Como são as despedidas para quem vive em movimento?

Por Maria Fernanda Romero e Julia Mendonça

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é um projeto que dá voz as mulheres que estão ganhando o mundo de diferentes maneiras. No post de hoje teremos um texto super sensível de uma viajante muito especial que conheci na Bahia. A Ju Mendonça, uma mineira que está na estada desde 2017 fazendo uma rota do Japão ao México, passando por Namíbia, Moçambique e outros cantos mágicos do mundo.

menina com vestido longo colorido em cima de tabetes tipicos do Oriente médico e turbante vermelho na cabeça

Kurdistão – Iran

Julia, uma exploradora sem pré-definições

Eu acho que a maioria das pessoas se perdem com essa pergunta. Falar sobre nós mesmos é uma tarefa muito difícil. Estou em um processo de exploração de mim mesma, e essa palavra “explorar” já significa muito sobre mim.
Julia é uma exploradora do mundo, exploradora de sentimentos, culturas, religiões, pessoas e emoções. Como viajante do mundo, eu não poderia viver de outra maneira. Eu preciso estar aberta a tudo o que me chega no percurso dos meus caminhos. E quase sempre eu estou…aceito e recebo tudo com gratidão.
Falar brevemente de mim não é fácil, porque não sou um relato único, sou um todo – forte, apaixonada, curiosa e, acima de tudo, muito viva. E assim vivo, para SER VIVO.

julia sentada em um tapete fumando o classico shisha, ou narguile, arabe

Shiraz- Iran

“Hoje resolvi escrever sobre as despedidas”

Sempre quando começo a pensar em escrever sobre alguma coisa que vivi nesses últimos 3 anos viajando pelo mundo, fico confusa em como organizar uma ideia, muitas vezes ainda nem compreendida por mim mesma, mas hoje resolvi escrever sobre as despedidas, mesmo que agora não seja muito bem a hora delas. Agora é hora de presença e não de partida, e um viajante de longo prazo começa a entender isso na estrada mesmo, que as vezes é hora de ficar.

Uns dias, umas semanas, uns meses. Por um amor, por um amigo ou pelo próprio corpo que pede pra ficar, e o coração é quem escolhe por quanto tempo.
Mas a gente sabe que em algum momento vai partir, já que a estrada sempre nos chama, e a parte mais difícil de uma viagem de longo prazo é na verdade partir. No caso, sempre partir.

Júlia com alguns jovens de todas as idades e suas roupas coloridas em Dar es Salaam
Moneia- Moçambique


A gente pensa que um dia vai se acostumar com a despedida mas as vezes parece que ela cria um buraco. Um interessante buraco preenchido a cada partida por sentimentos diferentes. Sentimentos confusos…que as vezes alivia, as vezes aperta o peito, e as vezes a gente sente a dor da partida no estômago mesmo.

moto com 4 passageiros na india
Moto em Delhi – Índia, sempre cabe mais um

Depende de qual situação a gente está deixando pra trás e o que vem em seguida. Quem vive na estrada sabe disso, sempre vai ter algo novo a explorar, um pico pra subir, uma trilha pra fazer, um país interessante e uma outra família pra nos receber.

Somos curiosos, queremos sempre bater de frente com o novo, temos muitas perguntas e poucas respostas. Porém, logo um viajante percebe que a viagem por si só não dá as respostas prontas. É preciso ver as respostas em cada movimento, e talvez por isso a gente sempre se move.

duas indianas com roupas tipicas no deserto de Thar
Deserto de Thar- India


As vezes partimos com a sensação entalada na garganta mesmo, um choro não chorado, e acabamos por mergulhar nos nossos próprios sentimentos mais profundos de desapego e gratidão. Despedir quase sempre é difícil, e as vezes é necessário se despir também, tirar tudo que tá no corpo e na alma e esvaziar-se.
Sair do lugar assim vazio, se REconhecer no vazio, e despertar pra uma nova trajetória que sempre existirá, já que a estrada nos grita por todos os lados, a “estrada, essa desgraçada”.

As vezes eu quero que ela me deixa em paz, mas ela sempre foi a maior concorrência dos meus grandes amores e endereço fixo

Autor: culturanavegavel

Jornalista de formação, escritora de alma. Comecei um mochilão por curiosidade e encontrei várias formas de viver e aprender. Hoje levo uma vida nômade, viajando por onde meu coração vibra. instagram: @culturanavegavel

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