Psicóloga viajante e amiga criam instagram para unir mulheres canábicas

Escrito por Maria Fernanda Romero
Fotos Alice Reis

GIRLS IN GREEN

Psicóloga e redutora de danos, Alice Reis (24), é uma daquelas pessoa que gosto de evocar quando me dizem que não é possível viajar, trabalhar e viver do que se ama. A brasileira está há um ano viajando e trabalhando em projetos de Redução de Danos e estudando sobre cannabis nos países em que a erva é legalizada.

bandeira dos estados unidos em parque nacional
foto Alice Reis

Desde o início da sua graduação em psicologia, Alice se interessou pelo tema das drogas e buscou o que poderia fazer relacionado a ele dentro da área. Foi assim que encontrou a Redução de Danos, uma política pautada em tratar a questão das drogas como um problema de saúde pública, além de enxergar o usuário como um indivíduo autônomo de direitos.

Há quase 5 anos ela trabalha em contextos de festas com o coletivo ResPire em São Paulo. Também estagiou no CAPS-AD São Paulo com usuários de drogas em situação vulnerável. Alice sempre se interessou pela perspectiva política das drogas e buscou entender como ela funciona no Brasil e no mundo.

ALICE Reis em acao de reducao de danos
Foto de @lipstriphotos- www.triphotos.net

“Eu sempre fui apaixonada por viajar e estar em contato com a natureza”, diz a psicóloga. “Eu queria conciliar isso com o meu interesse profissional, que é a Redução de Danos”. Depois da faculdade Alice pesquisou países em que isso seria possível e encontrou algumas opções: “Eu queria muito conhecer e vivenciar a política de drogas em cada país. Trabalhei em Portugal com o coletivo Kosmicare, no festival Being Gathering e na Holanda e com o coletivo Psy Care, no festival Psy-Fi“.

Portugal, Espanha, Marrocos, Holanda e Estados Unidos são alguns dos países nos quais Alice passou e trabalhou no último ano, voluntariando ou mesmo participando de congressos sobre Redução de Danos e perspectivas mundiais sobre as políticas de drogas.

parque nacional nos estados unidos
Foto Alice Reis

“Eu vi na prática como funciona o cuidado com o cidadão e o trabalho com os usuários de drogas, tanto no contexto de festas, como no contexto de saúde pública. O que mais me chocou foi como, em alguns países e diferentemente do Brasil, eles reconhecem o usuário como um ser humano de direitos. O usuário recebe atenção e cuidados com a sua saúde”, explica. A psicóloga conta que até observou uma abordagem policial em Barcelona a um usuário em um contexto de rua e mesmo nessa situação o policial o tratou com respeito e se preocupou em verificar se ele tomava precauções durante o uso.

“Fiquei perplexa ao ver como a própria sociedade tem uma visão diferente dos usuários, que não são tão estigmatizados, criminalizados e marginalizados”, completa.

MULHERES CANNÁBICAS

“Eu vou ser bem sincera com você. Cada um tem uma substância preferida. Eu gosto muito de fumar cannabis. Então, comecei a me interessar pelo contexto da maconha e me aprofundar mais nele”, conta Alice

cigarro de maconha no por do sol
Foto Alice Reis

No Brasil os crimes relacionados às drogas é o motivo de 64% das prisões de mulheres, além de um terço dos presos em geral respondem por tráfico. Entretanto, muitos desses presos são apenas usuários, pois a lei do Brasil não delimita uma quantidade no porte da droga que permita distingui-los dos traficantes. Além disso, a maconha no Brasil é de uma qualidade muito ruim e  nunca poderia ser usada para propósitos medicinais. Sua proibição no país acaba sendo, assim, uma ferramenta para controlar uma população estigmatizada e marginalizada.

“Eu sempre quis fazer uma militância com relação à política cannábica e, por eu gostar de fumar e ter visto como é diferente nos países em que eu estive, criei o Girls in Green com outra amiga, Maria Eugênia, que tem os mesmos ideais que eu”. Explica Alice.

O Girls in Green é uma plataforma no instagram que surgiu como um meio de representatividade para mulheres dentro do mundo canábico. O objetivo era de criar, mais do que uma plataforma, um espaço seguro feito por mulheres para mulheres, onde elas pudessem dividir seus conhecimentos, além de ser também um espaço de debate e de troca.

plantacao de maconha no Marrocos
Alice no Marrocos

“Recebemos muitas histórias, perguntas e relatos de mulheres e ficamos muito felizes em conversar com elas e realmente trocar nossas experiências. Claro que temos muitos seguidores homens e isso é legal, mas o objetivo é representar as mulheres dentro do contexto canábico”, diz Alice. No contexto de drogas existe uma segregação de gênero muito grande. A maioria dos usuários são homens e o conhecimento sobre as drogas também está concentrado em um mundo mais masculino.

Alice relembra sua viagem com mais outras duas amigas ao Marrocos, um lugar onde a visão da mulher é totalmente pejorativa: “Foi uma experiência complexa. O tempo todo estávamos atentas, não sabíamos em quem confiar, tínhamos que tomar cuidado com o que vestíamos, o corpo tinha que estar sempre coberto… O corpo vira um limite muito complexo lá. Não foi uma viagem tão simples de se fazer em um grupo só de mulheres, mas deu tudo certo”.

alice em cima de uma camelo no Marrocos
Alice no Marrocos

Nos países ocidentais a brasileira sente menos esse choque por ser mulher e por estar no mundo das drogas, entretanto a vulnerabilidade da mulher é sempre maior e é comum vermos mulheres que têm seus corpos hipersexualizados. Esse estigma está também associado às drogas e bons exemplos disso são as propagandas de cerveja, ou mesmo mulheres que, em situações de maior vulnerabilidade, percebem que podem usar o seu corpo como moeda de troca, para conseguir essas drogas.

“É mais desafiador para uma mulher conseguir conquistar qualquer tipo de espaço. Os homens não tiveram que conquistar, eles já estavam alí. Para as mulheres, é um desafio a mais, uma barreira a mais, uma batalha a mais  que elas precisam vencer. Por isso que eu acho interessante que exista um espaço de representatividade para as mulheres. O Girls in Green tem o objetivo de uni-las. Também quero que esse espaço as inspire a produzir conhecimento, a se juntarem, a se reconhecerem como usuárias e a discutirem o tema”, explica a psicóloga.

Alice acredita muito no poder da informação. pois se as pessoas sabem como se cuidar e o que estão consumindo, os riscos dos usos de drogas são bem menores. Além disso a psicóloga quer que seu trabalho e estilo de vida inspire os outros, pois é uma semente plantada rumo a mudanças positivas.

estrada com neve
foto Alice Reis
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O futuro da Catalunha segue incerto

Maria Fernanda Romero

No dia 1 de outubro de 2017, a Catalunha realizou um plebiscito, ou  referendum  em castelhano, unilateral e não reconhecido pelo governo espanhol, questionando os cidadãos se eles desejam tornar a região uma República independente. O assunto dividiu opiniões entre os próprios catalães, assim, busquei investigar o que aconteceu por aqui a partir do ponto de vista de diferentes habitantes da Espanha.

Jordi*, 33, capitão de barco e catalão, explica que os motivos da luta pela independência vão além de política e economia. “A classe política espanhola influenciou um pouco, mas o determinante foi a economia. A corrupção fez muito dinheiro desaparecer, e esse dinheiro faltou nos hospitais e em muitos outros lugares. Foi isso que fez com que acordássemos. Porém não é só econômico. Poderia ser somente econômico se a Espanha aceitasse a nossa língua, a nossa cultura e as nossas tradições. Mas não aceitam. Não somos queridos por eles. Então é algo cultural também.”

Enrique*, 29, piloto de avião e madrilenho enxerga a questão separatista como um problema que saiu do controle. “Uma onda cada vez maior, que não agrada nem os espanhóis nem os catalães. É um problema que deveria ser resolvido com o diálogo e não da forma como está sendo resolvido”.

Muitos catalães questionam a autonomia e a liberdade da Catalunha, tanto na gestão da própria economia, como na participação da política espanhola, uma vez que as leis aprovadas no parlamento da Catalunha devem ser aprovadas também pelo senado espanhol para entrar em vigor e que os impostos recolhidos na região são encaminhados para Madrid.

Bandeiras da catalunya em manifestação prõ;plebicito em praça em Barcelona
Manifestação pró-plebiscito, Setembro,2017

Lucas A., 18, estudante de filosofia e política na Universidade Autônoma de Madrid, tem uma visão mais periférica. Nasceu e cresceu em Alicante, município da Comunidade Valenciana, e sua graduação é dividida entre as cidades de Barcelona e Madrid. Lucas aponta que o problema da Espanha é que Madrid sempre foi o centro de poder. Mas a relação com as outras regiões nem sempre foram boas. “A Catalunha sempre foi uma região muito rica e em alguns momentos houve conflitos entre as duas regiões. E sempre teve gente na Catalunha que queria independência, ou autonomia frente à Madrid.”

Giovanni*, 28, italiano e técnico de informática, vive em Barcelona há 10 anos. Ele explica, que a Espanha têm vários estados autônomos, que estão unidos no mesmo país. Cada um desses estados tem uma certa soberania sobre alguns aspectos. “Nem todos estão felizes em fazer parte da Espanha. Uma grande parte da população não quer se separar da Espanha, mas a outra grande parte quer. Agora não se sabe com precisão qual é a maioria. O que é certo é que a maioria dos catalães querem o plebiscito. Isso é seguro”.

bandeiras da espanha em praça de Barcelona, numa defesa de mantér a unidade do país
Manifestação anti-referendum, Setembro, 2017

“Eu nasci em Madrid. Desde que sou pequeno aprendi que Barcelona era uma das províncias mais importantes dentro da Espanha. Sempre senti que a Catalunha era parte de meu país e sempre enxerguei os catalães como parte do meu povo”, diz Enrique, que, apesar disso, concorda que uma solução poderia ser a autonomia financeira da Catalunha, assim como já é o caso do país Vasco.

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A região da Catalunha se tornou de fato parte da Espanha depois da derrota na Guerra de Sucessão ( 1701-1714) contra os Bourbon (com quem a Catalunya já estivera em conflitos anteriormente e para quem já havia perdido territórios com o Tratado dos Pirineus). O reino de Filipe V foi muito autoritário e retirou muitos direitos conquistados na região. Dois séculos depois, a ditadura franquista (1939-1976) – que foi um regime fascista autoritário em toda a Espanha – reprimiu ainda mais a população e retirou ainda mais direitos. O ditador Francisco Franco também proibiu as línguas faladas nas comunidades autônomas (Galícia, País Vasco e Catalunha) e fez de tudo para impedir o separatismo das mesmas. Assim, muitas pessoas justificam o sentimento atual separatista da Catalunha com esse histórico de repressões.

Lucas acredita que nenhuma guerra do passado pode ser usada como argumento político. “Não podemos culpar ou utilizar acontecimentos de 300 anos atrás como argumento político. Está muito distante no tempo. Mas eu enxergo que o que aconteceu há 50, 60, 70 anos atrás não se resolveu adequadamente na Espanha.”

Giovanni e Lucas acreditam, que os catalães não se enxergam como parte da Espanha. “Há uma questão de identidade cultural em que o catalão não se enxerga como espanhol e deixou de se imaginar como parte da Espanha. Além disso, o resto da Espanha também não entende os catalães.”, acrescenta Lucas.

O madrilenho Enrique acha que os catalães têm toda razão em se sentirem afetados pela ditadura franquista, mas completa “Posso te dizer que minha avó, que viveu em Madrid, passou muita necessidade, passou fome e até tiraram o comércio da família dela. E ela era de Madrid. O franquismo impediu os catalães de falarem sua língua, e eles certamente foram reprimidos. Porém, a Catalunha e toda Espanha foram reprimidas.”

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pessoas reunidas para o resultado do referendum que diria se a Catalunuya iria se tornar livre
Catalães aguardam resultado do referendum na praça Catalunha, 1 de outubro de 2017

A discussão sobre a legalidade do plebiscito ficou ainda mais intensa após a sua realização, apesar dos 2.020.144 votos a favor da independência da Catalunha. “A constituição está atrelada à Madrid e nela está escrito que nenhuma parte pode se separar. Mas se uma parte quer se separar, quais são os procedimentos? Há anos a Catalunha tenta achar uma solução para se separar da Espanha e, após não encontrar nenhuma, realizou o plebiscito”, diz Jordi.

Lucas acrescenta “Não é legal. Mas não quer dizer que não seja legítimo. Essa é a diferença. Então, acredito que, todos estamos de acordo que é importante respeitar as leis. Mas isso não quer dizer que todas as leis sejam justas. Acredito que os direitos costumam surgir conforme as necessidades.”

carro de policia parado em avenida durante o referendum em Barcelona
Polícia Nacional, 1 de outubro de 2017

A polícia nacional agiu com muita violência e repressão ao tentar impedir a votação. Os dados da Generalitat (governo catalão) é de que mais de 800 pessoas foram feridas. “Eu entendo e enxergo que eles têm outros costumes e estão insatisfeitos. Mas tudo tem que ser feito na legalidade. Eu não acho justificável a ação da polícia. A polícia agrediu muitas pessoas que só estavam votando, não estava fazendo mal a ninguém. Não gosto de ver a polícia pegando pessoas idosas e crianças. Mas foi um ato ilegal. O referendum tinha sido considerado ilegal, e mesmo assim eles fizeram acontecer.” , completa Enrique.

policia nacional reunida no dia do referendum em Barcelona
Polícia Nacional 1 de outubro de 2017

No dia 11 de outubro, Puigdemont, presidente da Generalitat, declarou a independência de forma subjetiva e retirou-a logo em seguida, pedindo diálogo com o governo espanhol. Mas Rajoy, presidente da Espanha, não quis mais negociar com a Generalitat.

O mês de outubro seguiu tenso. Cada vez mais policiais da Polícia Nacional na Catalunha e centenas de empresas deixando suas sedes da comunidade. No dia 27 de outubro, o parlamento da Catalunha aprovou a Declaração Unilateral de  Independência e Puigdemont a declarou.

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Greve Geral, 3 de outubro de 2017

A resposta do governo central foi a aplicação do Artigo 155, ou seja, toda autonomia da Catalunha foi retirada, o parlamento destituído e o governo regional demitido. O controle da região está nas mãos de Mariano Rajoy, que convocou eleições para 21 de dezembro.

O Tribunal espanhol também condenou líderes independentistas por rebelião e conspiração. Oriol Junqueras, Joaquim Forn, Raül Romeva, Jordi Turull, Josep Rull, Santi Vila, Carles Mundó e Carme Forcadell são os presos políticos que mais geraram manifestações e reações negativas por parte do povo. Carles Puigdemont foi destituído da presidência Generalitat e está em exílio em Bruxelas, Bélgica, com outros representantes do seu governo.

cartaz pedindo liberdade aos presos políticos
Manifestação para liberdade dos presos políticos

Ninguém se atreve a dizer se o futuro político da Catalunha  será melhor ou mais desastroso, mas Giovanni problematiza a discussão generalizada que a política ganhou “Uma coisa que um pouco me doí sobre a separação é a fratura social que isso criou. Eu já vi amigos que já não se falam, já vi casais que se separaram, já vi famílias que não se falam entre si. Isso eu não gosto. A razão não me interessa. Mas o que eu lamento muito é que toda essa polaridade tenha gerado uma fratura social.”

Dia 21 de dezembro a Catalunha terá a chance de eleger, mais uma vez, um governo independentista. Mas isso a fará livre ou ainda mais reprimida e sem autoridade?

Catalunha, um novo país europeu?

Por Maria Fernanda Romero

Em todo prédio de Barcelona há pelo menos uma bandeira da Catalunya exposta em alguma janela de ferro. Os catalães nunca se identificaram como espanhóis, mas agora o clima de separação é sentido em cada esquina.

A cultura catalã deixa traços desde da era medieval. A língua é rica e símbolo de resistência contra ditadura franquista, que proibiu o catalão na época. “Eu ía a aulas clandestinas para aprender algo do meu idioma. Tudo e todos aqueles que poderiam parecer uma ameaça eram perseguidos, naturalmente, já que era uma ditadura” M., 52. O catalão não é mais proibido, porém o povo ainda sente que a língua é apagada pelo castelhano.

Bandeiras da Catalunya em prédios de BarcelonaBandeiras da Catalunya em prédios de Barcelona

A província autônoma também tem um hino próprio, que foi escrito em durante a guerra dos Segadors. A música diz, que os soldados ficavam nos povoados e desprezavam a comida, vinho, matavam gente e estupravam mulheres. O povo reclamava e não acontecia nada. Até que um dia mataram um trabalhador de campo (segador) que estava em Barcelona tentando resolver a situação. A partir de então começou a revolta, várias pessoas importantes na época, inclusive o vice-rei da região, foram mortas. Pau Claris declarou a república Catalã em 1641 e a revolta durou até 1659.

Uma das consequências da guerra é o tratado dos Pirineus.  Em 1714, os catalães entraram em novo conflito contra o rei autoritário e centralizador de poder, que queria tirar (e tirou) a autonomia da região na  Guerra de Sucessão. Com a derrota da Catalunha a região passa formar parte do Estado espanhol.

Diferentemente de outras regiões separatistas da Espanha, os catalães sempre buscaram o diálogo. Em algumas consultas feitas pela Generalitat, como é chamado o governo Catalão, a mais importante em 9 de novembro de 2014, a população demonstrou a vontade de votar em um plebiscito se a Catalunha deveria ou não se separar da Espanha. Os casos de corrupção do Partido Popular (PP), cujo o líder é o presidente do governo Espanhol Mariano Rajoy, foi o estopim para que a Generalitat anunciasse o tal referendum em 2017.

ato a favor do referendum em Barcelona

A Espanha não aceitou o plebiscito em nenhum momento. A guerra política começou. O parlamento catalão aprova a “lei da ruptura”, ou seja, leis do novo país caso o “sim” ganhasse. O Tribunal Constitucional espanhol não a aceita. O governo continua fechado para o diálogo. O presidente da Generalitat, Puigdemont e a alcaldesa de Barcelona Ada Colau enviam uma carta para o rei Felipe VI e para Rajoy pedindo uma resolução para o caso espanhol . A resposta é: só haverá negociação se não houver plebiscito.

ato a favor do referendum em Barcelonaato a favor do referendum em Barcelona

Enquanto isso as ruas borbulham. Manifestações todos os dias. O povo quer ser ouvido. A repressão aumenta e 14 funcionários do governo catalão são presos em buscas de materiais que seriam usados no dia 1 de outubro. Outros são multados no valor de 12 mil euros. Mais pessoas às ruas. O governo ameaça e a ordem final é que a polícia impeça a votação a qualquer custo.

ato em favor do referendum em Barcelona

O dia primeiro de outubro de 2017 amanheceu cinza. Frio e chuva acompanharam esse dia de tensão e história na Catalunha. Fui a um colégio eleitoral em Gràcia acompanhar a votação. A fila era imensa e a primeira notícia que chegou foi a de que a Polícia Nacional estava invadindo escolas por toda parte com muita violência. Alguns vídeos começaram a circular nas redes sociais. Massacre e covardia: Não existe outra definição para atuação da polícia espanhola, mas isso só motivou as pessoas a saírem de suas casas.

Me aproximo de um senhor de aproximadamente 70 anos. Pergunto se ele pode me dar uma entrevista. Ele me olha desconfiado, “Sobre o que? Não há nada para se dizer”. Eu respondo “sobre a votação” e digo que sou uma jornalista independente: Escolhi a palavra certa. “Periodista independiente?” Ele muda o tom. Diz que também quer ser independente. Era justamente disso que se tratava a situação. Perguntei se ele tinha medo da polícia. “A princípio não. Olha ali a polícia”, diz apontando os Mossos d’ Esquadra, polícia interna da Catalunha, que também tinha sido ordenada a fechar escolas, mas cuja maioria não cumpriu a ordem. “Somos pessoas normais. Só queremos votar, não devemos ter medo da polícia”. A última pergunta que faço é o que vai acontecer se a Catalunha se tornar livre. “Nunca seremos livre, estamos na Europa”, finaliza o senhor.

“Medo? Não, não não. Não há medo! Não há medo para nada.” C. me responde determinada. “Já estamos vencendo. Vencer é isso, é votar. Ou pelo menos tentar. Força Catalunya!” completa antes de se despedir.

dia da votação em Barcelona

Sigo para Praça Catalunya, onde um pequeno grupo protesta a favor da união com Espanha. P. afirma que, em primeiro lugar, não há um plebiscito: “O que está acontecendo é inconstitucional e não tem nenhum apoio das instituições públicas”. Reforça que é, inclusive, uma afronta contra o estado autônoma da Catalunha.

ato contra a independencia da Catalunya em Barcelona

“Não me sinto motivado a votar, porque votar é apoiar isso. Somente votam os partidários do governo, isso não tem nenhuma validez política. Se eu estivesse participando estaria reconhecendo uma validez que não tenho”. P. acredita que a Espanha é um país plural e que as diferenças entre as regiões reforçam isso. “Todos falamos duas línguas aqui e também há outras línguas na Espanha como o galego e o basco. Isso nunca foi um problema antes. Faz parte do que é a Espanha”.

A oposição acredita que o discurso de Puigdemont, presidente da Generalitat, é vitimista e que o estado autônomo permite o controle da polícia ( Mossos d´Esquadra), da educação e também dos serviços sanitários. “A Catalunha tem muita liberdade e autonomia. Os deputados catalães também estão no congresso e podem defender suas leis. A Espanha respeita a Catalunha”. P. ainda completa que é um absurdo a Generalitat dividir o povo entre bons e maus. “A violência está acontecendo porque a Generalitat está provocando isso para ganhar legitimidade. Eles querem que aconteça a violência e sabiam que ia acontecer se organizassem um referendum ilegal, mas espero que a gente consiga achar uma solução pacífica”.

Enquanto os “espanholistas” protestam, os telões armados na Praça Catalunya mostram imagens dos colégios fechados pela polícia. Literalmente um filme de horror em praça pública. Volto para o colégio na Gràcia e, diferentemente do que imaginava, o clima é de completa paz. O número de pessoas que saíram para votar tinha triplicado. A escola tocava músicas típicas da região e as pessoas na rua dançavam e gritavam hinos de resistência.  Alguns voluntários anunciavam as notícias pelos altos falantes. Um contingente cada vez maior se formava em volta da escola para impedir a chegada da polícia e, principalmente, para proteger as urnas.

Policiais espanhois em uma praça em Barcelonapolicia em Barcelona

Naira L,19, é catalã, mas vive em Madri e estuda Filosofia e Política. Ela viajou da capital do país até Barcelona (630 km) para votar nulo, afinal ela faz questão de votar. “É pela democracia”. Ela diz que os espanhóis não entendem porque os catalães querem a separação. “Eles dizem que é ou porque somos egoístas, ou por outros motivos que não são importantes, e não percebem que o governo do PP não enxerga a Catalunha”. Ela me conta que, na verdade, apenas metade dos catalães querem a separação, mas quanto mais o governo reprime e ataca, mais motivadas as pessoas ficam a a apoiarem. “Temos o direito de votar, votar é democrático”. Ela finaliza dizendo que não tem vontade de encontrar a polícia, “mas eu sei que a nossa polícia protegerá a gente caso a nacional venha aqui. Mas olhe em volta: Tem muita gente, não passará nada”.

O clima de comemoração e ansiedade só aumentou às 20h, quando o plebiscito acabou. “É que agora vão contar os votos”, um catalão me explicou, “as urnas não podem sair daqui, por motivos óbvios, então temos que protegê-las até eles terminarem de contar,”  Um dos voluntários pediu no alto falante para que as pessoas colocassem seus celulares em modo avião. O sinal de internet estava fraco e havia a especulação de que o governo tinha cortado as redes móveis. Enquanto os votos eram contados a mão, pouco a pouco as pessoas saíam em direção à Praça Catalunya, onde o resultado seria anunciado.

O caminho de volta para praça era escuro e tenso. As ruas vazias, a polícia ostentava suas armas e os estabelecimentos estavam todos fechados, mas, chegando na praça, parecia final de Copa do Mundo: Telão, música, bandeiras. A sensação era de vitória, afinal, eles votaram. E eles gritavam “Hem votat, hem votat” (nós votamos, em catalão).

Já era madrugada quando os números foram divulgados. A primeira notícia foi vergonhosa: 844 feridos em confrontos e repressão. Mais feridos que em qualquer ataque terrorista, dos quais eles têm tanto medo. Em seguida a notícia que todos esperavam: 2.020.144 a favor da separação: 90% dos que votaram. Os catalães comemoram a notícia que traz, também, inúmeras dúvidas sobre o futuro incerto da Espanha.

comemoração pós votação em Barcelona. MIlhares de pessoas na praça com bandeiras da Catalunyaprédio com os dizeres de hola democracia em Barcelona

Desbravando o Uruguai

Por Maria Fernanda Romero

De Florianopólis até Montevideú

O tanto de uruguaios que conheci em Florianópolis no verão de 2017, misturado com outros fatores, me despertou um desejo para desbravar o país. Fui de ônibus pela empresa TTL até a cidade de Rocha, capital do departamento de Rocha. As empresas de ônibus que fazem o trajeto são TTL e EGA, os horários mudam conforme a época do ano.

Até Porto Alegre é praticamente direto, apenas uma parada de 30 minutos em Sombrio, quase na divisa dos estados Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Na capital gaúcha tivemos que trocar e duas horas depois, no município de São Lourenço do sul a terceira parada. Faltavam aproximadamente 6h.

O Chuí é uma das cidades brasileiras que fazem fronteira com o Uruguai, e é a mais usada por brasileiros, principalmente para comprar, uma vez que a cidade é lotada de Free shops. 60 km depois da fronteira, o primeiro balneário uruguaio, Punta Del Diablo.

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Liberdad o Muerte: bandeira da independência uruguaia

Eu desci na capital, cidade de Rocha. O departamento é composto pelas cidades Punta Del Diablo, La Paloma, Rocha entre outras. As casas simples, quase sempre terréas, têm janelas sempre grandes e um ar um pouco antigo e sempre tranquilo e aconchegante. Os poucos carros e muitas praças das cidades colaboram com essa sensação de eterna tranquilidade.

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Farol de Cabo Polônio

De Rocha fui para Cabo Polônio, reservarei um post exclusivamente a esse pedacinho do céu. De Cabo Polônio fui à capital, Montevidéu e me impressionei com as diferenças com nossas cidades brasileiras.

A cidade é limpa, em todos os locais lixeiras, inclusive separando o lixo reciclável. Não há moradores de ruas ou animais abandonados, há um respeito no semblante das pessoas, que assim como nas cidades menores vivem com tranquilidade e segurança. Há muita cultura na cidade, opções de filme gratuito em lugares como na Sala Zitarrosa, muitos museu e parques.

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Ciudad Vieja Montevideu

Os uruguaios falam sobre política. Há uma variedade de jornais com diferentes ideologias, assim como há luta. Presenciei uma ocupação em um prédio na Ciudad Vieja. Escutei de mais de um uruguaio que, os brasileiros “aceitam tudo”.Há debate na cidade. Particularmente me aprofundei no tema da legalização.

Legislação e Cannabis

Há três anos o presidente José Mujica legalizou o cultivo e uso de maconha medicinal e recreativa no país, porém Mujica não deixou claro como agir durante o processo de regularização da medicina. Uma das vantagens da legalização é o controle. Quando algo é proibido perdemos o controle sobre ele, legalizar é controlar, porém nem sempre isso é bom em um país latinoamericano, onde as autoridades são tão corruptas e a polícia é militarizada e autoritária.

Ainda há medo entre os usuários de cannabis no Uruguai, e o IRCCA, órgão responsavel pelo cumprimentos das leis relacionadas a planta, é extramente burocrático e muitas vezes rígido.

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Universidade Nacional do Uruguai em Montevideu

Voltei para o Brasil de carona pelo aplicativo Blablacar até a capital gaúcha, Porto Alegre. Muito atencioso o motorista parou em outros dois pontos turísticos: Punta Ballena e Punta del Este.

Punta Del Este

Punta Del Este, localizada no Departamento de Maldonado, é provavelmente o destino mais famoso da América do Sul. A revista Forbes, em 2008, o classificou como o balneário mais luxoso do continente. O maior Hotel e Casino da América do Sul também está por lá.

Apesar de todo esse ar luxoso, a praia dessa punta é maravilhosa e o pôr-do-sol do porto é inacreditável, andar de bicicleta pelo balneário também é uma delícia. O monumento Los Dedos também é uma atração de Punta Del Este. O monumento de fevereiro de 1982 realizado pelo artista plástico chileno Mario Irrazábal representa a presença do homem na natureza.

Punta Ballena

Ao lado de Punta del Este, Punta Ballena é uma pequena península com uma visa igualmente incrível. A extensão desse balneário é de aproximadamente 12 km.

Entre os resorts está a Casapueblo. A incrível casa foi feita e habitada pelo artista plástico uruguaio Carlos Paez Vilaró. Sua casa-escultura funciona como resort, museu, restaurante e também mirante para um pôr-do-sol de tirar o fôlego.O balneário também recebe visitas frequentes da baleia-franca e de golfinhos.

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Punta Ballena

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Casapueblo

Conhecer o Uruguai foi um ótimo aprendizado, além de ficar em paz com a tranquilidade dos lugares percebi a importante de um debate público e de uma educação de qualidade. A informação é a chave para uma sociedade melhor.