Afrika Burn: Desafiando o deserto

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

AFRIKA BURN

O AfrikaBurn não é um festival.  É um evento colaborativo, um experimento social, uma expressão da contracultura. No evento não existe dinheiro. Os participantes constroem toda uma metrópole: campings, bares, cozinhas, veículos mutantes, pistas de dança e até a decoração e as esculturas de arte que são queimadas durante a semana.

BURNING MAN

O AfrikaBurn é inspirado no Burning Man, realizado anualmente em Nevada, Estados Unidos, desde 1986. O Burning Man dura uma semana e tem um público bem mais vasto que o AfrikaBurn, chegando a atrair até 50 mil pessoas todo ano. O evento chama “homem em chamas” porque no último dia uma escultura em formato de homem é queimada.

O deserto de Tankwa, África do Sul

No AfrikaBurn acontecem queimas de todas as esculturas e até dos palcos. As queimas sempre têm um propósito, seja ele uma reflexão ou uma comemoração. Algumas são em homenagem aos criadores do Burning Man.

OS PRINCÍPIOS 

Os burnings pelo mundo são baseados em 10 princípios. O principal é não existir dinheiro. Tudo é troca ou presente. Apesar disso há uma incoerência, pois para participar de campings temáticos as pessoas devem fazer uma alta colaboração financeira. Ao mesmo tempo, é verdade que os camping temáticos proporcionam uma festa à parte: decorações impecáveis, vivências, jantares e alguns deles até oferecem palestras e aulas de yoga. Então, para quem busca uma estrutura maior dentro do festival, os valores cobrados são justificáveis. 

Outro princípio importante do evento é não deixar nada para trás. Você deve levar absolutamente TUDO que for consumir (a não ser que fique em um camping temático), desde água, fogo, até as refeições e bebidas alcoólicas. No festival a única coisa que se vende é gelo por duas horas ao dia. Além disso, no fim do festival, você deve levar TUDO de volta com você. Nem um plástico pode ser deixado para trás. Os outros princípios giram em torno da liberdade, da auto expressão, de fazer valer o “aqui e agora” e de participação.

Todos podem ser voluntários e trabalhar em alguma área do festival. O instinto de comunidade também é reforçado, além de se presentear sem esperar algo em troca. E o presente dado nem sempre é algo material. Nos Burnings todos oferecem alguma coisa. Eu ofereci fotografia e algumas garrafas de gin e ganhei um corte de cabelo ali no deserto.

O AfrikaBurn tem ainda um décimo primeiro princípio adicional: ensinar o outro. Um princípio que também reforça o instinto de comunidade.

Meus dias no AfrikaBurn

Teimosa, achei que não precisava de ninguém para ir ao deserto. Consegui uma carona de Cape Town e achei que chegaria no festival com 60 litros de água, sem camping, sem sombra, sem uma proteção do vento (e tem cada tempestade de areia nesse deserto…) e tudo ficaria bem. 

Dois dias antes do Burn, uma amiga que conheci cinco meses antes me ligou e disse que alugaria um carro para ir e que compraria materiais para construir uma espécie de vila. Eu fiquei animada para vê-la, mas estava sem dinheiro e achava que não precisaria de nada. Falei para ela me encontrar no hostel que eu estaria em Cape Town para a gente sair mais ou menos juntas e acampar perto.

E foi essa a minha sorte! Logo no primeiro dia, uma tempestade de vento quase destruiu minha barraca, se não fosse o carro da minha amiga, a barraca teria virado pó. Me rendi. Não dava para ficar sozinha no deserto. E o evento é exatamente sobre isso! 

Lá fiz meu eneagrama, desenhei e pintei, escrevi cartas e cartões-postais (tinha um correio na festa e eu sou louca por cartões-postais!), tirei muitas fotos, aprendi sobre ritmos africanos, dancei, me surpreendi a todo momento com a beleza da natureza e com as alegorias do evento.

O deserto é desafiador – até fisicamente. Não é uma experiência das mais confortáveis, mas é isso que a torna uma vivência enriquecedora e especial do começo ao fim.

DICAS PARA O AFRIKABURN

  • Vá em grupo
  • Leve muita água, inclusive para o banho
  • Leve alguma proteção para o vento, por exemplo uma lona
  •  A noite faz muito frio! Leve roupa de frio!
  • Prepara seu presente com carinho!
  • APROVEITE O MOMENTO PRESENTE!



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Boom Festival: Geometría Sagrada

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

UM DOS MAIORES FESTIVAIS DE CULTURAS ALTERNATIVAS DO MUNDO

O Boom é um Festival de Culturas Alternativas que acontece uma vez a cada dois anos em Idanha-a-Nova, Portugal. Neste ano aconteceu entre 22 e 29 de julho.

O tema do Boom Festival de 2018 foi Geometria Sagrada: a ciência que estuda os padrões, os códigos, as proporções e os sistemas de todas as coisas. As nossas células, as folhas, a natureza, tudo segue o mesmo padrão geométrico. Tais figuras, formas e proporções são consideradas sagradas por serem encontradas em toda a Criação.

LAGO DO FESTIVAL DE CULTURAS ALTERNATIVAS BOOM COM MUITAS PESSOAS NADANDO

O Boom Festival é diferente de outros festivais de música e cultura, pois ele se aprofunda no tema escolhido de forma que não é apenas a decoração que é voltada a ele: ele é também abordado em debates e palestras durante o festival, ao lado de outros assuntos alinhados à Espiritualidade, à Redução de Danos, à consciência ecológica, a novos sistemas econômicos e, pela primeira vez este ano, à igualdade de gêneros.

mulheres discutindo sobre igualdade de generos em festa
Discussão sobre igualdade de gêneros em festas

A Boomland, espaço onde ocorre o festival, é totalmente sustentável. Há um lago que rodeia grande parte da festa e deixa o calor mais suportável. As estruturas e os espaços são construídos pensando na bioconstrução. Até os talheres distribuídos na praça de alimentação são biodegradáveis. Eles são feitos de amido de batata. Os banheiros são de compostagem, ou seja, são banheiros secos e por isso não desperdiçam água. Não é permitido o uso de nenhum produto químico, o que gera um bom adubo para o solo do espaço.

filtro de sonho de bamboo no boom festival

MÚSICA

Ao todo são 7 palcos no Festival. Os principais são o Dance Temple e o Alchemy Circle. No Dance Temple os principais nomes do trance se apresentam. De Ace Ventura e Astrix a Confo e Farebi Jalebi. Na noite do eclipse lunar (27.07), o grupo de trance orgânico Highlight Tribe fez uma apresentação emocionante.

O Alchemy Circle é mais alternativo. O line-up conta com grandes nomes da gravadora Zenon Records. O som nem sempre tem altos bpm, mas é sempre muito psicodélico.

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Dance Temple

A arte está presente em todos os cantos do festival. Cada jardim e cada esquina tem alguma coisa especial, seja uma decoração mágica ou uma reflexão. A arte é tão presente no Boom que tem até um Museu no Festival: o Museu de Arte Visionária que nesta edição incluía obras das artistas Amanda Sage e Martina Hoffmann.

O Being Fields é o espaço de cura, onde acontecem as práticas de yoga, meditação, terapias aquáticas, rituais xamânicos e qualquer outra reconexão do homem com a natureza. Hoje o espaço é uma das áreas mais importantes da festa e abre alternativas para quem busca algo além da música.

ESCULTURA DE MADEIRA EM BOOM FESTIVAL

No palo Sacred Fire também acontecem rituais xamânicos, e, como o nome indica, fogueiras. É no Sacred Fire, que acontecem os workshops. Um espaço inspirador de troca de conhecimento e experiências.

A Redução de Danos no Boom Festival também é uma das melhores do mundo. A Lei de Drogas de Portugal é pautada dentro das políticas de Redução de Danos e descriminaliza o porte de todas as substâncias. O país também reconhece a importância do trabalho informativo, inclusive a respeito do conteúdo das substâncias, como ferramenta preventiva para diminuir os riscos e o uso abusivo.

POR DO SOL NO BOOM

Por isso, o Coletivo Kosmicare organiza um stand informativo e também de teste de drogas, utilizando uma técnica chamada TLC. Além disso há um espaço de Psycare, onde pessoas que estejam tendo uma experiência difícil com o uso de substâncias psicoativas ou, pessoas que apenas queiram conversar,  podem falar abertamente com os redutores de danos.

O Boom prega a liberdade e o amor. Busca ensinar às pessoas um pouco mais sobre consciência ecológica, redução de lixo, do consumo e principalmente respeito às diferenças.  É um espaço mágico e acolhedor. Uma experiência inesquecível e imprescindível à todos que acreditam em uma forma mais leve de viver.

SPANKARTZ: ARTE E BIOARQUITETURA

Rodrigo Gonzalez & SPANKARTZ A/I: Uma nova possibilidade a cada projeto

Spankartz A/I é um grupo de bioarquitetura e design diferenciado. “Proporcionamos uma realidade lúdica para as pessoas que é algo que está distante da arquitetura convencional-reta.”, diz Gonzalez, o idealizador do núcleo.

Rodrigo Gonzalez e sua equipe constroem pistas, palcos, áreas de descanso, portais, galerias de artes e áreas funcionais inusitadas e muito encantadoras. Com cores, técnicas, formas e sustentabilidade criam uma nova forma de arquitetura, que proporciona, para o público de festivais de música e encontros alternativos, sombra conforto, abrigo além de muita segurança. Mesmo assim o idealizador não se vê como decorador: “Eu faço estruturas funcionais de uso coletivo, que hoje em dia são vistas como instalações decorativas nos festivais.”.

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Lugar, onde Rodrigo cria todos seus projetos

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Foto: reprodução

A Spankartz  está em ativa desde 2015 surpreende mais a cada estrutura apresentada. Paulistano frequentador da cena desde 2000, que decidido a conquistar uma nova realidade através das artes, após um período de luto e reflexão deu início em 2011 aos aprendizados com bioconstrução, arquiterura e permacultura, visando criar estruturas com materiais naturais e tecidos. “Eu tinha muitas ideias mas também muito receio de não ter um time para realizá-las comigo, então iniciei uma busca sendo muitas vezes voluntário em alguns festivais e assim encontrando as pessoas certas que hoje fazem parte do núcleo”. Gonzalez prova para todos que criatividade somada ao amor pelo trabalho é essencial para que um projeto seja de sucesso.

O primeiro grande destaque do núcleo foi no Festival Pulsar 2015. “Fui convidado para criar o time que atuaria em campo, pensei no que seria o melhor para o acontecimento então convoquei amigos de sete estados, com os quais já havia trabalhado em diferentes situações para realizar aquele sonho chamado Pulsar.”, conta Rodrigo. A grande “Aranha“ foi o palco desenvolvido para atender o espaço denominado Molecular Stage do festival, que acontece em Minas Gerais. Impressionando até os mais antigos frequentadores da cena trance nacional, sua forma era mais orgânica assim fora do habitual visto atualmente. “Pulsar foi diferente de tudo até aquele momento, estudei a técnica utilizada no Molecular Stage desde o primeiro contato com festivais que foi no festival AHO litoral paulista em 2012, de lá pra cá foram três anos de estudos.”,diz Gonzalez.

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Molecular Stage Pulsar 2015- Foto reprodução facebook.com/pg/pulsarfestival.art

Logo na sequência SpankartZ foi convidada para participar de projetos em 4 festivais na Europa: Goa Gil DE, Fusion e Freqs of Nature, ambos na Alemanha, e a primeira edição do WAO Festival na Itália,onde Rodrigo considera ter concluído seu maior desafio até então, construindo uma cúpula com arcos de bamboo a 8 metros de altura. Este trabalho foi realizado em conjunto com a crew Free Optics responsável pela decoração da estrutura.

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Foto reprodução

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Foto reprodução

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Foto reprodução

Já em 2016 Rodrigo Gonzalez foi convidado para participar de um dos maiores festivais de música & conhecimentos do mundo o “Boom Festival”, em Portugal. A experiência não podia ser mais do que surpreendente para ele com os melhores grupos do globo reunidos para compartilhar idéias, informações, experiências e sonhos.

Recentemente foi convidado para o Festival KAMALA, realizado no Uruguay terra natal de sua família. Ousou ao apresentar uma nova técnica que vai para seu currículo. “Usamos um poste central suspenso por cabos de aço técnica que aprendi com a crew americana DoLab no Boom”.

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Foto: reprodução

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Foto: reprodução

Agora além do cenário de festivais nacionais e internacionais a SpankartZ visa novos caminhos para as construções, como compartilhamento de conhecimento em workshops e estudos, que remetem a uma nova forma de arquitetura mesclando conhecimentos ancestrais à técnicas contemporâneas. Além de limpa, sustentável, prática e de menor impacto no local instalado, é também resistentes ao vento e a chuva.

Rodrigo Gonzalez enxerga um futuro de possibilidades para o grupo, um deles é construção de abrigos para uso coletivo em situações extremas, por exemplo, para refugiados ou desabrigados, vítimas de desastres naturais, guerras entre outros acontecimentos. O desafio é grande e são muitas as barreiras para contornar e concluir cada objetivo do grupo mas com força, humildade e determinação a SpankartZ busca o equilíbrio entre diversão, conhecimento e trabalho para alcançar suas metas.

Mundo de OZ

FESTIVAL DE ARTE E CULTURA

FESTIVAL DE CULTURA ALTERNATIVA

festival de cultura alternativa que aconteceu em São Paulo entre 20 e 24 de abril de 2016

fotos Maria Fernanda Romero

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O festival contava com a presença de uma cachoeira maravilhosa, a decoração deixou ela ainda mais exuberante.

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O palco, a noite estrelada, a decoração, as intervenções artísticas e o som tornaram as noites do Oz inesquecíveis.

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Consciência ecológica também é uma das missões do festival.

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