De Santos a Foz do Iguaçu: sete meses viajando de bicicleta pelo Brasil

Por:Maria Fernanda Romero
Fotos:Julia Boratto

O Minas pela Estrada é um projeto sobre mulheres que viajam sozinhas e nesse post a entrevistada é a cicloviajante Julia Boratto, que viajou mais de três mil quilômetros pelo Brasil de bicicleta.

Julia saiu para viajar a primeira vez com 18 anos. A cicloviajante de 30 anos ficou 6 anos viajando o Brasil, vendendo artesanato junto com seu ex-companheiro. Aos 24 voltou a morar em São Paulo, onde tentou se enquadrar no modelo tradicional de vida e trabalho. Julia se formou como tecnóloga de multimeios e trabalhou com produção audiovisual.

Depois de se formar, ela se mudou para Santos, litoral paulista, onde trabalhava com joalheria artesanal. “Eu senti aquele chamado da alma para voltar para estrada.” Descreve a viajante.

Viajando o Brasil de bicicleta

Em Santos, Julia pedalava todos os dias. Em 2018 ela fez a primeira viagem longa de bike, foram 100 km da baixada até a reserva da Juréia.

“Eu tava com muita coisa na cabeça, principalmente pela questão do que as eleições representavam e fui pedalar para dar uma relaxada na mente. Quando cheguei na Juréia a minha cabeça estava muito mais tranquila, eu me sentia muito melhor.”

Essa viagem de bike abriu a mente da viajante e foi o despertar para Julia se jogar na vida nômade com a bicicleta. Depois de perceber que viajar dessa forma era possível, ela começou a pensar nas possibilidades em voltar à viver na estrada.

O primeiro passo da viajante foi colocar marcha e um banco mais confortável na bicicleta. Como a paulista sempre fez esporte, ela se sentia preparada fisicamente “a única coisa que eu fiz foi testar as marchas, subi a Ilha Porchat pra ver se eu aguentava subidas.”

menina que viaja de bicicleta pelo Brasil e usa um chapeu de palha com sua bicicleta carregada de mochilas em cima de uma ponta com um rio verde e bastante montanhas no fundo
Julia Boratto em sua viagem pelo Sul Brasil

“Pesquisei sobre cicloviagem, fui descobrindo o mundo do cicloturismo e mulheres que já viajavam de bike. Então, resolvi pegar minha magrela e caí na estrada”. Julia vendeu suas coisas e os móveis da casa, comprou uma barraca mais leve e um aforge para a bicicleta, entregou o apartamento e se preparou para sair de Santos.

O primeiro plano era pedalar até o Uruguai, mas ela estava disposta a continuar aberta para todas as oportunidades, de sair sem prazo para voltar. “Quando eu cheguei em Torres, no Rio Grande do Sul, a pandemia chegou no Brasil e fecharam a fronteira com o Uruguai, então eu fui para a Serra Catarinense.”

Quarentena no sul do Brasil

Julia passou três meses da quarentena transitando entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Primeiro ficou em um sítio de permacultura em Praia Grande, na divisa dos estados. Depois subiu para as serras catarinenses e pousou em Cambará do Sul. De Cambará do Sul a cicloviajante foi para Urubici. “Fiquei em campings na maioria das vezes. Eles estavam fechados, mas me receberam pela minha condição, de eu estar vivendo na estrada, viajando de bike e não ter uma casa para voltar”. 

Na Serra Catarinense a cicloviajante teve um sonho que a fez pedalar até Foz do Iguaçu. Em julho a viagem chegou ao fim e ela retornou para São Paulo.

Bicicleta carregada com mochilas, barraca, chapeu em cima de uma ponte com o rio e arvorés ao fundo
Caminho para São José dos Ausentes

Coronavírus e a viagem

Julia não sentia que estava se colocado ou colocando outras pessoas em risco porque se movia sempre de bicicleta e sempre sozinha e se alojava em lugares isolados, no meio do mato, onde era recebida por pessoas que estavam isoladas.

A cicloviajante só transitou por lugares menos populosos, cidades bem pequenas onde não tinham muito turismo ou estavam fechadas para o turismo.

Até chegar em Foz, Julia quase não sentiu os efeitos da pandemia. Lá, a viajante percebeu o momento intenso e crítico que o mundo está vivendo e voltou para São Paulo. Agora ela aguarda um momento mais adequado para voltar para a estrada.

barraca, bicicleta e fogueira em um campo cheio de arucárias
Acampando no Rio das Antas, Serra Gaúcha
Transformar a viagem em Arte

A cicloviajante têm alguns projetos para transformar sua viagem em arte. Ela está escrevendo um livro digital e produzindo um documentário sobre esses meses viajando o Brasil de bicicleta. Ela também criou o Multiplica Arte.

O Multiplica Arte é uma plataforma de disseminação de arte e cultura, do lado mais humano das palavras, aquele que nos liga através do amor e da busca por respeito e igualdade. “Eu vejo que as pessoas entram em contato com o melhor de si através da arte”. A plataforma divulga poesias, músicas, danças e outras expressões artísticas e idéias revolucionárias.

Autor: culturanavegavel

Jornalista de formação, escritora de alma. Comecei um mochilão por curiosidade e encontrei várias formas de viver e aprender. Hoje levo uma vida nômade, viajando por onde meu coração vibra. instagram: @culturanavegavel

Deixe uma resposta