“Mas você não tem medo de viajar sozinha?”

Por Maria Fernanda Romero

Sempre me perguntam sobre como vencer o medo de viajar sozinha e a verdade é que o medo sempre existirá.

Não acho que coragem e medo estejam em eixos opostos. Ou que a coragem surge na ausência do medo. Às vezes, eles andam lado a lado. Nunca tive medo da viagem. Sinceramente, não entendia o porquê perguntavam “Mas você não tem medo?”. Sempre indagava “medo de que?”. Percebi que algumas pessoas têm medo de se sentirem sozinhas, enquanto eu gosto tanto da minha própria companhia que às vezes penso que me tornei antissocial. Sempre fui um tanto tagarela, mas agora sempre fico um pouco introspectiva.

O medo vai além da solidão.

Meu medo e inseguranças tem a ver com violência, mas penso que estou sujeita a tantas coisas na minha própria cidade. São Paulo é uma das metrópoles mais perigosas do mundo, e infelizmente, o Brasil é o quinto país com mais feminicídio do mundo e o segundo pior para ser turista.

casas em marrakech, mesquita de fundo e tapetes coloridos em vários prédios
Marrakech

Hoje o meu maior medo é de ver o tempo passar. Ser mera observadora da vida.

menina com dedo polegar levantado em estrada com os arredores bem verdes
Esperando uma carona pelas estradas francesas

Sem marcar em nada minha existência, sem fazer parte de alguma mudança. Ser apenas mais uma coadjuvante da vida, com uma bagagem de sonhos sem esperanças. Minha motivação nunca foi a coragem. Nunca me enxerguei como uma mulher corajosa. Talvez curiosa, cheia de vontade, impulsiva, cheia de atitude. Mas de repente me deparei com uma caixinha de medos guardada dentro de mim.

Tentando ignorar eu nunca entendi o que esse medo significava. Eu não tinha percebido, mas um medo é necessário.

Ele vem acompanhado do bom-senso, alerta, precaução e cuidado. O medo não deixa de existir! Você aprende a lidar com ele, aprende a ressignificar o medo e usar ele como aliado. Viajar sozinha é estar aberta. À diversas situações do mundo. Mas no mundo não existem só felicidade e coisas que agradam.

menina de bikini e canga no meio de uma imensidão azul onde o mar se mistura com o céu. Há um veleiro ao fundo e muitos corais no fundo do mar
Tarde tranquila em Zanzibar, Tanzânia
Deixar fluir e estar aberta me permitiu viver e conhecer a raiz de muitas coisas.

De um almoço italiano de domingo, com 4 gerações sentadas à mesa, todos falando ao mesmo tempo e a avó fumando um cigarro até uma ocupação. Mas também me fez refém da situação mais desagradável de toda minha vida. Então resolvi assumir o medo e, mesmo assim, permanecer com a ação. Resolvi trazer o medo pro campo da consciência, porque só assim posso lidar com ele.

Nós, mulheres, precisamos tomar cuidados especiais na viagem. Mais atenção ao nosso redor, se vestir de forma adequada, pensar em quem confia, compartilhar nossa localização com amigos. Mas não podemos deixar de viver pelo simples falto de ser mulher!

Hoje viajo com medo, pois ele não me paraliza, mas me protege.

De Santos a Foz do Iguaçu: sete meses viajando com uma bicicleta

Por:Maria Fernanda Romero
Fotos:Julia Boratto

Julia Boratto saiu para viajar a primeira vez com 18 anos. A cicloviajante de 30 anos ficou 6 anos viajando o Brasil, vendendo artesanato junto com seu ex-companheiro. Aos 24 voltou a morar em São Paulo, onde tentou se enquadrar no modelo tradicional de vida e trabalho. Julia se formou como tecnóloga de multimeios e trabalhou com produção audiovisual. Depois se mudou para Santos, litoral paulista, onde trabalhava com joalheria artesanal. “Eu senti aquele chamado da alma para voltar para estrada.” Descreve a viajante.

Pegando a estrada com uma bicicleta

Em Santos, Julia pedalava todos os dias. Em 2018 ela fez a primeira viagem longa de bike, foram 100 km da baixada até a reserva da Juréia. “Eu tava com muita coisa na cabeça, principalmente pela questão do que as eleições representavam e fui pedalar para dar uma relaxada na mente. Quando cheguei na Juréia a minha cabeça estava muito mais tranquila, eu me sentia muito melhor.”

Essa viagem de bike abriu a mente da viajante e foi o despertar para Julia se jogar na vida nômade com a bicicleta. Depois de perceber que viajar dessa forma era possível, ela começou a pensar nas possibilidades em voltar à viver na estrada. O primeiro passo da viajante foi colocar marcha e um banco mais confortável na bicicleta. Como a paulista sempre fez esporte, ela se sentia preparada fisicamente “a única coisa que eu fiz foi testar as marchas, subi a Ilha Porchat pra ver se eu aguentava subidas.”

cicloviajante de chapeu de palha com sua bicicleta carregada de mochilas em cima de uma ponta com um rio verde e bastante montanhas no fundo
Julia Boratto em sua viagem pelo Sul Brasil

“Pesquisei sobre cicloviagem, fui descobrindo o mundo do cicloturismo e mulheres que já viajavam de bike. Então, resolvi pegar minha magrela e caí na estrada”. Julia vendeu suas coisas e os móveis da casa, comprou uma barraca mais leve e um aforge para a bicicleta, entregou o apartamento e se preparou para sair de Santos. O primeiro plano era pedalar até o Uruguai, mas ela estava disposta a continuar aberta para todas as oportunidades, de sair sem prazo para voltar. “Quando eu cheguei em Torres, no Rio Grande do Sul, a pandemia chegou no Brasil e fecharam a fronteira com o Uruguai, então eu fui para a Serra Catarinense.”

Quarentena no sul do Brasil

Julia passou três meses da quarentena transitando entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Primeiro ficou em um sítio de permacultura em Praia Grande, na divisa dos estados. Depois subiu para as serras catarinenses e pousou em Cambará do Sul. De Cambará do Sul a cicloviajante foi para Urubici. “Fiquei em campings na maioria das vezes. Eles estavam fechados, mas me receberam pela minha condição, de eu estar vivendo na estrada, viajando de bike e não ter uma casa para voltar”. 

Na Serra Catarinense a cicloviajante teve um sonho que a fez pedalar até Foz do Iguaçu. Em julho a viagem chegou ao fim e ela retornou para São Paulo.

Bicicleta carregada com mochilas, barraca, chapeu em cima de uma ponte com o rio e arvorés ao fundo
Caminho para São José dos Ausentes

Coronavírus e a viagem

Julia não sentia que estava se colocado ou colocando outras pessoas em risco porque se movia sempre de bicicleta e sempre sozinha e se alojava em lugares isolados, no meio do mato, onde era recebida por pessoas que estavam isoladas.

A cicloviajante só transitou por lugares menos populosos, cidades bem pequenas onde não tinham muito turismo ou estavam fechadas para o turismo. Até chegar em Foz, Julia quase não sentiu os efeitos da pandemia. Lá, a viajante percebeu o momento intenso e crítico que o mundo está vivendo e voltou para São Paulo. Agora ela aguarda um momento mais adequado para voltar para a estrada.

barraca, bicicleta e fogueira em um campo cheio de arucárias
Acampando no Rio das Antas, Serra Gaúcha
Transformar a viagem em Arte

A cicloviajante têm alguns projetos para transformar sua viagem em arte. Ela está escrevendo um livro digital e produzindo um documentário sobre esses meses viajando o Brasil de bicicleta. Ela também criou o Multiplica Arte.

O Multiplica Arte é uma plataforma de disseminação de arte e cultura, do lado mais humano das palavras, aquele que nos liga através do amor e da busca por respeito e igualdade. “Eu vejo que as pessoas entram em contato com o melhor de si através da arte”. A plataforma divulga poesias, músicas, danças e outras expressões artísticas e idéias revolucionárias.

Como são as despedidas para quem vive em movimento?

Por Maria Fernanda Romero e Julia Mendonça

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é um projeto que dá voz as mulheres que estão ganhando o mundo de diferentes maneiras. No post de hoje teremos um texto super sensível de uma viajante muito especial que conheci na Bahia. A Ju Mendonça, uma mineira que está na estada desde 2017 fazendo uma rota do Japão ao México, passando por Namíbia, Moçambique e outros cantos mágicos do mundo.

menina com vestido longo colorido em cima de tabetes tipicos do Oriente médico e turbante vermelho na cabeça

Kurdistão – Iran

Julia, uma exploradora sem pré-definições

Eu acho que a maioria das pessoas se perdem com essa pergunta. Falar sobre nós mesmos é uma tarefa muito difícil. Estou em um processo de exploração de mim mesma, e essa palavra “explorar” já significa muito sobre mim.
Julia é uma exploradora do mundo, exploradora de sentimentos, culturas, religiões, pessoas e emoções. Como viajante do mundo, eu não poderia viver de outra maneira. Eu preciso estar aberta a tudo o que me chega no percurso dos meus caminhos. E quase sempre eu estou…aceito e recebo tudo com gratidão.
Falar brevemente de mim não é fácil, porque não sou um relato único, sou um todo – forte, apaixonada, curiosa e, acima de tudo, muito viva. E assim vivo, para SER VIVO.

julia sentada em um tapete fumando o classico shisha, ou narguile, arabe

Shiraz- Iran

“Hoje resolvi escrever sobre as despedidas”

Sempre quando começo a pensar em escrever sobre alguma coisa que vivi nesses últimos 3 anos viajando pelo mundo, fico confusa em como organizar uma ideia, muitas vezes ainda nem compreendida por mim mesma, mas hoje resolvi escrever sobre as despedidas, mesmo que agora não seja muito bem a hora delas. Agora é hora de presença e não de partida, e um viajante de longo prazo começa a entender isso na estrada mesmo, que as vezes é hora de ficar.

Uns dias, umas semanas, uns meses. Por um amor, por um amigo ou pelo próprio corpo que pede pra ficar, e o coração é quem escolhe por quanto tempo.
Mas a gente sabe que em algum momento vai partir, já que a estrada sempre nos chama, e a parte mais difícil de uma viagem de longo prazo é na verdade partir. No caso, sempre partir.

Júlia com alguns jovens de todas as idades e suas roupas coloridas em Dar es Salaam
Moneia- Moçambique


A gente pensa que um dia vai se acostumar com a despedida mas as vezes parece que ela cria um buraco. Um interessante buraco preenchido a cada partida por sentimentos diferentes. Sentimentos confusos…que as vezes alivia, as vezes aperta o peito, e as vezes a gente sente a dor da partida no estômago mesmo.

moto com 4 passageiros na india
Moto em Delhi – Índia, sempre cabe mais um

Depende de qual situação a gente está deixando pra trás e o que vem em seguida. Quem vive na estrada sabe disso, sempre vai ter algo novo a explorar, um pico pra subir, uma trilha pra fazer, um país interessante e uma outra família pra nos receber.

Somos curiosos, queremos sempre bater de frente com o novo, temos muitas perguntas e poucas respostas. Porém, logo um viajante percebe que a viagem por si só não dá as respostas prontas. É preciso ver as respostas em cada movimento, e talvez por isso a gente sempre se move.

duas indianas com roupas tipicas no deserto de Thar
Deserto de Thar- India


As vezes partimos com a sensação entalada na garganta mesmo, um choro não chorado, e acabamos por mergulhar nos nossos próprios sentimentos mais profundos de desapego e gratidão. Despedir quase sempre é difícil, e as vezes é necessário se despir também, tirar tudo que tá no corpo e na alma e esvaziar-se.
Sair do lugar assim vazio, se REconhecer no vazio, e despertar pra uma nova trajetória que sempre existirá, já que a estrada nos grita por todos os lados, a “estrada, essa desgraçada”.

As vezes eu quero que ela me deixa em paz, mas ela sempre foi a maior concorrência dos meus grandes amores e endereço fixo

Porto e vinho na beira Douro

Por Maria Fernanda Romero

Minha viagem para Porto começou com um pequeno empecilho, mas isso faz parte. O bom é que, com o passar do tempo, a gente aprende e quanto mais aprendemos, menos perrengues passamos. O que aconteceu foi:

Comprei um voo low cost da companhia Ryanair. Para quem não sabe, algumas companhias na Europa fazem trechos por um preço muito baixo. Tem voos de 5 até 40!!! A desvantagem é que você pode viajar somente com a bagagem de mão, de até 10 kg, e o check-in tem que ser feito antecipadamente pela internet.

Eu amo voos low cost, mas é muito importante tomar cuidado com as regras de cada companhia (Ryanair, Vueling, easyJet, Iberia,…) que podem variar. A primeira vez que fiz uma viagem low cost, por exemplo, tive que pagar uma taxa por não ter feito o check-in online. Dessa vez o problema foi o tamanho da minha mala. Ela estava estufada e passava das medidas permitidas pela companhia, apesar de não passar do peso. Então eu teria que pagar 50€ para despachá-la. Como 50 se a passagem tinha sido 10? Não podia ser verdade. Pedi por favor, implorei, mas não adiantava. Então uma funcionária do aeroporto, que assistia o show me disse: “vista todas as roupas”.

grafite de mao em muro de Porto em Portugal

Uma ótima ideia para quem já estava pensando em abandoná-las. Fui para Porto com todas as minhas roupas no corpo, mas não paguei nenhuma taxa. Que bom, porque o dinheiro estava contado.

O QUE FAZER EM PORTO

Porto é uma cidade pequena, mas que tem muita coisa para fazer. Eu comecei o passeio no centro histórico, na praça dos Leões. Diferente dos centros das grandes cidades, o de Porto é silencioso e tranquilo. Portugal, em geral, é um país bem tranquilo, com muito mar azul e barulho de pássaros.

igreja de azulejos em Porto
Igrejas coladas

Uma coisa que eu acho super charmosa em Portugal são os bondes e ver o bode passar da praça dos Leões é como viajar no tempo. Além disso, lá ficam as igrejas coladas, a Igreja dos Carmelitas Descalços e Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Na teoria era proibido construir igrejas geminadas, então há uma pequena casa, quase invisível, dividindo as duas. Entretanto, apesar de serem coladas, essas duas igrejas são muito diferentes entre si: A Igreja dos Carmelitas Descalços, construída entre 1619 e 1628, tem características do barroco e do rococó. Já a Nossa Senhora do Monte do Carmo foi erguida entre 1756 e 1768 e tem um estilo arquitetônico dividido entre o barroco e o neoclássico.

Descendo pela praça, vemos um dos símbolos da cidade do Porto: a Torres dos Clérigos. Projetada pelo italiano Nicolau Nasoni, a torre, que segue o estilo barroco, foi construída entre 1754 e 1763 e tem 75m de altura. É uma subida de mais de 200 degraus e a recompensa é uma vista exuberante da cidade de Porto. O valor da subida é de 3€.

Do lado oposto da Torre dos Clérigos fica a livraria Lello e Irmão. Essa é a livraria onde J.K.Rowling começou a escrever Harry Potter. A autora, que morou um tempo em Porto, se inspirou muito na cidade para escrever o livro: As vestes pretas e as capas que os bruxos de Hogwarts usam foram inspiradas, por exemplo, nas vestes usadas pelos alunos da Universidade do Porto. A escadaria da livraria Lello também está retratada no livro. Em várias entrevistas a autoria diz que sua estadia em Porto foi um momento muito difícil da sua vida, principalmente em questões amorosas. A entrada para a livraria custa 4€, mas o valor é descontado no caso da compra de um livro.

A cidade é cheia de vielas, subidas e descidas e é uma delícia se perder por elas. Na maioria das ruas altas há um mirante com uma vista impressionante de Porto: O rio no horizonte, o mar, o colorido dos prédios…

Em uma das subida que parece não chegar a lugar nenhum, fica a famosa Catedral da Sé de Porto. Como ela sofreu muitas reconstruções, possui mais de um estilo: Romântico, gótico, mas na maior parte barroco. No interior da catedral o visitante também tem acesso ao Claustro, onde fica exposta uma coleção de objetos valiosos da igreja. A visita ao Claustro custa 3€.

vista para o rio douro em Porto

Em direção contrária à Sé, descendo toda a cidade, às margens do Rio Douro, fica a Ribeira, a parte mais charmosa da cidade com as  pontes, que levam à Vila Nova de Gaia, o rio, que por si só já é exuberante e diversos restaurantes e barzinhos. Lá também é possível fazer passeios de barco. Atravessando para o lado de Gaia, é possível contemplar um pôr-do-sol incrível. Tudo isso ao som de músicos que fazem show nas ruas ou em bares. Tudo muito alegre e muito alto astral.

Os famosos vinhos do Porto também são originários do lado de lá do rio Douro, em Gaia. Entretanto a produção é bastante rigorosa e só pode ser feita na região do Alto Douro Vinhateiro. Em Gaia é possível visitar as cavas. O vinho do Porto tem um gosto diferente, adocicado e um teor alcoólico mais elevado que o normal (até 22%). Uma visita a uma cava pode custar de 20 a 100 euros.

ponte e lua cheia

Outro passeio que eu gostei muito em Porto foi o que fiz aos Jardins do Palácio de Cristal. O parque também fica no alto de Porto, ou seja, tem uma vista extraordinária e até romântica. A natureza do parque é linda e tem até pavões passeando por lá.

COMER EM PORTO

Portugal é um dos países mais baratos da Europa. Lá a entrada da maioria dos pontos turísticos é gratuita e a comida também é muito barata. Em Porto não é diferente. Lá, com 5 euros, já se come muito bem. O prato típico de Porto é a francesinha: Um sanduíche de linguiça, salsicha, presunto (em Portugal se diz fiambre) e carne de vaca coberto com queijo derretido, ao molho à base de tomate, cerveja e outros temperos.

Também vale a pena ir ao Mercado do Bolhão, o principal da cidade, que existe desde 1914. Lá é possível encontrar queijos, bacalhau e tudo de mais típico de Portugal, em um ambiente também conservado.

E pra quem gosta de sair, Porto pode ser uma cidade pequena, mas ainda assim tem uma vida noturna agitada! A rua que concentra o maior número de bares é a rua da Conceição, perto do centro histórico.

Porto é uma cidade tranquila e muito bonita que te oferece de tudo, sempre no ritmo tranquilo de Portugal.

Rio Douro e barcos
Rio Douro

O futuro da Catalunha segue incerto

Maria Fernanda Romero

No dia 1 de outubro de 2017, a Catalunha realizou um plebiscito, ou  referendum  em castelhano, unilateral e não reconhecido pelo governo espanhol, questionando os cidadãos se eles desejam tornar a região uma República independente. O assunto dividiu opiniões entre os próprios catalães, assim, busquei investigar o que aconteceu por aqui a partir do ponto de vista de diferentes habitantes da Espanha.

Jordi*, 33, capitão de barco e catalão, explica que os motivos da luta pela independência vão além de política e economia. “A classe política espanhola influenciou um pouco, mas o determinante foi a economia. A corrupção fez muito dinheiro desaparecer, e esse dinheiro faltou nos hospitais e em muitos outros lugares. Foi isso que fez com que acordássemos. Porém não é só econômico. Poderia ser somente econômico se a Espanha aceitasse a nossa língua, a nossa cultura e as nossas tradições. Mas não aceitam. Não somos queridos por eles. Então é algo cultural também.”

Enrique*, 29, piloto de avião e madrilenho enxerga a questão separatista como um problema que saiu do controle. “Uma onda cada vez maior, que não agrada nem os espanhóis nem os catalães. É um problema que deveria ser resolvido com o diálogo e não da forma como está sendo resolvido”.

Muitos catalães questionam a autonomia e a liberdade da Catalunha, tanto na gestão da própria economia, como na participação da política espanhola, uma vez que as leis aprovadas no parlamento da Catalunha devem ser aprovadas também pelo senado espanhol para entrar em vigor e que os impostos recolhidos na região são encaminhados para Madrid.

Bandeiras da catalunya em manifestação prõ;plebicito em praça em Barcelona
Manifestação pró-plebiscito, Setembro,2017

Lucas A., 18, estudante de filosofia e política na Universidade Autônoma de Madrid, tem uma visão mais periférica. Nasceu e cresceu em Alicante, município da Comunidade Valenciana, e sua graduação é dividida entre as cidades de Barcelona e Madrid. Lucas aponta que o problema da Espanha é que Madrid sempre foi o centro de poder. Mas a relação com as outras regiões nem sempre foram boas. “A Catalunha sempre foi uma região muito rica e em alguns momentos houve conflitos entre as duas regiões. E sempre teve gente na Catalunha que queria independência, ou autonomia frente à Madrid.”

Giovanni*, 28, italiano e técnico de informática, vive em Barcelona há 10 anos. Ele explica, que a Espanha têm vários estados autônomos, que estão unidos no mesmo país. Cada um desses estados tem uma certa soberania sobre alguns aspectos. “Nem todos estão felizes em fazer parte da Espanha. Uma grande parte da população não quer se separar da Espanha, mas a outra grande parte quer. Agora não se sabe com precisão qual é a maioria. O que é certo é que a maioria dos catalães querem o plebiscito. Isso é seguro”.

bandeiras da espanha em praça de Barcelona, numa defesa de mantér a unidade do país
Manifestação anti-referendum, Setembro, 2017

“Eu nasci em Madrid. Desde que sou pequeno aprendi que Barcelona era uma das províncias mais importantes dentro da Espanha. Sempre senti que a Catalunha era parte de meu país e sempre enxerguei os catalães como parte do meu povo”, diz Enrique, que, apesar disso, concorda que uma solução poderia ser a autonomia financeira da Catalunha, assim como já é o caso do país Vasco.

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A região da Catalunha se tornou de fato parte da Espanha depois da derrota na Guerra de Sucessão ( 1701-1714) contra os Bourbon (com quem a Catalunya já estivera em conflitos anteriormente e para quem já havia perdido territórios com o Tratado dos Pirineus). O reino de Filipe V foi muito autoritário e retirou muitos direitos conquistados na região. Dois séculos depois, a ditadura franquista (1939-1976) – que foi um regime fascista autoritário em toda a Espanha – reprimiu ainda mais a população e retirou ainda mais direitos. O ditador Francisco Franco também proibiu as línguas faladas nas comunidades autônomas (Galícia, País Vasco e Catalunha) e fez de tudo para impedir o separatismo das mesmas. Assim, muitas pessoas justificam o sentimento atual separatista da Catalunha com esse histórico de repressões.

Lucas acredita que nenhuma guerra do passado pode ser usada como argumento político. “Não podemos culpar ou utilizar acontecimentos de 300 anos atrás como argumento político. Está muito distante no tempo. Mas eu enxergo que o que aconteceu há 50, 60, 70 anos atrás não se resolveu adequadamente na Espanha.”

Giovanni e Lucas acreditam, que os catalães não se enxergam como parte da Espanha. “Há uma questão de identidade cultural em que o catalão não se enxerga como espanhol e deixou de se imaginar como parte da Espanha. Além disso, o resto da Espanha também não entende os catalães.”, acrescenta Lucas.

O madrilenho Enrique acha que os catalães têm toda razão em se sentirem afetados pela ditadura franquista, mas completa “Posso te dizer que minha avó, que viveu em Madrid, passou muita necessidade, passou fome e até tiraram o comércio da família dela. E ela era de Madrid. O franquismo impediu os catalães de falarem sua língua, e eles certamente foram reprimidos. Porém, a Catalunha e toda Espanha foram reprimidas.”

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pessoas reunidas para o resultado do referendum que diria se a Catalunuya iria se tornar livre
Catalães aguardam resultado do referendum na praça Catalunha, 1 de outubro de 2017

A discussão sobre a legalidade do plebiscito ficou ainda mais intensa após a sua realização, apesar dos 2.020.144 votos a favor da independência da Catalunha. “A constituição está atrelada à Madrid e nela está escrito que nenhuma parte pode se separar. Mas se uma parte quer se separar, quais são os procedimentos? Há anos a Catalunha tenta achar uma solução para se separar da Espanha e, após não encontrar nenhuma, realizou o plebiscito”, diz Jordi.

Lucas acrescenta “Não é legal. Mas não quer dizer que não seja legítimo. Essa é a diferença. Então, acredito que, todos estamos de acordo que é importante respeitar as leis. Mas isso não quer dizer que todas as leis sejam justas. Acredito que os direitos costumam surgir conforme as necessidades.”

carro de policia parado em avenida durante o referendum em Barcelona
Polícia Nacional, 1 de outubro de 2017

A polícia nacional agiu com muita violência e repressão ao tentar impedir a votação. Os dados da Generalitat (governo catalão) é de que mais de 800 pessoas foram feridas. “Eu entendo e enxergo que eles têm outros costumes e estão insatisfeitos. Mas tudo tem que ser feito na legalidade. Eu não acho justificável a ação da polícia. A polícia agrediu muitas pessoas que só estavam votando, não estava fazendo mal a ninguém. Não gosto de ver a polícia pegando pessoas idosas e crianças. Mas foi um ato ilegal. O referendum tinha sido considerado ilegal, e mesmo assim eles fizeram acontecer.” , completa Enrique.

policia nacional reunida no dia do referendum em Barcelona
Polícia Nacional 1 de outubro de 2017

No dia 11 de outubro, Puigdemont, presidente da Generalitat, declarou a independência de forma subjetiva e retirou-a logo em seguida, pedindo diálogo com o governo espanhol. Mas Rajoy, presidente da Espanha, não quis mais negociar com a Generalitat.

O mês de outubro seguiu tenso. Cada vez mais policiais da Polícia Nacional na Catalunha e centenas de empresas deixando suas sedes da comunidade. No dia 27 de outubro, o parlamento da Catalunha aprovou a Declaração Unilateral de  Independência e Puigdemont a declarou.

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Greve Geral, 3 de outubro de 2017

A resposta do governo central foi a aplicação do Artigo 155, ou seja, toda autonomia da Catalunha foi retirada, o parlamento destituído e o governo regional demitido. O controle da região está nas mãos de Mariano Rajoy, que convocou eleições para 21 de dezembro.

O Tribunal espanhol também condenou líderes independentistas por rebelião e conspiração. Oriol Junqueras, Joaquim Forn, Raül Romeva, Jordi Turull, Josep Rull, Santi Vila, Carles Mundó e Carme Forcadell são os presos políticos que mais geraram manifestações e reações negativas por parte do povo. Carles Puigdemont foi destituído da presidência Generalitat e está em exílio em Bruxelas, Bélgica, com outros representantes do seu governo.

cartaz pedindo liberdade aos presos políticos
Manifestação para liberdade dos presos políticos

Ninguém se atreve a dizer se o futuro político da Catalunha  será melhor ou mais desastroso, mas Giovanni problematiza a discussão generalizada que a política ganhou “Uma coisa que um pouco me doí sobre a separação é a fratura social que isso criou. Eu já vi amigos que já não se falam, já vi casais que se separaram, já vi famílias que não se falam entre si. Isso eu não gosto. A razão não me interessa. Mas o que eu lamento muito é que toda essa polaridade tenha gerado uma fratura social.”

Dia 21 de dezembro a Catalunha terá a chance de eleger, mais uma vez, um governo independentista. Mas isso a fará livre ou ainda mais reprimida e sem autoridade?

O universo imenso que é Roma

Sempre escutei, até dos próprios italianos, que a Itália era uma zona de Roma para o sul. Bom, eu sou brasileira e não tenho medo de bagunça. Mas, de fato a percebi, quando desci no Aeroporto Fiumicino em Roma, fui comprar o bilhete do trem e a máquina não estava funcionando. Primeiro achei que o problema era eu. Perdida e sem saber o que perguntar, nem para quem, resolvi observar as pessoas.

Um italiano, do jeito que eu imaginava que eles eram, chegou para comprar o bilhete. Se revoltou com a máquina. Bateu nela e começou a falar muitos palavrões. Eu não consegui segurar o riso, era isso mesmo: Eu estava na Itália. Segui o italiano irritado e perguntei o que tinha acontecido. Ele respondeu: “Nada em Roma funciona!!!!”. Então indaguei como eu podia chegar ao centro. Ele respondeu que tinha um ônibus. Parece então, que ainda tem coisa que funciona.

praça venezza em Roma. Monumento de fundo e pessoas passando.
Piazza Venezia

O QUE FAZER EM ROMA

Peguei o ônibus até a estação central Termini. De lá é possível pegar trem, metrô e ônibus para qualquer lugar da cidade e também para outras cidades da Itália. Roma me encantou e me envolveu de uma forma diferente. Tudo o que dizem é verdade: A cidade é um museu a céu aberto. Construções clássicas, renascentistas e modernas. Muito mármore e janelas simétricas por todos os lados.

COLISEU

Uma das sete maravilhas do mundo, o Coliseu, é um bom ponto de partida para começar a conhecer a cidade. Símbolo do Império romano, é o maior anfiteatro do mundo. Um modelo absoluto de arquitetura, construído por ordem do imperador Flávio Vespasiano e concluído durante o governo de seu filho Tito.

coliseu, monumento romano, com a lua cheia no ceu
Coliseu

O anfiteatro demorou 8 anos para ser concluído. O material usado na obra foi: tijolos, blocos de tufa (uma espécie de pedra vulcânica), concreto e principalmente mármore travertino. Com capacidade para 50 mil pessoas, os assentos eram distribuídos conforme as classes sociais. O pódio, a parte mais perto da arena, para as classes mais altas, a maeniana era destinada para classe média e o portici para a plebe e para as mulheres.

A função do anfiteatro era entreter o povo, que ia à loucura com sangrentas mortes de animais, prisioneiros de guerra e combates entre gladiadores. Mais de 10 mil gladiadores morreram lá em três séculos de combates, duelando entre si ou enfrentando animais ferozes.

coliseu por dentro em um por do sol que deixou o ceu rosa
Coliseu

Hoje, o Coliseu nos mostra toda grandiosidade do que foi o Império Romano, mas também traz à tona a reflexão: por que a morte era um espetáculo? Será que ela deixou de ser? Como o ser humano pode ainda ser tão sádico e ver entretenimento no sofrimento do outro?

Foruns paltinos e romano em Roma com as ruínas do império romano
Fóruns Palatino e Romano

O mesmo ingresso do Coliseu, dá direito à visita ao Fórum Romano e ao Palatino. Roma é formada por sete colinas e foi no Monte Palatino, que a cidade começou. Ali /imperadores construíram suas casas e formaram os fóruns. Durante séculos, foi nos fóruns de Roma que toda a vida pública do Império aconteceu: eleições, julgamentos e outros assuntos comerciais eram discutidos ali. Hoje, as ruínas de construções importantes como o Arco de Tito, Basílica Giulia e Templo de Saturno contam um pouco dessa história. Há poucos metros do Fórum fica a Piazza Venezia. Uma das praças mais famosas da cidade, onde está o Vittoriano, um monumento dedicado ao rei Vittorio Emanuele II.

Foruns paltinos e romano em Roma com as ruínas do império romano e a vista da cidade em segundo plano
Fórum Palatino e Romano

Roma tem muitas outras praças incríveis. A Piazza Navona é uma delas e fica na mesma região de outro monumento imperdível, o Pantheon. Construído durante o reinado do imperador Augusto (27 a.C – 14 d.C) e dedicado a todos os deuses romanos, é, ainda hoje, a maior cúpula de concreto não reforçado do mundo.

A Piazza di Spagna é onde fica a Fontana della Barcaccia, escultura barroca de Pietro Bernini e seu filho, Gian Lorenzo Bernini. Ao lado direito, uma escadaria que leva à antiga casa do poeta inglês John Keats. Subindo a escadaria temos uma vista linda da cidade. Próxima a Piazza di Spagna fica a Fontana di Trevi. Uma outra praça mais vazia e com uma incrível vista e pôr-do-sol é a Piazza del Popolo, ao lado da Galleria Borghese, onde há obras de Antonello da Messina, Giovanni Bellini, Raffaello, Caravaggio, entre outros.

pantheon de roma
Pantheon

Para conhecer a cidade do Vaticano, é necessário um dia inteiro. As filas para visitas são enormes, o melhor é se organizar e já reservar ingressos pela internet. A Basílica de São Pedro, na Praça São Pedro, tem entrada gratuita, mas são vendidas entradas sem filas e também visitas guiadas. É lá que fica a Pietà, de Michelangelo. Também é possível subir na cúpula da Basílica por 6 euros de escada ou por 8 euros de elevador.

por do sol laranja da praça do povo em roma
Piazza del Popolo

A visita aos Museus do Vaticano e Capela Sistina custa 16 euros, mas são vendidos pacotes de até 50 euros com guia e sem fila. É tudo muito lotado e grande, então a visita requer tempo, mas vale muito a pena, uma vez que importantes coleções para história da humanidade estão ali. Raffaello Sanzio pintou algumas salas internas do Vaticano, enquanto Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina.

Basilica São Pedro em Roma
Basílica de São Pedro

Experiência gastronômica: Além de todos os passeios incríveis, da paisagem linda e de toda história aprendida e vivenciada, Roma me proporcionou as melhores refeições da minha vida.

O QUE COMER EM ROMA

As pizzas e a massa fazem jus à fama que têm. Os italianos costumam comer uma entrada, a massa como primeiro prato, depois um segundo prato de carne ou peixe e por último, claro, a sobremesa. Eu ficava satisfeita só com a massa. Tanto faz o molho – pesto, carbonara ou quatro queijos -, tudo é muito grande e saboroso. Outro prato que me conquistou foi a berinjela a parmegiana. As sobremesas que mais gostei foram Panna cotta, um tipo de pudim, Amarene, uma fruta cítrica e o Tiramisù, doce com o amargo do café. Para quem quer experimentar a tal culinária italiana, recomendo os restaurantes Giglio, Matriciana e Trattoria.

Roma supera toda e qualquer expectativa. Um lugar para quem ama arte, história, comida e aprecia o jeito enérgico dos italianos.

A efervescência da capital espanhola

O QUE FAZER EM MADRID

À primeira vista, Madrid se parecia com qualquer capital do mundo, inclusive com a que eu nasci. Carros, prédios, barulho e trânsito. Entrei em Madrid pela aveni da América. Estava de carona com um blablacar. O aplicativo é muito útil e econômico. Fui de carro até o centro observando a cidade pela janela e sentindo também seu ar seco e quente. Quase não chove ao longo do ano na capital espanhola. O clima segue extremos: muito quente ou muito frio.

Madrid em dia ensolarado. Predios com bandeiras da Esapanha e muito verde
Madrid

Comecei a conhecer a cidade pela Gran Vía, uma das principais avenidas da capital. Bancos, teatros, bares e a charmosa arquitetura do século XX acompanham o passeio. Também vale a pena caminhar pelo centro histórico da cidade, onde ficam situadas a Plaza Mayor, o Mercado de San Miguel, a Catedral de la Almudena , dentre outros pontos turísticos importantes para história espanhola.

Durante a dinastia dos Áustrias, a Plaza Mayor era palco de festas populares, corridas de touros e também manifestações religiosas. O coração da cidade velha ainda mantém traços da história espanhola. Também é um ótimo lugar para comer. Ali perto fica um dos restaurantes mais velhos do mundo, Sobrino de Botín, fundado por Jean Botin em 1725. O restaurante ainda funciona na Calle Cuchilleros e mantém os mesmos pratos principais desde da sua inauguração: Sopa de alho com ovo, porco e cordeiro assados no forno à lenha estão entre as especialidades do restaurante.

Madrid em um dia ensolarado. A famosa Puerta de Alcalá
Puerta de Alcalá

O Palacio Real, ainda no centro histórico, fica aberto para visitação todos os dias, de abril a setembro das 10h às 20h e de outubro à março das 10h às 18h. O valor do ingresso é 11 euros. De segunda à quinta, depois das 16h é possível visitar o palácio gratuitamente.

Também no centro de Madrid está a Puerta del Sol. Na praça fica, desde 1950, o marco zero de todas as estradas espanholas. Ali era literalmente uma porta de entrada para Madrid no século XV, quando a cidade era rodeada por uma muralha. A porta recebe os primeiros raios de sol do dia e, por isso, também leva o nome Sol. Na praça também está a famosa escultura “Oso y el Madroño”: O urso que apoia suas garras num arbusto de madronho foi esculpido em 1967 por Antônio Navarro Santafé.

O simbolo da capital da Espanha Madrid e ao fundo um ceu azul
Puerta del Sol

Outro lugar lindo em Madrid é a Plaza de Cibeles. Na bifurcação entre o Passeo de Recoletos e da calle de Alcalá (onde fica a Puerta de Alcalá) fica a Fuente de Cibeles. O contorno da praça é inundado pela arquitetura neoclássica,  em destaque  o Palacio de Cibeles ou Palacio de Comunicaciones, atual prefeitura de Madrid. A fonte, que representa a deusa romana Cibele, símbolo da terra, agricultura e fertilidade, também marca o início do Passeo del Arte.

ARTE EM MADRID

O Passeo del Arte é o nome que foi dado à região entre os trechos do Passeo del Prado e Passeo de Recoletos onde encontram-se diversos museus. Os mais famosos são o Museo del Prado, o Museo Nacional de Centro de Arte Reina Sofía e o Museo Thyssen-Bernemisza, mas além deles, existem outros diversos museus na região, como a Casa de América, o CaixaForum Madrid e o Real Observatorio.

No Museo del Prado encontram-se obras de Caravaggio, Lorenzo Lotto, Maella, Diego Velázquez e Goya. O Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, tem três itinerários com reflexões muito interessantes: “A erupção do século XX: utopias e conflito (1900-1945)”, “A guerra terminou? Arte para um mundo dividido (1945-1958)” e “Da revolta para a pós modernidade (1962-1982)”. Na primeira parte está o quadro mais famoso do museu, “Guernica”, de Picasso. Já o Museo Thyssen-Bornemisza expõe tanto obras clássicas italianas do século XV de artistas como Ghirlandaio e Caravaggio, como obras dos vanguardistas, Monet, Van Gogh, Picasso e Dalí.

FAMOSO PARQUE EM MADRID, ARVORES VERDES E ALGUMAS FICANDO LARANJA.
Parque del Retiro

Seguindo pelo Passeo del Arte até o Jardim Botânico está uma das entradas do Parque del Retiro, um dos maiores parques de Madrid que é encantador. É um passeio super madrileño, com muito verde (mais de 15 mil árvores), um lindo lago e o Palácio de Cristal.  No parque também tem o monumento “O Ángel Caído” (ou “O Anjo Caído”) , esculpido em 1877 por Ricardo Bellver. Dizem que Madrid é a única cidade do mundo com um monumento ao Diabo.

PALACIO DE CRISTAL EM MADRID AO FUNDO DE UM DIA LINDO DE SOL
Palacio del Cristal

O pôr-do-sol mais incrível que vi em Madrid foi no gramado do Templo de Debod. O monumento foi doado pelo Egito, em agradecimento à ajuda espanhola para resgatar o complexo de Abu Simbel, em 1968. Outros parques da cidade, que agradam madrileños e turistas, são o Madrid Río e o Casa de Campo. É interessante lembrar que, como na Europa as estações do ano são realmente marcadas, o horário do pôr-do-sol varia. No verão o dia pode chegar a durar até às 21h30, enquanto que no inverno escurece no máximo às 18h

O que comer em Madrid

A comida de Madrid é muito caseira. O prato mais famoso é o cocido madrileño, que é feito com sopa, grão de bico e carne. Nos bares são mais comum as “tapas”: petiscos, como batatas bravas e nachos. O jámon, presunto espanhol, também conquista muitos turistas.

sol alaranjado em Madrid , com fonte em primeiro plano
Templo de Debod

Outros bairros incríveis, menos turísticos e com uma vida noturna muito ativa são La Malasaña, La Laitna e o Lavapiés. Sendo La Masaña mais boêmio e elitizado. Os outros dois são bem alternativos, com bastante contracultura e imigrantes de todo o mundo.

Madrid é uma capital muito rica e cheia de vida. Os madrileños lembram muito os latinos na forma de se relacionar uns com os outros. Uma cidade menos feita para o turismo se comparado com outras regiões da Espanha, como Barcelona, onde você vive intensamente a cultura local espanhola.

templo de Debod erm Madrid em primeiro plano, com reflexo na agua e no fundo por do sol
Templo de Debod

Catalunha, um novo país europeu?

Por Maria Fernanda Romero

Em todo prédio de Barcelona há pelo menos uma bandeira da Catalunya exposta em alguma janela de ferro. Os catalães nunca se identificaram como espanhóis, mas agora o clima de separação é sentido em cada esquina.

A cultura catalã deixa traços desde da era medieval. A língua é rica e símbolo de resistência contra ditadura franquista, que proibiu o catalão na época. “Eu ía a aulas clandestinas para aprender algo do meu idioma. Tudo e todos aqueles que poderiam parecer uma ameaça eram perseguidos, naturalmente, já que era uma ditadura” M., 52. O catalão não é mais proibido, porém o povo ainda sente que a língua é apagada pelo castelhano.

Bandeiras da Catalunya em prédios de BarcelonaBandeiras da Catalunya em prédios de Barcelona

A província autônoma também tem um hino próprio, que foi escrito em durante a guerra dos Segadors. A música diz, que os soldados ficavam nos povoados e desprezavam a comida, vinho, matavam gente e estupravam mulheres. O povo reclamava e não acontecia nada. Até que um dia mataram um trabalhador de campo (segador) que estava em Barcelona tentando resolver a situação. A partir de então começou a revolta, várias pessoas importantes na época, inclusive o vice-rei da região, foram mortas. Pau Claris declarou a república Catalã em 1641 e a revolta durou até 1659.

Uma das consequências da guerra é o tratado dos Pirineus.  Em 1714, os catalães entraram em novo conflito contra o rei autoritário e centralizador de poder, que queria tirar (e tirou) a autonomia da região na  Guerra de Sucessão. Com a derrota da Catalunha a região passa formar parte do Estado espanhol.

Diferentemente de outras regiões separatistas da Espanha, os catalães sempre buscaram o diálogo. Em algumas consultas feitas pela Generalitat, como é chamado o governo Catalão, a mais importante em 9 de novembro de 2014, a população demonstrou a vontade de votar em um plebiscito se a Catalunha deveria ou não se separar da Espanha. Os casos de corrupção do Partido Popular (PP), cujo o líder é o presidente do governo Espanhol Mariano Rajoy, foi o estopim para que a Generalitat anunciasse o tal referendum em 2017.

ato a favor do referendum em Barcelona

A Espanha não aceitou o plebiscito em nenhum momento. A guerra política começou. O parlamento catalão aprova a “lei da ruptura”, ou seja, leis do novo país caso o “sim” ganhasse. O Tribunal Constitucional espanhol não a aceita. O governo continua fechado para o diálogo. O presidente da Generalitat, Puigdemont e a alcaldesa de Barcelona Ada Colau enviam uma carta para o rei Felipe VI e para Rajoy pedindo uma resolução para o caso espanhol . A resposta é: só haverá negociação se não houver plebiscito.

ato a favor do referendum em Barcelonaato a favor do referendum em Barcelona

Enquanto isso as ruas borbulham. Manifestações todos os dias. O povo quer ser ouvido. A repressão aumenta e 14 funcionários do governo catalão são presos em buscas de materiais que seriam usados no dia 1 de outubro. Outros são multados no valor de 12 mil euros. Mais pessoas às ruas. O governo ameaça e a ordem final é que a polícia impeça a votação a qualquer custo.

ato em favor do referendum em Barcelona

O dia primeiro de outubro de 2017 amanheceu cinza. Frio e chuva acompanharam esse dia de tensão e história na Catalunha. Fui a um colégio eleitoral em Gràcia acompanhar a votação. A fila era imensa e a primeira notícia que chegou foi a de que a Polícia Nacional estava invadindo escolas por toda parte com muita violência. Alguns vídeos começaram a circular nas redes sociais. Massacre e covardia: Não existe outra definição para atuação da polícia espanhola, mas isso só motivou as pessoas a saírem de suas casas.

Me aproximo de um senhor de aproximadamente 70 anos. Pergunto se ele pode me dar uma entrevista. Ele me olha desconfiado, “Sobre o que? Não há nada para se dizer”. Eu respondo “sobre a votação” e digo que sou uma jornalista independente: Escolhi a palavra certa. “Periodista independiente?” Ele muda o tom. Diz que também quer ser independente. Era justamente disso que se tratava a situação. Perguntei se ele tinha medo da polícia. “A princípio não. Olha ali a polícia”, diz apontando os Mossos d’ Esquadra, polícia interna da Catalunha, que também tinha sido ordenada a fechar escolas, mas cuja maioria não cumpriu a ordem. “Somos pessoas normais. Só queremos votar, não devemos ter medo da polícia”. A última pergunta que faço é o que vai acontecer se a Catalunha se tornar livre. “Nunca seremos livre, estamos na Europa”, finaliza o senhor.

“Medo? Não, não não. Não há medo! Não há medo para nada.” C. me responde determinada. “Já estamos vencendo. Vencer é isso, é votar. Ou pelo menos tentar. Força Catalunya!” completa antes de se despedir.

dia da votação em Barcelona

Sigo para Praça Catalunya, onde um pequeno grupo protesta a favor da união com Espanha. P. afirma que, em primeiro lugar, não há um plebiscito: “O que está acontecendo é inconstitucional e não tem nenhum apoio das instituições públicas”. Reforça que é, inclusive, uma afronta contra o estado autônoma da Catalunha.

ato contra a independencia da Catalunya em Barcelona

“Não me sinto motivado a votar, porque votar é apoiar isso. Somente votam os partidários do governo, isso não tem nenhuma validez política. Se eu estivesse participando estaria reconhecendo uma validez que não tenho”. P. acredita que a Espanha é um país plural e que as diferenças entre as regiões reforçam isso. “Todos falamos duas línguas aqui e também há outras línguas na Espanha como o galego e o basco. Isso nunca foi um problema antes. Faz parte do que é a Espanha”.

A oposição acredita que o discurso de Puigdemont, presidente da Generalitat, é vitimista e que o estado autônomo permite o controle da polícia ( Mossos d´Esquadra), da educação e também dos serviços sanitários. “A Catalunha tem muita liberdade e autonomia. Os deputados catalães também estão no congresso e podem defender suas leis. A Espanha respeita a Catalunha”. P. ainda completa que é um absurdo a Generalitat dividir o povo entre bons e maus. “A violência está acontecendo porque a Generalitat está provocando isso para ganhar legitimidade. Eles querem que aconteça a violência e sabiam que ia acontecer se organizassem um referendum ilegal, mas espero que a gente consiga achar uma solução pacífica”.

Enquanto os “espanholistas” protestam, os telões armados na Praça Catalunya mostram imagens dos colégios fechados pela polícia. Literalmente um filme de horror em praça pública. Volto para o colégio na Gràcia e, diferentemente do que imaginava, o clima é de completa paz. O número de pessoas que saíram para votar tinha triplicado. A escola tocava músicas típicas da região e as pessoas na rua dançavam e gritavam hinos de resistência.  Alguns voluntários anunciavam as notícias pelos altos falantes. Um contingente cada vez maior se formava em volta da escola para impedir a chegada da polícia e, principalmente, para proteger as urnas.

Policiais espanhois em uma praça em Barcelonapolicia em Barcelona

Naira L,19, é catalã, mas vive em Madri e estuda Filosofia e Política. Ela viajou da capital do país até Barcelona (630 km) para votar nulo, afinal ela faz questão de votar. “É pela democracia”. Ela diz que os espanhóis não entendem porque os catalães querem a separação. “Eles dizem que é ou porque somos egoístas, ou por outros motivos que não são importantes, e não percebem que o governo do PP não enxerga a Catalunha”. Ela me conta que, na verdade, apenas metade dos catalães querem a separação, mas quanto mais o governo reprime e ataca, mais motivadas as pessoas ficam a a apoiarem. “Temos o direito de votar, votar é democrático”. Ela finaliza dizendo que não tem vontade de encontrar a polícia, “mas eu sei que a nossa polícia protegerá a gente caso a nacional venha aqui. Mas olhe em volta: Tem muita gente, não passará nada”.

O clima de comemoração e ansiedade só aumentou às 20h, quando o plebiscito acabou. “É que agora vão contar os votos”, um catalão me explicou, “as urnas não podem sair daqui, por motivos óbvios, então temos que protegê-las até eles terminarem de contar,”  Um dos voluntários pediu no alto falante para que as pessoas colocassem seus celulares em modo avião. O sinal de internet estava fraco e havia a especulação de que o governo tinha cortado as redes móveis. Enquanto os votos eram contados a mão, pouco a pouco as pessoas saíam em direção à Praça Catalunya, onde o resultado seria anunciado.

O caminho de volta para praça era escuro e tenso. As ruas vazias, a polícia ostentava suas armas e os estabelecimentos estavam todos fechados, mas, chegando na praça, parecia final de Copa do Mundo: Telão, música, bandeiras. A sensação era de vitória, afinal, eles votaram. E eles gritavam “Hem votat, hem votat” (nós votamos, em catalão).

Já era madrugada quando os números foram divulgados. A primeira notícia foi vergonhosa: 844 feridos em confrontos e repressão. Mais feridos que em qualquer ataque terrorista, dos quais eles têm tanto medo. Em seguida a notícia que todos esperavam: 2.020.144 a favor da separação: 90% dos que votaram. Os catalães comemoram a notícia que traz, também, inúmeras dúvidas sobre o futuro incerto da Espanha.

comemoração pós votação em Barcelona. MIlhares de pessoas na praça com bandeiras da Catalunyaprédio com os dizeres de hola democracia em Barcelona

La Mercè: vivendo Barcelona

Por Maria Fernanda Romero

A FESTA DA PADROEIRA DE BARCELONA

A festa da padroeira de Barcelona, La Mercè, é o maior festival gratuito da cidade. Ocorre no fim de setembro, promovendo uma imersão na cultura popular da Catalunya, integração entre a população e ocupação dos espaços públicos. Todo ano uma cidade é homenageada, esse ano foi a capital islandesa Reykjavik.

“Ocupar o espaço público da cidade cria a identidade de cidadão nos moradores”, explica Gabriela Chiaramelli, 25, arquiteta e mestre em sustentabilidade pela Universidade Politécnica da Catalunya, “isso reflete na forma como o indivíduo cuida da cidade,  pois, uma vez que a população se sente parte dela, um sentimento de dever civil é alimentado em cada um”.

Projeção audiovisual de uma capsula dentro de um parque de Barcelona
Projeção audiovisual no Parc de la Ciutadella

A extensa programação de La Mercè conta com uma maratona de shows divida entre artistas locais de diferentes estilos e o BAM (Barcelona Acció Musical), que foca na música internacional, e, principalmente, da cidade convidada. Projeções audiovisuais, circos e outras demonstrações típicas acontecem em diversos pontos turísticos da cidade, como no Castelo de Montjuic, no Arc del Triomf  e no Parc da Ciutadella.

“Descentralizar as atrações e promover a festa aberta para o público é mais uma vantagem para Barcelona, cidade cujo maior atrativo turístico é a própria cidade”, analisa Denis Santaella , 25, arquiteto e mestre em paisagismo pela Universidade Politécnica da Catalunya. “A prefeitura promove um evento dessa magnitude e tem capacidade de equipar temporariamente todos os espaços, para suprir as necessidades da festa. Além disso tem um sistema de limpeza de rua, que, em uma hora, já está tudo limpo”.

projecao de um antifiatro em fomato de queijo em um parque em Barcelona
Projeção audiovisual no Parc de la Ciutadella

bonecos de luz dancando no escuro em Barcelona
Arc del Triomf

Momento histórico

As representações típicas desse ano tiveram uma conotação especial, uma vez que a Catalunya está vivendo um momento histórico de sugestão de um referendum unilateral de separação da Espanha. Dentre essas representações as que mais se destacam são:

Trupe dos Gigantes: Os gigantes festivos apareciam em contextos religiosos durante o século XV, mas no decorrer dos séculos ganharam um caráter totalmente lúdico e festivo. São símbolos da identidade local e desde 1902 a prefeitura organiza concursos de gigantes. Também foram usados como forma de protestos durante a guerra civil. Seus desfiles seguem uma linha carnavalesca, lembrando os bonecos de Olinda no Brasil.

Correfoc: o Correfoc é um desfile inspirado no “Baile dos Diabos”, uma apresentação feita durante o casamento do Conde de Barcelona com a princesa de Aragão no século XII. O “Baile dos Diabos”, assim como alguns teatros de rua medieval, tinha como temática a alegoria da luta do Bem contra o Mal em que, nem sempre, o diabo representa o mal. Atualmente o Correfoc é uma apresentação em que grupos fantasiados de diabos e dragões saem à noite no meio da multidão com fogos de artifício.

apresentacao de falcons na praca jaume em Barcelona
Falcons de Barcelona na Praça Jaume I

apresentacao em praca em Barcelona
Falcons de Barcelona na Praça Jaume I

Castells, falcons e mojiganga:  São construções humanas cada vez maiores e mais complicadas. A prática é uma evolução dos bailes valencianos. Em Barcelona é muito comum e tem até competição entre os grupos. Os casteleiros foram considerados Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO em 2010.

Manoel,39, faz parte dos falcons de Barcelona que se apresentaram na Praça Jaume I durante a La Mercè. Há 8 anos ele treina 5 horas por semana e não consegue disfarçar a emoção de estar se apresentando na maior festa de Barcelona. “Estou muito contente de estar aqui, La Mercè é a nossa oportunidade de mostrar nosso trabalho do ano todo”.

Projeções, apresentações impecáveis, músicas e um entorno que te transportam para Idade Medieval.  Aline Pinheiro, 25, designer, brasileira de passagem por Barcelona acha que o único defeito da festa é a área gastronômica. “Tem food trucks em todos os pontos, mas a comida não é tão boa e é mais cara que o normal”.

casal em apresentação de circo em castelo de Montjuic
Circo no Castelo de Montjuic

vista da roda gigante em barceloneta, com barcos, montanhas e mar
Roda Gigante em Barceloneta

Catedral de Barcelona durante a festa da padroeira La Merce
Catedral de Barcelona

Um dos momentos mais lindos do festival foi o encerramento. Um minuto de silêncio em respeito ao atentado terrorista em Barcelona. E então começou o emocionante espetáculo: um show pirotécnico na frente da mágica fonte de Montjuic, praça Espanha, em que água, música, luz e sombra, dançaram na mesma sintonia.

fogos na praça Espanha em Barcelona durante encerramento
Encerramento na Praça Espanha

Aljezur: Uma vila azul em Portugal

Por Maria Fernanda Romero

Chegando em Porutgal

Eu já perdi a conta de quantas vezes andei de avião. Mais de trinta, com certeza. Porém, ainda tenho medo de voar. Sempre fico inquieta, monitorando a rota do avião pela função “mapa”. Deve ter vários malucos assim, não é à toa que essa função esteja disponível no dispositivo de entretenimento de viagens.

Pelo mapa soube que estava perto de Lisboa, meu destino final, mas, pela janela do avião, eu via um vasto litoral. Amplo. Era o Oceano Atlântico marcado pelas falésias que determinam o começo de Portugal.

praia em aljezur, casa de surf, bandeira de Portugal
Praia de Monte Clérigo

Desci no aeroporto de Lisboa com meu mochilão de 50 litros pesando 15kg, uma mala de rodinha com mais 15kg e minha prancha. 10kg deveria ser o suficiente para todos os pertences dessa vida, mas ainda não cheguei nesse patamar de desapego. A questão é que não foi fácil andar até o metrô.

Fui até a estação Jardim Zoológico – onde pegaria o ônibus para Aljezur, no Algarve – arrastando a prancha e sendo ajudada por muitas boas almas. A Rede Expresso é a linha de ônibus que faz o trajeto. Saem 4 autocarros por dia e o bilhete custa 18 euros, mas jovens de até 25 anos têm desconto.

barco em Lisboa, ponte 25 de abril, oceano atlântico
Lisboa

Aljezur

Aljezur fica no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), no Algarve. Fica perto da capital, Faro – onde também há um aeroporto internacional – e das cidade Albufeira e Lagos.

Minha história com essa cidade começou quando buscava algum lugar para ficar em Portugal durante o mês de agosto. Achei, pelo site worldpackers, uma oportunidade de trabalho em troca de acomodação e comida. Esse site assim como outros de trabalho voluntário (como workaway e helpix) é uma ótima opção para quem busca viajar gastando pouco dinheiro e experienciar realmente a vida local. Procure sempre escolher lugares bem avaliados, eu não tive tanta sorte no local que fiquei, mas o fato de a cidade ser maravilhosa compensou.

mar e oceano em portugal
Aljezur

mar e montanas em Portugal
Aljezur

Trabalhando em Aljezur e morando em Monte Clérigo, vivi dias incríveis do verão português. De dia, muito calor: uma média de 30ºC. Já, ao anoitecer, muito frio: A temperatura pode cair pela metade na madrugada, chegando aos 15ºC.

As praias são maravilhosas. A água gelada lembra o mar do sul do Brasil. O oceano aberto, as falésias e as grutas naturais te mostram, que você está no Algarve, um dos lugares mais lindos do mundo. É também um ótimo destino para quem surfa: Ondas perfeitas praticamente todos os dias. Além disso existem várias escolas e surfcamps na região.

praia, mar e montanhas em Portugal
Aljezur

praia, mar e montanhas no sul de Portugal
Aljezur

A locomoção sem carro é um pouco complicada, já que as praias são um pouco distantes umas das outras, entretanto é possível pedir carona – ou boleia como se diz em português de Portugal. Pegar boleia é seguro e fácil. Eu fiquei o mês todo dependendo desse método de locomoção, o que também fez com que eu conhecesse várias pessoas legais do mundo inteiro.

O que comer em Aljezur

Por ser uma cidade litorânea, encontra-se muito peixe na gastronomia local: Camarões, lula e bacalhau são pratos comuns, mas também é possível achar de tudo: pizza, hambúrguer e até comida latino-americana.

Praia e falésias em Arrifana
Arrifana

Escada no meio das motanhas que leva até um rio na praia em Aljezur
Aljezur

Conheci muitas pessoas, principalmente jovens que, como eu, buscam viajar, conhecer pessoas e lugares e, acima de tudo, se encontrar antes de ir atrás de uma carreira. Me arrisco a dizer que o jovem brasileiro quer se encontrar profissionalmente antes de se encontrar pessoalmente. Nosso método educacional, cada vez pior e mais restrito, nos obriga escolher e nos dedicar muito cedo a opções de carreiras que não aprofundam realmente as nossas habilidades. Já, na Europa, a maior parte das faculdades é multidisciplinar. Ao longo do curso você vai restringindo seu campo de estudo. Assim como existem diferentes tipos de Ensino Médio, para diferentes tipos de pessoas. Também é muito comum o programa de intercâmbio “Erasmus” durante a graduação.

Estrada e no fundo montanhas e ceu
Aljezur

Viver fora da sua cultura pode ser um choque a cada dia, mas é também um constante aprendizado. Eu tive muita sorte: Aljezur é maravilhosa, as praias são tranquilas e a brisa do vento é constante. É um lugar que deve ser visitado por todos que gostam da tranquilidade e do mar.