Psicóloga viajante e amiga criam instagram para unir mulheres canábicas

Escrito por Maria Fernanda Romero
Fotos Alice Reis

GIRLS IN GREEN

Psicóloga e redutora de danos, Alice Reis (24), é uma daquelas pessoa que gosto de evocar quando me dizem que não é possível viajar, trabalhar e viver do que se ama. A brasileira está há um ano viajando e trabalhando em projetos de Redução de Danos e estudando sobre cannabis nos países em que a erva é legalizada.

bandeira dos estados unidos em parque nacional
foto Alice Reis

Desde o início da sua graduação em psicologia, Alice se interessou pelo tema das drogas e buscou o que poderia fazer relacionado a ele dentro da área. Foi assim que encontrou a Redução de Danos, uma política pautada em tratar a questão das drogas como um problema de saúde pública, além de enxergar o usuário como um indivíduo autônomo de direitos.

Há quase 5 anos ela trabalha em contextos de festas com o coletivo ResPire em São Paulo. Também estagiou no CAPS-AD São Paulo com usuários de drogas em situação vulnerável. Alice sempre se interessou pela perspectiva política das drogas e buscou entender como ela funciona no Brasil e no mundo.

ALICE Reis em acao de reducao de danos
Foto de @lipstriphotos- www.triphotos.net

“Eu sempre fui apaixonada por viajar e estar em contato com a natureza”, diz a psicóloga. “Eu queria conciliar isso com o meu interesse profissional, que é a Redução de Danos”. Depois da faculdade Alice pesquisou países em que isso seria possível e encontrou algumas opções: “Eu queria muito conhecer e vivenciar a política de drogas em cada país. Trabalhei em Portugal com o coletivo Kosmicare, no festival Being Gathering e na Holanda e com o coletivo Psy Care, no festival Psy-Fi“.

Portugal, Espanha, Marrocos, Holanda e Estados Unidos são alguns dos países nos quais Alice passou e trabalhou no último ano, voluntariando ou mesmo participando de congressos sobre Redução de Danos e perspectivas mundiais sobre as políticas de drogas.

parque nacional nos estados unidos
Foto Alice Reis

“Eu vi na prática como funciona o cuidado com o cidadão e o trabalho com os usuários de drogas, tanto no contexto de festas, como no contexto de saúde pública. O que mais me chocou foi como, em alguns países e diferentemente do Brasil, eles reconhecem o usuário como um ser humano de direitos. O usuário recebe atenção e cuidados com a sua saúde”, explica. A psicóloga conta que até observou uma abordagem policial em Barcelona a um usuário em um contexto de rua e mesmo nessa situação o policial o tratou com respeito e se preocupou em verificar se ele tomava precauções durante o uso.

“Fiquei perplexa ao ver como a própria sociedade tem uma visão diferente dos usuários, que não são tão estigmatizados, criminalizados e marginalizados”, completa.

MULHERES CANNÁBICAS

“Eu vou ser bem sincera com você. Cada um tem uma substância preferida. Eu gosto muito de fumar cannabis. Então, comecei a me interessar pelo contexto da maconha e me aprofundar mais nele”, conta Alice

cigarro de maconha no por do sol
Foto Alice Reis

No Brasil os crimes relacionados às drogas é o motivo de 64% das prisões de mulheres, além de um terço dos presos em geral respondem por tráfico. Entretanto, muitos desses presos são apenas usuários, pois a lei do Brasil não delimita uma quantidade no porte da droga que permita distingui-los dos traficantes. Além disso, a maconha no Brasil é de uma qualidade muito ruim e  nunca poderia ser usada para propósitos medicinais. Sua proibição no país acaba sendo, assim, uma ferramenta para controlar uma população estigmatizada e marginalizada.

“Eu sempre quis fazer uma militância com relação à política cannábica e, por eu gostar de fumar e ter visto como é diferente nos países em que eu estive, criei o Girls in Green com outra amiga, Maria Eugênia, que tem os mesmos ideais que eu”. Explica Alice.

O Girls in Green é uma plataforma no instagram que surgiu como um meio de representatividade para mulheres dentro do mundo canábico. O objetivo era de criar, mais do que uma plataforma, um espaço seguro feito por mulheres para mulheres, onde elas pudessem dividir seus conhecimentos, além de ser também um espaço de debate e de troca.

plantacao de maconha no Marrocos
Alice no Marrocos

“Recebemos muitas histórias, perguntas e relatos de mulheres e ficamos muito felizes em conversar com elas e realmente trocar nossas experiências. Claro que temos muitos seguidores homens e isso é legal, mas o objetivo é representar as mulheres dentro do contexto canábico”, diz Alice. No contexto de drogas existe uma segregação de gênero muito grande. A maioria dos usuários são homens e o conhecimento sobre as drogas também está concentrado em um mundo mais masculino.

Alice relembra sua viagem com mais outras duas amigas ao Marrocos, um lugar onde a visão da mulher é totalmente pejorativa: “Foi uma experiência complexa. O tempo todo estávamos atentas, não sabíamos em quem confiar, tínhamos que tomar cuidado com o que vestíamos, o corpo tinha que estar sempre coberto… O corpo vira um limite muito complexo lá. Não foi uma viagem tão simples de se fazer em um grupo só de mulheres, mas deu tudo certo”.

alice em cima de uma camelo no Marrocos
Alice no Marrocos

Nos países ocidentais a brasileira sente menos esse choque por ser mulher e por estar no mundo das drogas, entretanto a vulnerabilidade da mulher é sempre maior e é comum vermos mulheres que têm seus corpos hipersexualizados. Esse estigma está também associado às drogas e bons exemplos disso são as propagandas de cerveja, ou mesmo mulheres que, em situações de maior vulnerabilidade, percebem que podem usar o seu corpo como moeda de troca, para conseguir essas drogas.

“É mais desafiador para uma mulher conseguir conquistar qualquer tipo de espaço. Os homens não tiveram que conquistar, eles já estavam alí. Para as mulheres, é um desafio a mais, uma barreira a mais, uma batalha a mais  que elas precisam vencer. Por isso que eu acho interessante que exista um espaço de representatividade para as mulheres. O Girls in Green tem o objetivo de uni-las. Também quero que esse espaço as inspire a produzir conhecimento, a se juntarem, a se reconhecerem como usuárias e a discutirem o tema”, explica a psicóloga.

Alice acredita muito no poder da informação. pois se as pessoas sabem como se cuidar e o que estão consumindo, os riscos dos usos de drogas são bem menores. Além disso a psicóloga quer que seu trabalho e estilo de vida inspire os outros, pois é uma semente plantada rumo a mudanças positivas.

estrada com neve
foto Alice Reis
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PULSAR: Permita seu coração sentir

Por Maria Fernanda Romero

FESTIVAL DE CULTURAS ALTERNATIVAS

Logo na entrada do distrito de Ipoema, Itabira, em Minas Gerais, uma placa indicava o caminho da Terceira Edição do Festival de Arte, Cultura e Sustentabilidade, PULSAR. Também se referia a ele como “Amigo da Natureza”. Isso porquê o festival teve apoio do  CODEMA, Conselho Municipal do Meio Ambiente, para sua realização.

Municipio de cachoeira alta, em ipoema, muito verde e uma queda dagua maravilhosa
Cachoeira Alta Ipoema

pista principal do festival de culturas alternativas pulsar
Pista Principal

chill out do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

pista tranquila do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

As estruturas, feitas de bamboo, combinadas com uma decoração de outra dimensão, demarcavam as áreas do festival: Pista Principal, Chill Out, Área de Cura, ResPire Redução de Danos e Praça de Alimentação. O Festival situado dentro do Parque Estadual Mata do Limoeira    tinha acesso a uma cachoeira, Cachoeira Alta, de uma queda de 110 metros.

noite de lua crescente, luz e sombra e no fundo a pista chill out do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

equipe de redução de danos do festival de culturas alternativas pulsar
ResPire Redução de Danos

A Pista Principal era um portal. Até o bar fazia parte da decoração. Projeções, luzes negras e intervenções pirofágicas faziam a mágica acontecer. O Line up também estava impecável. A produção pensou em duas coisas fundamentais: a abertura, com Disfunction, e o encerramento com Kernel Panic. Nenhum dia deixou a desejar. Elowinz, Derango, Giuseppe, Sator Arepo, Farebi Jalebi, Impertinent, Chromatec, Megalopsy foram alguns dos nomes que se apresentaram na festa. Amantes do high BPM do mundo inteiro se impressionaram com as apresentações.

pista de dança do festival de culturas alternativas
Pista Principal

psicodelia na pista principal do festival pulsar
Pista Principal

pista principal e psicodelia. luz negra e cores brilhantes
Pista Principal

Na Área de Cura, além das medicinas alternativas, foram ministradas palestras sobre permacultura e ecologia. O local era um espaço perfeito para descansar e se conectar com uma energia renovada. O papel do Coletivo ResPire também foi fundamental na festa. Um local seguro para informação e discussões sobre o tema de Drogas e Redução de Danos, sem descriminalizar o usuário.

sapo gigante era a estrutura da area de cura do festival pulsar
Área de Cura

O PULSAR encanta e surpreende o público a cada ano. A única reclamação de muitos foi em relação a portaria da festa, e o fato de precisar do ingresso impresso. De resto, a festa deixa saudades e a certeza de que a cena cresce, com muita qualidade, cada vez mais no Brasil.