Como aprender idiomas viajando?

Por Maria Fernanda Romero

As línguas que aprendi na estrada

Não lembro qual foi a minha primeira palavra em italiano, mas sei que na primeira que ouvi, tive certeza que era a língua mais bonita do mundo. Na primeira vez que troquei trabalho por hospedagem, dividi quarto com uma italiana, que me deixou um livro. E mesmo sem entender muito bem o que estava escrito, lia e anotava trechos que me soavam como as poesias mais belas. Quis traduzir tudo que eu mesma já tinha escrito.


Em italiano, os versos simples teriam impacto. “A areia branca se desfaz em meu quintal, o branco, que nunca me canso, é invadido pela força do azul.”
Traduzi meu primeiro verso e decidi ir morar na Itália. Até dar para aprender uma língua pela internet, mas eu não tenho muita paciência para ficar muito tempo na frente do computador, ainda mais lendo aulas de italiano. Eu precisava ouvir.

Pantheon de Roma formado por um telhado triangular e colunas estilo greco-romano
Roma


Continuei lendo meu livro, assisti alguns filmes e quando cheguei na Itália, pelo menos achava que entendia tudo. Responder era uma grande mistura de portunhol e italiano. Mas eu estava me esforçando para melhorar. Repetia cada palavra nova dezenas de vezes como uma criança. Chegou um ponto que eu sabia me apresentar, falar sobre o que eu fazia e gostava, contar sobre meu dia e reclamar da chuva, mas não sabia as coisas mais básicas, como os pronomes, o gênero das palavras, as cores… Falar comigo devia ser engraçado. Eu era aquele gringo que fala “O casa é bonito”. Eu fui persistente, se me respondiam em outra língua, continuava respondendo em italiano.

ilha vista de cima, mar muito azul e verde ao redor
Taormina

Tudo era bonito, mesmo falando errado. Quando meu chefe pediu para tirar a “spazzatura” a primeira vez, eu pensei que era algum elogio, alguma pessoa, alguma referência. Foi difícil aceitar que uma palavra tão bonita, era como eles se referiam ao lixo. Com o tempo, fui percebendo as variações de sotaques e dialetos e achei o italiano, na verdade, um pouco melancólico. Alguma coisa naquelas linhas daquele livro, me davam vontade de chorar, me lembravam da dor. Talvez aquelas palavras traduzem muito bem a minha dor, de uma forma aparentemente bela.

cadeados em primeiro plano, mar do lado de fora de uma grade e um castelo de fundo
Napoli

“il cuore si scioglieva in un immenso dolore per le sofferenze che avevano involontariamente inflitto. Spesso volano intorno come mosche e sono innumerevoli…”

Il Sogno, Émile Zola

ALGUMAS DICAS QUE TORNARAM MINHA VIDA MAIS FÁCIL NA ITÁLIA

A primeira é claro: fique longe de brasileiros e se junte com os locais. Ouvir italiano foi o que de fato me ajudou a assimilar tudo que eu estudava.

Filmes, livros e séries são excelentes, mas existem muitos aplicativos que também ajudam na gramática e vocabulário! Eu adoro o Duolingue.

Outra dica, que ao menos comigo funcionou, fou ler jornal! Todos os dias eu abria os principais portais de noticías do país e a estrutura familiar da notícia me fez entender bastante a dinâmica da língua.

Não tenha medo de errar!

Aprender uma nova língua é quase como voltar a ser criança. Não tenha medo de falar errado, fale, tente e tente até conseguir!

vulcão etna marrom, com texturas e nuvens cobrindo o céu azul
Vulcão Etna