Bordei Marrakech no meu coração

Por Maria Fernanda Romero 

Revisão Clara Porta Guimarães

O coração já estava acelerado antes de entrar no avião. Era um misto de ansiedade com receio. Não queria criar expectativas, mas já tinha um monte delas. Me avisaram que os marroquinos eram super comerciantes, que eu teria que negociar todos os preços. Estava preparada para brincar de leilão, cobrir os ombros e conhecer um mundo totalmente novo.

Meu vôo pousava 22h30 e a primeira dificuldade seria chegar sozinha em um país muçulmano pela noite. Tinha pedido um transfer para o hotel, mas a fila da imigração estava enorme. Demorei duas horas para passar pelo controle de passaporte e o transfer não esperou.

casas em marrakech, mesquita de fundo e tapetes coloridos em vários prédios

No Aeroporto de Marrakech-Menara é proibido ficar dentro do saguão. Tanto para embarcar, como para desembarcar. Só é possível passar direto para área de embarque e é uma segurança super pesada: tem raio-x na porta para sair à rua e também para voltar. Quando percebi que estava sozinha e não havia ninguém do meu hotel, quis voltar para o aeroporto, mas já não era possível. Tinha que pegar um táxi. E eu estava com medo.

Quando cheguei no ponto de táxi, a única semelhança que vi com os pontos de táxis que eu estava acostumada é que havia carros. Os marroquinos têm muita facilidade com as línguas e é super comum vê-los falando inglês, espanhol e até português. Eles querem te vender a qualquer custo e por isso tentam descobrir da onde você é e que língua fala para serem mais enfáticos nas abordagens. Entre eles a língua é o árabe.

O QUE FAZER EM MARRAKECH

Tudo no Marrocos deve ser negociado antes: A a arte da pechincha é muito usada, inclusive obrigatória. Mas às vezes me sentia insegura de oferecer um preço e eles não gostarem. Para negociar o táxi aconteceu exatamente isso. Tinham me dito que o aeroporto era perto e o táxi custaria cerca de 100Dh (mais ou menos 10€) mas na hora que eu dei minha oferta eles desataram a resmungar em árabe um com o outro. Me ofereceram 250Dh e acabamos fechando por 220Dh.

homens encatadores de cobras em praca em Marrakech
Praça Jemaa el-Fnaa

Marrakech é uma das cidades imperiais do Marrocos. As cidades imperiais foram as capitais das antigas dinastias do país ao Norte da África. Todas elas têm a mesma disposição espacial: Uma Medina, um núcleo religioso principal, que é a Mesquita, uma muralha protegendo e bem em frente à entrada, um cemitério.

A Medina é sempre bem protegida e forma labirintos. Em Marrakech a Medina é um mundo à parte, onde os acessórios, tapetes, portas, artesanatos e objetos religiosos ou não colorem as ruas. O muro que protege a Medina de Marrakech tem 19km e é todo furado para evitar rachaduras do sol.

Dentro da Medina de Marrakech fica uma das praças mais famosas do país: A praça Jemaa el-Fna que é um patrimônio oral e cultura da UNESCO. É uma das primeiras vezes que uma atração não palpável é considerada patrimônio da organização.

mesquita em Marrakech
Mesquita Koutoubia

Antigamente a Praça era o lugar onde cortavam as cabeças dos sentenciados à morte. Depois Jemaa el-Fna foi convertida em uma praça de animação.  Lá tem macacos, encantadores de cobras, mulheres que fazem tatuagem de renas e principalmente venda de especiarias. Acho que todo nosso imaginário ocidental sobre o que é o Marrocos pode ser representado na Jemaa el-Fna. Mas é importante lembrar: tudo é pago! Até fotos!  E se não pagar irá arrumar um problema com os locais.

Na Medina também tem os Souks. São como lojas especializadas. Existem Souks de couro, porcelana, roupas. Tudo muito bem trabalhado e encantador. Fazer compras no Souks é uma atividade a ser considerada.

A maioria das hospedagens em Marrakech chamam Riad. Antigamente Riad era a casa de uma família rica. Por fora parece mal cuidada, mas por dentro é muito bonita. Todas têm alguns quartos, uma fonte no meio e jardins laterais. Hoje em dia essas casas são hostels, onde é possível se hospedar por um preço justo dentro da Medina.

A Medina é muito viva. Não é permitida a entrada de carros, mas tem várias motos que cortam as ruelas do centrinho e é melhor tomar cuidado com elas.  Me incomodou um pouco o fato de não ter muitas mulheres na rua, mas consegui me virar bem e com cautela.

A comida marroquina é maravilhosa. O tradicional Homus e Tahine serve de acompanhamento para tudo. Também há uma variedade de geleias impressionante. Nas refeições grandes, a carne de cordeiro é um ingrediente comum. Muitos pratos são feitos com ela. O cuscuz também é muito tradicional, tanto com peixe como com vegetais. Sobre os temperos, nem preciso me alongar: A variedade de especiarias marroquinas não tem fim.

plantas verdes em contraste com a decoracao azul em Marrakech
Jardim Majorelle

Há também restaurantes franceses e estrangeiros em Marrakech, como o Nomad e o Le Jardin. Esses restaurantes mesclam a cozinha mediterrânea com a cozinha marroquina e estão muito bem localizados.

O Palácio da Bahia também é lindíssimo. Uma arquitetura que mistura a simetria dos árabes, os mosaicos dos andaluzes e os arcos dos berberes, os marroquinos da montanha. Ninguém sabe se os árabes incorporaram a arquitetura andaluza em suas construções, ou se os andaluzes incorporaram a arquitetura árabe depois das invasões. A questão é que a combinação da arquitetura árabe-andaluza é incrível.

Todas as construções do palácio são feitas de gesso, pó de mármore e clara de ovo.Ele tem 160 quartos e vários pátios e salões. A entrada custa 10Dh.

Na Mesquita Koutoubia, a principal de Marrakech, não é permitida a entrada de estrangeiros, mas um passeio pelos seus jardins vale a pena.Fora da Medina também há muita coisa linda.

O Jardim Majorelle é um jardim botânico extremamente colorido, principalmente em tons de azul e amarelo. Ele pertencia ao pintor francês Jacques Majorelle, mas depois de sua morte ficou abandonado então o estilista Yves Saint Laurent o comprou, restaurou e o doou à Marrakech. O jardim é muito rico, tem plantas do mundo todo, principalmente da América Latina.

Montanhas atlas marrocos com neve
Montanhas Atlas

Montanhas Atlas

Também fiz um bate-volta nas montanhas do Atlas. É o povo berbere que ocupa as montanhas, ao norte do Marrocos. Até 2004, a língua local era apenas oral. Eles vivem principalmente da agricultura. O trigo é o grão mais cultivado. Os berberes vivem da terra e respeitam a natureza. As casas nas montanhas são todas feitas de barro.

A primeira cidade que parei foi Tahennaout. Lá há uma cooperativa de mulheres que faz extrações do argan, uma erva muito boa para o cabelo e para a pele e que tem propriedades terapêuticas. Elas vendem os óleos, dentre outros produtos artesanais.

Seguimos para Tamazirt. Lá é possível fazer uma trilha pelas montanhas do Atlas de 1900m de altitude. O Atlas é uma das cordilheiras responsáveis pela existência do deserto do Saara. As massas de umidade ficam presas na montanha (onde até neva!) e não passam para a área do Saara, que fica desértica.

mulheres produzem oleo de Arghan no marrocos

Há também muitos rios na região. Os rios são permanentes, mas seu nível depende da chuva e do degelo na região. Os rios continuam para a área desértica, mas secam ao longo do percurso.O povo Berbere é muito receptivo e muitas casas oferecem um almoço típico marroquino com chá de ervas da montanha.

Shokran, Marrocos, por me mostrar um tanto mais do mundo e quebrar tantos conceitos já formados em mim.

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Psicóloga viajante e amiga criam instagram para unir mulheres canábicas

Escrito por Maria Fernanda Romero
Fotos Alice Reis

GIRLS IN GREEN

Psicóloga e redutora de danos, Alice Reis (24), é uma daquelas pessoa que gosto de evocar quando me dizem que não é possível viajar, trabalhar e viver do que se ama. A brasileira está há um ano viajando e trabalhando em projetos de Redução de Danos e estudando sobre cannabis nos países em que a erva é legalizada.

bandeira dos estados unidos em parque nacional
foto Alice Reis

Desde o início da sua graduação em psicologia, Alice se interessou pelo tema das drogas e buscou o que poderia fazer relacionado a ele dentro da área. Foi assim que encontrou a Redução de Danos, uma política pautada em tratar a questão das drogas como um problema de saúde pública, além de enxergar o usuário como um indivíduo autônomo de direitos.

Há quase 5 anos ela trabalha em contextos de festas com o coletivo ResPire em São Paulo. Também estagiou no CAPS-AD São Paulo com usuários de drogas em situação vulnerável. Alice sempre se interessou pela perspectiva política das drogas e buscou entender como ela funciona no Brasil e no mundo.

ALICE Reis em acao de reducao de danos
Foto de @lipstriphotos- www.triphotos.net

“Eu sempre fui apaixonada por viajar e estar em contato com a natureza”, diz a psicóloga. “Eu queria conciliar isso com o meu interesse profissional, que é a Redução de Danos”. Depois da faculdade Alice pesquisou países em que isso seria possível e encontrou algumas opções: “Eu queria muito conhecer e vivenciar a política de drogas em cada país. Trabalhei em Portugal com o coletivo Kosmicare, no festival Being Gathering e na Holanda e com o coletivo Psy Care, no festival Psy-Fi“.

Portugal, Espanha, Marrocos, Holanda e Estados Unidos são alguns dos países nos quais Alice passou e trabalhou no último ano, voluntariando ou mesmo participando de congressos sobre Redução de Danos e perspectivas mundiais sobre as políticas de drogas.

parque nacional nos estados unidos
Foto Alice Reis

“Eu vi na prática como funciona o cuidado com o cidadão e o trabalho com os usuários de drogas, tanto no contexto de festas, como no contexto de saúde pública. O que mais me chocou foi como, em alguns países e diferentemente do Brasil, eles reconhecem o usuário como um ser humano de direitos. O usuário recebe atenção e cuidados com a sua saúde”, explica. A psicóloga conta que até observou uma abordagem policial em Barcelona a um usuário em um contexto de rua e mesmo nessa situação o policial o tratou com respeito e se preocupou em verificar se ele tomava precauções durante o uso.

“Fiquei perplexa ao ver como a própria sociedade tem uma visão diferente dos usuários, que não são tão estigmatizados, criminalizados e marginalizados”, completa.

MULHERES CANNÁBICAS

“Eu vou ser bem sincera com você. Cada um tem uma substância preferida. Eu gosto muito de fumar cannabis. Então, comecei a me interessar pelo contexto da maconha e me aprofundar mais nele”, conta Alice

cigarro de maconha no por do sol
Foto Alice Reis

No Brasil os crimes relacionados às drogas é o motivo de 64% das prisões de mulheres, além de um terço dos presos em geral respondem por tráfico. Entretanto, muitos desses presos são apenas usuários, pois a lei do Brasil não delimita uma quantidade no porte da droga que permita distingui-los dos traficantes. Além disso, a maconha no Brasil é de uma qualidade muito ruim e  nunca poderia ser usada para propósitos medicinais. Sua proibição no país acaba sendo, assim, uma ferramenta para controlar uma população estigmatizada e marginalizada.

“Eu sempre quis fazer uma militância com relação à política cannábica e, por eu gostar de fumar e ter visto como é diferente nos países em que eu estive, criei o Girls in Green com outra amiga, Maria Eugênia, que tem os mesmos ideais que eu”. Explica Alice.

O Girls in Green é uma plataforma no instagram que surgiu como um meio de representatividade para mulheres dentro do mundo canábico. O objetivo era de criar, mais do que uma plataforma, um espaço seguro feito por mulheres para mulheres, onde elas pudessem dividir seus conhecimentos, além de ser também um espaço de debate e de troca.

plantacao de maconha no Marrocos
Alice no Marrocos

“Recebemos muitas histórias, perguntas e relatos de mulheres e ficamos muito felizes em conversar com elas e realmente trocar nossas experiências. Claro que temos muitos seguidores homens e isso é legal, mas o objetivo é representar as mulheres dentro do contexto canábico”, diz Alice. No contexto de drogas existe uma segregação de gênero muito grande. A maioria dos usuários são homens e o conhecimento sobre as drogas também está concentrado em um mundo mais masculino.

Alice relembra sua viagem com mais outras duas amigas ao Marrocos, um lugar onde a visão da mulher é totalmente pejorativa: “Foi uma experiência complexa. O tempo todo estávamos atentas, não sabíamos em quem confiar, tínhamos que tomar cuidado com o que vestíamos, o corpo tinha que estar sempre coberto… O corpo vira um limite muito complexo lá. Não foi uma viagem tão simples de se fazer em um grupo só de mulheres, mas deu tudo certo”.

alice em cima de uma camelo no Marrocos
Alice no Marrocos

Nos países ocidentais a brasileira sente menos esse choque por ser mulher e por estar no mundo das drogas, entretanto a vulnerabilidade da mulher é sempre maior e é comum vermos mulheres que têm seus corpos hipersexualizados. Esse estigma está também associado às drogas e bons exemplos disso são as propagandas de cerveja, ou mesmo mulheres que, em situações de maior vulnerabilidade, percebem que podem usar o seu corpo como moeda de troca, para conseguir essas drogas.

“É mais desafiador para uma mulher conseguir conquistar qualquer tipo de espaço. Os homens não tiveram que conquistar, eles já estavam alí. Para as mulheres, é um desafio a mais, uma barreira a mais, uma batalha a mais  que elas precisam vencer. Por isso que eu acho interessante que exista um espaço de representatividade para as mulheres. O Girls in Green tem o objetivo de uni-las. Também quero que esse espaço as inspire a produzir conhecimento, a se juntarem, a se reconhecerem como usuárias e a discutirem o tema”, explica a psicóloga.

Alice acredita muito no poder da informação. pois se as pessoas sabem como se cuidar e o que estão consumindo, os riscos dos usos de drogas são bem menores. Além disso a psicóloga quer que seu trabalho e estilo de vida inspire os outros, pois é uma semente plantada rumo a mudanças positivas.

estrada com neve
foto Alice Reis