, ou Para-lel, ou Sants), mas, no início, não entendia o que isso tinha a ver com o turismo ou com a especulação imobiliária.

Esses dias, fui a um bate-papo com o fotógrafo Rafa Badia e uma editora de um site de reflexão sobre imagem e fotografia. O tema era fotografia de viagens, porém a conversa foi muito além. Rafa contou de suas viagens à Paris nos dias atuais e nos anos anteriores: “Antigamente você ia à Paris para comer o queijo, hoje em dia lá tem pizza, pasta e kebab no mesmo restaurante, ao lado Mc Donald’s.”. Ele mostrou fotos de viagens em diferentes datas e as diferenças são gigantes – quer dizer, são cada vez menores. “A fotografia é o símbolo do tempo. Cada vez as cidades parecem ser mais iguais e as pessoas se vestem mais iguais”, observou o fotógrafo.

homem turista, vendo sua camera, enquanto outra turista atrás também tira fotos
Turista em Cesky Krumlov

Nas cidades pelas quais passei sempre busquei me aproximar o máximo possível dos moradores para entender o cotidiano do lugar e ter uma vivência mais verdadeira da cidade. Em Lisboa eu tinha a vantagem de falar e entender perfeitamente o idioma.

Em uma dessas tardes em Lisboa estava com a minha amiga na Igreja da Sé e não paravam de nos oferecer passeios no bairro de Alfama por preços absurdos. Ignoramos todos e fomos a pé. Paramos para pedir informação nas Portas do Sol para uma portuguesa de aproximadamente 35 anos. Conversamos muito com ela e ela nos disse que Alfama não era Portugal de verdade e perguntou se a gente não aceitava um passeio típico no bairro Mouradia. Óbvio que aceitamos!

homem turista tira foto de lagos com Cisneis
Turista na Alemanha

Conhecemos as tabernas, me lembrei dos livros, que havia lido na época da escola, bebemos a Ginjinha, típica cachaça portuguesa feita de uma espécie de cereja. Ela nos contou histórias e lendas do bairro, inclusive a de Maria Severa, a primeira mulher a cantar o Fado em Lisboa. Também conhecemos uma amiga dela, que é fadista. Tivemos o melhor dia possível em Lisboa. Eu me apaixonei pela cidade de uma maneira inexplicável.

Fomos com ela até o Rossio, porque ela também queria nos levar na Casa do Alentejo. Na transição de bairros é impossível não notar a diferença: Muitas construções, inúmeros restaurantes na calçada… Foi então que ela se emocionou ao dizer: “Aqui também era como a Mouradia. Agora as tabernas e os lugares em que os portugueses se reúnem para conversar e tomar a ginja estão sendo trocados por Hostels e Subways.”

turistas observam um mapa em Portugal

De volta a Barcelona encontrei uma amiga daqui e ela perguntou sobre a viagem. Eu disse que foi boa, mas que estava feliz de estar de volta, porque não há um lugar que se compare a Barcelona para se morar. Ela torceu a cara. “É, todos acham isso. Nada contra… mas parece que a cidade está sendo moldada para o turista e não para quem é daqui”. Ela tem razão. Mas não é só Barcelona. A minha estadia em Barcelona, uma cidade mega turística, me fez perceber o turismo, até o que eu mesma fazia, de uma forma mais crítica.

O turismo está crescendo e ele tem um impacto grande. Viajar é bom e temos que viajar cada vez mais, mas com responsabilidade. Hoje sabemos mais da importância da sustentabilidade e que ela é um pilar entre o econômico, o social e o ambiental. Muitas coisas são responsabilidade das grandes corporações, hotéis e agências de turismo, porém muita coisa é responsabilidade do viajante: É super importante se hospedar em estabelecimentos regulamentados e que não foram construídos em Áreas de Preservação, valorizar a gastronomia e os produtos locais e artesanais, preferir o transporte público, respeitar sempre o meio ambiente, reciclando e não jogando lixo no chão e na natureza (até uma bituca de cigarro pode fazer muito mal para o meio ambiente)… Temos que lembrar que nós somos parte do mundo, que queremos construir.

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