“Mas você não tem medo de viajar sozinha?”

Por Maria Fernanda Romero

Sempre me perguntam sobre como vencer o medo de viajar sozinha e a verdade é que o medo sempre existirá.

Não acho que coragem e medo estejam em eixos opostos. Ou que a coragem surge na ausência do medo. Às vezes, eles andam lado a lado. Nunca tive medo da viagem. Sinceramente, não entendia o porquê perguntavam “Mas você não tem medo?”. Sempre indagava “medo de que?”. Percebi que algumas pessoas têm medo de se sentirem sozinhas, enquanto eu gosto tanto da minha própria companhia que às vezes penso que me tornei antissocial. Sempre fui um tanto tagarela, mas agora sempre fico um pouco introspectiva.

O medo vai além da solidão.

Meu medo e inseguranças tem a ver com violência, mas penso que estou sujeita a tantas coisas na minha própria cidade. São Paulo é uma das metrópoles mais perigosas do mundo, e infelizmente, o Brasil é o quinto país com mais feminicídio do mundo e o segundo pior para ser turista.

casas em marrakech, mesquita de fundo e tapetes coloridos em vários prédios
Marrakech

Hoje o meu maior medo é de ver o tempo passar. Ser mera observadora da vida.

menina com dedo polegar levantado em estrada com os arredores bem verdes
Esperando uma carona pelas estradas francesas

Sem marcar em nada minha existência, sem fazer parte de alguma mudança. Ser apenas mais uma coadjuvante da vida, com uma bagagem de sonhos sem esperanças. Minha motivação nunca foi a coragem. Nunca me enxerguei como uma mulher corajosa. Talvez curiosa, cheia de vontade, impulsiva, cheia de atitude. Mas de repente me deparei com uma caixinha de medos guardada dentro de mim.

Tentando ignorar eu nunca entendi o que esse medo significava. Eu não tinha percebido, mas um medo é necessário.

Ele vem acompanhado do bom-senso, alerta, precaução e cuidado. O medo não deixa de existir! Você aprende a lidar com ele, aprende a ressignificar o medo e usar ele como aliado. Viajar sozinha é estar aberta. À diversas situações do mundo. Mas no mundo não existem só felicidade e coisas que agradam.

menina de bikini e canga no meio de uma imensidão azul onde o mar se mistura com o céu. Há um veleiro ao fundo e muitos corais no fundo do mar
Tarde tranquila em Zanzibar, Tanzânia
Deixar fluir e estar aberta me permitiu viver e conhecer a raiz de muitas coisas.

De um almoço italiano de domingo, com 4 gerações sentadas à mesa, todos falando ao mesmo tempo e a avó fumando um cigarro até uma ocupação. Mas também me fez refém da situação mais desagradável de toda minha vida. Então resolvi assumir o medo e, mesmo assim, permanecer com a ação. Resolvi trazer o medo pro campo da consciência, porque só assim posso lidar com ele.

Nós, mulheres, precisamos tomar cuidados especiais na viagem. Mais atenção ao nosso redor, se vestir de forma adequada, pensar em quem confia, compartilhar nossa localização com amigos. Mas não podemos deixar de viver pelo simples falto de ser mulher!

Hoje viajo com medo, pois ele não me paraliza, mas me protege.

De Santos a Foz do Iguaçu: sete meses viajando com uma bicicleta

Por:Maria Fernanda Romero
Fotos:Julia Boratto

Julia Boratto saiu para viajar a primeira vez com 18 anos. A cicloviajante de 30 anos ficou 6 anos viajando o Brasil, vendendo artesanato junto com seu ex-companheiro. Aos 24 voltou a morar em São Paulo, onde tentou se enquadrar no modelo tradicional de vida e trabalho. Julia se formou como tecnóloga de multimeios e trabalhou com produção audiovisual. Depois se mudou para Santos, litoral paulista, onde trabalhava com joalheria artesanal. “Eu senti aquele chamado da alma para voltar para estrada.” Descreve a viajante.

Pegando a estrada com uma bicicleta

Em Santos, Julia pedalava todos os dias. Em 2018 ela fez a primeira viagem longa de bike, foram 100 km da baixada até a reserva da Juréia. “Eu tava com muita coisa na cabeça, principalmente pela questão do que as eleições representavam e fui pedalar para dar uma relaxada na mente. Quando cheguei na Juréia a minha cabeça estava muito mais tranquila, eu me sentia muito melhor.”

Essa viagem de bike abriu a mente da viajante e foi o despertar para Julia se jogar na vida nômade com a bicicleta. Depois de perceber que viajar dessa forma era possível, ela começou a pensar nas possibilidades em voltar à viver na estrada. O primeiro passo da viajante foi colocar marcha e um banco mais confortável na bicicleta. Como a paulista sempre fez esporte, ela se sentia preparada fisicamente “a única coisa que eu fiz foi testar as marchas, subi a Ilha Porchat pra ver se eu aguentava subidas.”

cicloviajante de chapeu de palha com sua bicicleta carregada de mochilas em cima de uma ponta com um rio verde e bastante montanhas no fundo
Julia Boratto em sua viagem pelo Sul Brasil

“Pesquisei sobre cicloviagem, fui descobrindo o mundo do cicloturismo e mulheres que já viajavam de bike. Então, resolvi pegar minha magrela e caí na estrada”. Julia vendeu suas coisas e os móveis da casa, comprou uma barraca mais leve e um aforge para a bicicleta, entregou o apartamento e se preparou para sair de Santos. O primeiro plano era pedalar até o Uruguai, mas ela estava disposta a continuar aberta para todas as oportunidades, de sair sem prazo para voltar. “Quando eu cheguei em Torres, no Rio Grande do Sul, a pandemia chegou no Brasil e fecharam a fronteira com o Uruguai, então eu fui para a Serra Catarinense.”

Quarentena no sul do Brasil

Julia passou três meses da quarentena transitando entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Primeiro ficou em um sítio de permacultura em Praia Grande, na divisa dos estados. Depois subiu para as serras catarinenses e pousou em Cambará do Sul. De Cambará do Sul a cicloviajante foi para Urubici. “Fiquei em campings na maioria das vezes. Eles estavam fechados, mas me receberam pela minha condição, de eu estar vivendo na estrada, viajando de bike e não ter uma casa para voltar”. 

Na Serra Catarinense a cicloviajante teve um sonho que a fez pedalar até Foz do Iguaçu. Em julho a viagem chegou ao fim e ela retornou para São Paulo.

Bicicleta carregada com mochilas, barraca, chapeu em cima de uma ponte com o rio e arvorés ao fundo
Caminho para São José dos Ausentes

Coronavírus e a viagem

Julia não sentia que estava se colocado ou colocando outras pessoas em risco porque se movia sempre de bicicleta e sempre sozinha e se alojava em lugares isolados, no meio do mato, onde era recebida por pessoas que estavam isoladas.

A cicloviajante só transitou por lugares menos populosos, cidades bem pequenas onde não tinham muito turismo ou estavam fechadas para o turismo. Até chegar em Foz, Julia quase não sentiu os efeitos da pandemia. Lá, a viajante percebeu o momento intenso e crítico que o mundo está vivendo e voltou para São Paulo. Agora ela aguarda um momento mais adequado para voltar para a estrada.

barraca, bicicleta e fogueira em um campo cheio de arucárias
Acampando no Rio das Antas, Serra Gaúcha
Transformar a viagem em Arte

A cicloviajante têm alguns projetos para transformar sua viagem em arte. Ela está escrevendo um livro digital e produzindo um documentário sobre esses meses viajando o Brasil de bicicleta. Ela também criou o Multiplica Arte.

O Multiplica Arte é uma plataforma de disseminação de arte e cultura, do lado mais humano das palavras, aquele que nos liga através do amor e da busca por respeito e igualdade. “Eu vejo que as pessoas entram em contato com o melhor de si através da arte”. A plataforma divulga poesias, músicas, danças e outras expressões artísticas e idéias revolucionárias.

Como são as despedidas para quem vive em movimento?

Por Maria Fernanda Romero e Julia Mendonça

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é um projeto que dá voz as mulheres que estão ganhando o mundo de diferentes maneiras. No post de hoje teremos um texto super sensível de uma viajante muito especial que conheci na Bahia. A Ju Mendonça, uma mineira que está na estada desde 2017 fazendo uma rota do Japão ao México, passando por Namíbia, Moçambique e outros cantos mágicos do mundo.

menina com vestido longo colorido em cima de tabetes tipicos do Oriente médico e turbante vermelho na cabeça

Kurdistão – Iran

Julia, uma exploradora sem pré-definições

Eu acho que a maioria das pessoas se perdem com essa pergunta. Falar sobre nós mesmos é uma tarefa muito difícil. Estou em um processo de exploração de mim mesma, e essa palavra “explorar” já significa muito sobre mim.
Julia é uma exploradora do mundo, exploradora de sentimentos, culturas, religiões, pessoas e emoções. Como viajante do mundo, eu não poderia viver de outra maneira. Eu preciso estar aberta a tudo o que me chega no percurso dos meus caminhos. E quase sempre eu estou…aceito e recebo tudo com gratidão.
Falar brevemente de mim não é fácil, porque não sou um relato único, sou um todo – forte, apaixonada, curiosa e, acima de tudo, muito viva. E assim vivo, para SER VIVO.

julia sentada em um tapete fumando o classico shisha, ou narguile, arabe

Shiraz- Iran

“Hoje resolvi escrever sobre as despedidas”

Sempre quando começo a pensar em escrever sobre alguma coisa que vivi nesses últimos 3 anos viajando pelo mundo, fico confusa em como organizar uma ideia, muitas vezes ainda nem compreendida por mim mesma, mas hoje resolvi escrever sobre as despedidas, mesmo que agora não seja muito bem a hora delas. Agora é hora de presença e não de partida, e um viajante de longo prazo começa a entender isso na estrada mesmo, que as vezes é hora de ficar.

Uns dias, umas semanas, uns meses. Por um amor, por um amigo ou pelo próprio corpo que pede pra ficar, e o coração é quem escolhe por quanto tempo.
Mas a gente sabe que em algum momento vai partir, já que a estrada sempre nos chama, e a parte mais difícil de uma viagem de longo prazo é na verdade partir. No caso, sempre partir.

Júlia com alguns jovens de todas as idades e suas roupas coloridas em Dar es Salaam
Moneia- Moçambique


A gente pensa que um dia vai se acostumar com a despedida mas as vezes parece que ela cria um buraco. Um interessante buraco preenchido a cada partida por sentimentos diferentes. Sentimentos confusos…que as vezes alivia, as vezes aperta o peito, e as vezes a gente sente a dor da partida no estômago mesmo.

moto com 4 passageiros na india
Moto em Delhi – Índia, sempre cabe mais um

Depende de qual situação a gente está deixando pra trás e o que vem em seguida. Quem vive na estrada sabe disso, sempre vai ter algo novo a explorar, um pico pra subir, uma trilha pra fazer, um país interessante e uma outra família pra nos receber.

Somos curiosos, queremos sempre bater de frente com o novo, temos muitas perguntas e poucas respostas. Porém, logo um viajante percebe que a viagem por si só não dá as respostas prontas. É preciso ver as respostas em cada movimento, e talvez por isso a gente sempre se move.

duas indianas com roupas tipicas no deserto de Thar
Deserto de Thar- India


As vezes partimos com a sensação entalada na garganta mesmo, um choro não chorado, e acabamos por mergulhar nos nossos próprios sentimentos mais profundos de desapego e gratidão. Despedir quase sempre é difícil, e as vezes é necessário se despir também, tirar tudo que tá no corpo e na alma e esvaziar-se.
Sair do lugar assim vazio, se REconhecer no vazio, e despertar pra uma nova trajetória que sempre existirá, já que a estrada nos grita por todos os lados, a “estrada, essa desgraçada”.

As vezes eu quero que ela me deixa em paz, mas ela sempre foi a maior concorrência dos meus grandes amores e endereço fixo