A efervescência da capital espanhola

O QUE FAZER EM MADRID

À primeira vista, Madrid se parecia com qualquer capital do mundo, inclusive com a que eu nasci. Carros, prédios, barulho e trânsito. Entrei em Madrid pela aveni da América. Estava de carona com um blablacar. O aplicativo é muito útil e econômico. Fui de carro até o centro observando a cidade pela janela e sentindo também seu ar seco e quente. Quase não chove ao longo do ano na capital espanhola. O clima segue extremos: muito quente ou muito frio.

Madrid em dia ensolarado. Predios com bandeiras da Esapanha e muito verde
Madrid

Comecei a conhecer a cidade pela Gran Vía, uma das principais avenidas da capital. Bancos, teatros, bares e a charmosa arquitetura do século XX acompanham o passeio. Também vale a pena caminhar pelo centro histórico da cidade, onde ficam situadas a Plaza Mayor, o Mercado de San Miguel, a Catedral de la Almudena , dentre outros pontos turísticos importantes para história espanhola.

Durante a dinastia dos Áustrias, a Plaza Mayor era palco de festas populares, corridas de touros e também manifestações religiosas. O coração da cidade velha ainda mantém traços da história espanhola. Também é um ótimo lugar para comer. Ali perto fica um dos restaurantes mais velhos do mundo, Sobrino de Botín, fundado por Jean Botin em 1725. O restaurante ainda funciona na Calle Cuchilleros e mantém os mesmos pratos principais desde da sua inauguração: Sopa de alho com ovo, porco e cordeiro assados no forno à lenha estão entre as especialidades do restaurante.

Madrid em um dia ensolarado. A famosa Puerta de Alcalá
Puerta de Alcalá

O Palacio Real, ainda no centro histórico, fica aberto para visitação todos os dias, de abril a setembro das 10h às 20h e de outubro à março das 10h às 18h. O valor do ingresso é 11 euros. De segunda à quinta, depois das 16h é possível visitar o palácio gratuitamente.

Também no centro de Madrid está a Puerta del Sol. Na praça fica, desde 1950, o marco zero de todas as estradas espanholas. Ali era literalmente uma porta de entrada para Madrid no século XV, quando a cidade era rodeada por uma muralha. A porta recebe os primeiros raios de sol do dia e, por isso, também leva o nome Sol. Na praça também está a famosa escultura “Oso y el Madroño”: O urso que apoia suas garras num arbusto de madronho foi esculpido em 1967 por Antônio Navarro Santafé.

O simbolo da capital da Espanha Madrid e ao fundo um ceu azul
Puerta del Sol

Outro lugar lindo em Madrid é a Plaza de Cibeles. Na bifurcação entre o Passeo de Recoletos e da calle de Alcalá (onde fica a Puerta de Alcalá) fica a Fuente de Cibeles. O contorno da praça é inundado pela arquitetura neoclássica,  em destaque  o Palacio de Cibeles ou Palacio de Comunicaciones, atual prefeitura de Madrid. A fonte, que representa a deusa romana Cibele, símbolo da terra, agricultura e fertilidade, também marca o início do Passeo del Arte.

ARTE EM MADRID

O Passeo del Arte é o nome que foi dado à região entre os trechos do Passeo del Prado e Passeo de Recoletos onde encontram-se diversos museus. Os mais famosos são o Museo del Prado, o Museo Nacional de Centro de Arte Reina Sofía e o Museo Thyssen-Bernemisza, mas além deles, existem outros diversos museus na região, como a Casa de América, o CaixaForum Madrid e o Real Observatorio.

No Museo del Prado encontram-se obras de Caravaggio, Lorenzo Lotto, Maella, Diego Velázquez e Goya. O Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, tem três itinerários com reflexões muito interessantes: “A erupção do século XX: utopias e conflito (1900-1945)”, “A guerra terminou? Arte para um mundo dividido (1945-1958)” e “Da revolta para a pós modernidade (1962-1982)”. Na primeira parte está o quadro mais famoso do museu, “Guernica”, de Picasso. Já o Museo Thyssen-Bornemisza expõe tanto obras clássicas italianas do século XV de artistas como Ghirlandaio e Caravaggio, como obras dos vanguardistas, Monet, Van Gogh, Picasso e Dalí.

FAMOSO PARQUE EM MADRID, ARVORES VERDES E ALGUMAS FICANDO LARANJA.
Parque del Retiro

Seguindo pelo Passeo del Arte até o Jardim Botânico está uma das entradas do Parque del Retiro, um dos maiores parques de Madrid que é encantador. É um passeio super madrileño, com muito verde (mais de 15 mil árvores), um lindo lago e o Palácio de Cristal.  No parque também tem o monumento “O Ángel Caído” (ou “O Anjo Caído”) , esculpido em 1877 por Ricardo Bellver. Dizem que Madrid é a única cidade do mundo com um monumento ao Diabo.

PALACIO DE CRISTAL EM MADRID AO FUNDO DE UM DIA LINDO DE SOL
Palacio del Cristal

O pôr-do-sol mais incrível que vi em Madrid foi no gramado do Templo de Debod. O monumento foi doado pelo Egito, em agradecimento à ajuda espanhola para resgatar o complexo de Abu Simbel, em 1968. Outros parques da cidade, que agradam madrileños e turistas, são o Madrid Río e o Casa de Campo. É interessante lembrar que, como na Europa as estações do ano são realmente marcadas, o horário do pôr-do-sol varia. No verão o dia pode chegar a durar até às 21h30, enquanto que no inverno escurece no máximo às 18h

O que comer em Madrid

A comida de Madrid é muito caseira. O prato mais famoso é o cocido madrileño, que é feito com sopa, grão de bico e carne. Nos bares são mais comum as “tapas”: petiscos, como batatas bravas e nachos. O jámon, presunto espanhol, também conquista muitos turistas.

sol alaranjado em Madrid , com fonte em primeiro plano
Templo de Debod

Outros bairros incríveis, menos turísticos e com uma vida noturna muito ativa são La Malasaña, La Laitna e o Lavapiés. Sendo La Masaña mais boêmio e elitizado. Os outros dois são bem alternativos, com bastante contracultura e imigrantes de todo o mundo.

Madrid é uma capital muito rica e cheia de vida. Os madrileños lembram muito os latinos na forma de se relacionar uns com os outros. Uma cidade menos turísticas que outras regiões da Espanha, como Barcelona, porém onde você vive intensamente a cultura local espanhola.

templo de Debod erm Madrid em primeiro plano, com reflexo na agua e no fundo por do sol
Templo de Debod
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Catalunha, um novo país europeu?

Por Maria Fernanda Romero

Em todo prédio de Barcelona há pelo menos uma bandeira da Catalunya exposta em alguma janela de ferro. Os catalães nunca se identificaram como espanhóis, mas agora o clima de separação é sentido em cada esquina.

A cultura catalã deixa traços desde da era medieval. A língua é rica e símbolo de resistência contra ditadura franquista, que proibiu o catalão na época. “Eu ía a aulas clandestinas para aprender algo do meu idioma. Tudo e todos aqueles que poderiam parecer uma ameaça eram perseguidos, naturalmente, já que era uma ditadura” M., 52. O catalão não é mais proibido, porém o povo ainda sente que a língua é apagada pelo castelhano.

Bandeiras da Catalunya em prédios de BarcelonaBandeiras da Catalunya em prédios de Barcelona

A província autônoma também tem um hino próprio, que foi escrito em durante a guerra dos Segadors. A música diz, que os soldados ficavam nos povoados e desprezavam a comida, vinho, matavam gente e estupravam mulheres. O povo reclamava e não acontecia nada. Até que um dia mataram um trabalhador de campo (segador) que estava em Barcelona tentando resolver a situação. A partir de então começou a revolta, várias pessoas importantes na época, inclusive o vice-rei da região, foram mortas. Pau Claris declarou a república Catalã em 1641 e a revolta durou até 1659.

Uma das consequências da guerra é o tratado dos Pirineus.  Em 1714, os catalães entraram em novo conflito contra o rei autoritário e centralizador de poder, que queria tirar (e tirou) a autonomia da região na  Guerra de Sucessão. Com a derrota da Catalunha a região passa formar parte do Estado espanhol.

Diferentemente de outras regiões separatistas da Espanha, os catalães sempre buscaram o diálogo. Em algumas consultas feitas pela Generalitat, como é chamado o governo Catalão, a mais importante em 9 de novembro de 2014, a população demonstrou a vontade de votar em um plebiscito se a Catalunha deveria ou não se separar da Espanha. Os casos de corrupção do Partido Popular (PP), cujo o líder é o presidente do governo Espanhol Mariano Rajoy, foi o estopim para que a Generalitat anunciasse o tal referendum em 2017.

ato a favor do referendum em Barcelona

A Espanha não aceitou o plebiscito em nenhum momento. A guerra política começou. O parlamento catalão aprova a “lei da ruptura”, ou seja, leis do novo país caso o “sim” ganhasse. O Tribunal Constitucional espanhol não a aceita. O governo continua fechado para o diálogo. O presidente da Generalitat, Puigdemont e a alcaldesa de Barcelona Ada Colau enviam uma carta para o rei Felipe VI e para Rajoy pedindo uma resolução para o caso espanhol . A resposta é: só haverá negociação se não houver plebiscito.

ato a favor do referendum em Barcelonaato a favor do referendum em Barcelona

Enquanto isso as ruas borbulham. Manifestações todos os dias. O povo quer ser ouvido. A repressão aumenta e 14 funcionários do governo catalão são presos em buscas de materiais que seriam usados no dia 1 de outubro. Outros são multados no valor de 12 mil euros. Mais pessoas às ruas. O governo ameaça e a ordem final é que a polícia impeça a votação a qualquer custo.

ato em favor do referendum em Barcelona

O dia primeiro de outubro de 2017 amanheceu cinza. Frio e chuva acompanharam esse dia de tensão e história na Catalunha. Fui a um colégio eleitoral em Gràcia acompanhar a votação. A fila era imensa e a primeira notícia que chegou foi a de que a Polícia Nacional estava invadindo escolas por toda parte com muita violência. Alguns vídeos começaram a circular nas redes sociais. Massacre e covardia: Não existe outra definição para atuação da polícia espanhola, mas isso só motivou as pessoas a saírem de suas casas.

Me aproximo de um senhor de aproximadamente 70 anos. Pergunto se ele pode me dar uma entrevista. Ele me olha desconfiado, “Sobre o que? Não há nada para se dizer”. Eu respondo “sobre a votação” e digo que sou uma jornalista independente: Escolhi a palavra certa. “Periodista independiente?” Ele muda o tom. Diz que também quer ser independente. Era justamente disso que se tratava a situação. Perguntei se ele tinha medo da polícia. “A princípio não. Olha ali a polícia”, diz apontando os Mossos d’ Esquadra, polícia interna da Catalunha, que também tinha sido ordenada a fechar escolas, mas cuja maioria não cumpriu a ordem. “Somos pessoas normais. Só queremos votar, não devemos ter medo da polícia”. A última pergunta que faço é o que vai acontecer se a Catalunha se tornar livre. “Nunca seremos livre, estamos na Europa”, finaliza o senhor.

“Medo? Não, não não. Não há medo! Não há medo para nada.” C. me responde determinada. “Já estamos vencendo. Vencer é isso, é votar. Ou pelo menos tentar. Força Catalunya!” completa antes de se despedir.

dia da votação em Barcelona

Sigo para Praça Catalunya, onde um pequeno grupo protesta a favor da união com Espanha. P. afirma que, em primeiro lugar, não há um plebiscito: “O que está acontecendo é inconstitucional e não tem nenhum apoio das instituições públicas”. Reforça que é, inclusive, uma afronta contra o estado autônoma da Catalunha.

ato contra a independencia da Catalunya em Barcelona

“Não me sinto motivado a votar, porque votar é apoiar isso. Somente votam os partidários do governo, isso não tem nenhuma validez política. Se eu estivesse participando estaria reconhecendo uma validez que não tenho”. P. acredita que a Espanha é um país plural e que as diferenças entre as regiões reforçam isso. “Todos falamos duas línguas aqui e também há outras línguas na Espanha como o galego e o basco. Isso nunca foi um problema antes. Faz parte do que é a Espanha”.

A oposição acredita que o discurso de Puigdemont, presidente da Generalitat, é vitimista e que o estado autônomo permite o controle da polícia ( Mossos d´Esquadra), da educação e também dos serviços sanitários. “A Catalunha tem muita liberdade e autonomia. Os deputados catalães também estão no congresso e podem defender suas leis. A Espanha respeita a Catalunha”. P. ainda completa que é um absurdo a Generalitat dividir o povo entre bons e maus. “A violência está acontecendo porque a Generalitat está provocando isso para ganhar legitimidade. Eles querem que aconteça a violência e sabiam que ia acontecer se organizassem um referendum ilegal, mas espero que a gente consiga achar uma solução pacífica”.

Enquanto os “espanholistas” protestam, os telões armados na Praça Catalunya mostram imagens dos colégios fechados pela polícia. Literalmente um filme de horror em praça pública. Volto para o colégio na Gràcia e, diferentemente do que imaginava, o clima é de completa paz. O número de pessoas que saíram para votar tinha triplicado. A escola tocava músicas típicas da região e as pessoas na rua dançavam e gritavam hinos de resistência.  Alguns voluntários anunciavam as notícias pelos altos falantes. Um contingente cada vez maior se formava em volta da escola para impedir a chegada da polícia e, principalmente, para proteger as urnas.

Policiais espanhois em uma praça em Barcelonapolicia em Barcelona

Naira L,19, é catalã, mas vive em Madri e estuda Filosofia e Política. Ela viajou da capital do país até Barcelona (630 km) para votar nulo, afinal ela faz questão de votar. “É pela democracia”. Ela diz que os espanhóis não entendem porque os catalães querem a separação. “Eles dizem que é ou porque somos egoístas, ou por outros motivos que não são importantes, e não percebem que o governo do PP não enxerga a Catalunha”. Ela me conta que, na verdade, apenas metade dos catalães querem a separação, mas quanto mais o governo reprime e ataca, mais motivadas as pessoas ficam a a apoiarem. “Temos o direito de votar, votar é democrático”. Ela finaliza dizendo que não tem vontade de encontrar a polícia, “mas eu sei que a nossa polícia protegerá a gente caso a nacional venha aqui. Mas olhe em volta: Tem muita gente, não passará nada”.

O clima de comemoração e ansiedade só aumentou às 20h, quando o plebiscito acabou. “É que agora vão contar os votos”, um catalão me explicou, “as urnas não podem sair daqui, por motivos óbvios, então temos que protegê-las até eles terminarem de contar,”  Um dos voluntários pediu no alto falante para que as pessoas colocassem seus celulares em modo avião. O sinal de internet estava fraco e havia a especulação de que o governo tinha cortado as redes móveis. Enquanto os votos eram contados a mão, pouco a pouco as pessoas saíam em direção à Praça Catalunya, onde o resultado seria anunciado.

O caminho de volta para praça era escuro e tenso. As ruas vazias, a polícia ostentava suas armas e os estabelecimentos estavam todos fechados, mas, chegando na praça, parecia final de Copa do Mundo: Telão, música, bandeiras. A sensação era de vitória, afinal, eles votaram. E eles gritavam “Hem votat, hem votat” (nós votamos, em catalão).

Já era madrugada quando os números foram divulgados. A primeira notícia foi vergonhosa: 844 feridos em confrontos e repressão. Mais feridos que em qualquer ataque terrorista, dos quais eles têm tanto medo. Em seguida a notícia que todos esperavam: 2.020.144 a favor da separação: 90% dos que votaram. Os catalães comemoram a notícia que traz, também, inúmeras dúvidas sobre o futuro incerto da Espanha.

comemoração pós votação em Barcelona. MIlhares de pessoas na praça com bandeiras da Catalunyaprédio com os dizeres de hola democracia em Barcelona

La Mercè: vivendo Barcelona

Por Maria Fernanda Romero

A FESTA DA PADROEIRA DE BARCELONA

A festa da padroeira de Barcelona, La Mercè, é o maior festival gratuito da cidade. Ocorre no fim de setembro, promovendo uma imersão na cultura popular da Catalunya, integração entre a população e ocupação dos espaços públicos. Todo ano uma cidade é homenageada, esse ano foi a capital islandesa Reykjavik.

“Ocupar o espaço público da cidade cria a identidade de cidadão nos moradores”, explica Gabriela Chiaramelli, 25, arquiteta e mestre em sustentabilidade pela Universidade Politécnica da Catalunya, “isso reflete na forma como o indivíduo cuida da cidade,  pois, uma vez que a população se sente parte dela, um sentimento de dever civil é alimentado em cada um”.

Projeção audiovisual de uma capsula dentro de um parque de Barcelona
Projeção audiovisual no Parc de la Ciutadella

A extensa programação de La Mercè conta com uma maratona de shows divida entre artistas locais de diferentes estilos e o BAM (Barcelona Acció Musical), que foca na música internacional, e, principalmente, da cidade convidada. Projeções audiovisuais, circos e outras demonstrações típicas acontecem em diversos pontos turísticos da cidade, como no Castelo de Montjuic, no Arc del Triomf  e no Parc da Ciutadella.

“Descentralizar as atrações e promover a festa aberta para o público é mais uma vantagem para Barcelona, cidade cujo maior atrativo turístico é a própria cidade”, analisa Denis Santaella , 25, arquiteto e mestre em paisagismo pela Universidade Politécnica da Catalunya. “A prefeitura promove um evento dessa magnitude e tem capacidade de equipar temporariamente todos os espaços, para suprir as necessidades da festa. Além disso tem um sistema de limpeza de rua, que, em uma hora, já está tudo limpo”.

projecao de um antifiatro em fomato de queijo em um parque em Barcelona
Projeção audiovisual no Parc de la Ciutadella

bonecos de luz dancando no escuro em Barcelona
Arc del Triomf

Momento histórico

As representações típicas desse ano tiveram uma conotação especial, uma vez que a Catalunya está vivendo um momento histórico de sugestão de um referendum unilateral de separação da Espanha. Dentre essas representações as que mais se destacam são:

Trupe dos Gigantes: Os gigantes festivos apareciam em contextos religiosos durante o século XV, mas no decorrer dos séculos ganharam um caráter totalmente lúdico e festivo. São símbolos da identidade local e desde 1902 a prefeitura organiza concursos de gigantes. Também foram usados como forma de protestos durante a guerra civil. Seus desfiles seguem uma linha carnavalesca, lembrando os bonecos de Olinda no Brasil.

Correfoc: o Correfoc é um desfile inspirado no “Baile dos Diabos”, uma apresentação feita durante o casamento do Conde de Barcelona com a princesa de Aragão no século XII. O “Baile dos Diabos”, assim como alguns teatros de rua medieval, tinha como temática a alegoria da luta do Bem contra o Mal em que, nem sempre, o diabo representa o mal. Atualmente o Correfoc é uma apresentação em que grupos fantasiados de diabos e dragões saem à noite no meio da multidão com fogos de artifício.

apresentacao de falcons na praca jaume em Barcelona
Falcons de Barcelona na Praça Jaume I

apresentacao em praca em Barcelona
Falcons de Barcelona na Praça Jaume I

Castells, falcons e mojiganga:  São construções humanas cada vez maiores e mais complicadas. A prática é uma evolução dos bailes valencianos. Em Barcelona é muito comum e tem até competição entre os grupos. Os casteleiros foram considerados Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO em 2010.

Manoel,39, faz parte dos falcons de Barcelona que se apresentaram na Praça Jaume I durante a La Mercè. Há 8 anos ele treina 5 horas por semana e não consegue disfarçar a emoção de estar se apresentando na maior festa de Barcelona. “Estou muito contente de estar aqui, La Mercè é a nossa oportunidade de mostrar nosso trabalho do ano todo”.

Projeções, apresentações impecáveis, músicas e um entorno que te transportam para Idade Medieval.  Aline Pinheiro, 25, designer, brasileira de passagem por Barcelona acha que o único defeito da festa é a área gastronômica. “Tem food trucks em todos os pontos, mas a comida não é tão boa e é mais cara que o normal”.

casal em apresentação de circo em castelo de Montjuic
Circo no Castelo de Montjuic

vista da roda gigante em barceloneta, com barcos, montanhas e mar
Roda Gigante em Barceloneta

Catedral de Barcelona durante a festa da padroeira La Merce
Catedral de Barcelona

Um dos momentos mais lindos do festival foi o encerramento. Um minuto de silêncio em respeito ao atentado terrorista em Barcelona. E então começou o emocionante espetáculo: um show pirotécnico na frente da mágica fonte de Montjuic, praça Espanha, em que água, música, luz e sombra, dançaram na mesma sintonia.

fogos na praça Espanha em Barcelona durante encerramento
Encerramento na Praça Espanha

Aljezur: Um pedacinho azul em Portugal

Por Maria Fernanda Romero

Chegando em Porutgal

Eu já perdi a conta de quantas vezes andei de avião. Mais de trinta, com certeza. Porém, ainda tenho medo de voar. Sempre fico inquieta, monitorando a rota do avião pela função “mapa”. Deve ter vários malucos assim, não é à toa que essa função esteja disponível no dispositivo de entretenimento de viagens.

Pelo mapa soube que estava perto de Lisboa, meu destino final, mas, pela janela do avião, eu via um vasto litoral. Amplo. Era o Oceano Atlântico marcado pelas falésias que determinam o começo de Portugal.

praia em aljezur, casa de surf, bandeira de Portugal
Praia de Monte Clérigo

Desci no aeroporto de Lisboa com meu mochilão de 50 litros pesando 15kg, uma mala de rodinha com mais 15kg e minha prancha. 10kg deveria ser o suficiente para todos os pertences dessa vida, mas ainda não cheguei nesse patamar de desapego. A questão é que não foi fácil andar até o metrô.

Fui até a estação Jardim Zoológico – onde pegaria o ônibus para Aljezur, no Algarve – arrastando a prancha e sendo ajudada por muitas boas almas. A Rede Expresso é a linha de ônibus que faz o trajeto. Saem 4 autocarros por dia e o bilhete custa 18 euros, mas jovens de até 25 anos têm desconto.

barco em Lisboa, ponte 25 de abril, oceano atlântico
Lisboa

Aljezur

Aljezur fica no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), no Algarve. Fica perto da capital, Faro – onde também há um aeroporto internacional – e das cidade Albufeira e Lagos.

Minha história com essa cidade começou quando buscava algum lugar para ficar em Portugal durante o mês de agosto. Achei, pelo site worldpackers, uma oportunidade de trabalho em troca de acomodação e comida. Esse site assim como outros de trabalho voluntário (como workaway e helpix) é uma ótima opção para quem busca viajar gastando pouco dinheiro e experienciar realmente a vida local. Procure sempre escolher lugares bem avaliados, eu não tive tanta sorte no local que fiquei, mas o fato de a cidade ser maravilhosa compensou.

mar e oceano em portugal
Aljezur

mar e montanas em Portugal
Aljezur

Trabalhando em Aljezur e morando em Monte Clérigo, vivi dias incríveis do verão português. De dia, muito calor: uma média de 30ºC. Já, ao anoitecer, muito frio: A temperatura pode cair pela metade na madrugada, chegando aos 15ºC.

As praias são maravilhosas. A água gelada lembra o mar do sul do Brasil. O oceano aberto, as falésias e as grutas naturais te mostram, que você está no Algarve, um dos lugares mais lindos do mundo. É também um ótimo destino para quem surfa: Ondas perfeitas praticamente todos os dias. Além disso existem várias escolas e surfcamps na região.

praia, mar e montanhas em Portugal
Aljezur

praia, mar e montanhas no sul de Portugal
Aljezur

A locomoção sem carro é um pouco complicada, já que as praias são um pouco distantes umas das outras, entretanto é possível pedir carona – ou boleia como se diz em português de Portugal. Pegar boleia é seguro e fácil. Eu fiquei o mês todo dependendo desse método de locomoção, o que também fez com que eu conhecesse várias pessoas legais do mundo inteiro.

O que comer em Aljezur

Por ser uma cidade litorânea, encontra-se muito peixe na gastronomia local: Camarões, lula e bacalhau são pratos comuns, mas também é possível achar de tudo: pizza, hambúrguer e até comida latino-americana.

Praia e falésias em Arrifana
Arrifana

Escada no meio das motanhas que leva até um rio na praia em Aljezur
Aljezur

Conheci muitas pessoas, principalmente jovens que, como eu, buscam viajar, conhecer pessoas e lugares e, acima de tudo, se encontrar antes de ir atrás de uma carreira. Me arrisco a dizer que o jovem brasileiro quer se encontrar profissionalmente antes de se encontrar pessoalmente. Nosso método educacional, cada vez pior e mais restrito, nos obriga escolher e nos dedicar muito cedo a opções de carreiras que não aprofundam realmente as nossas habilidades. Já, na Europa, a maior parte das faculdades é multidisciplinar. Ao longo do curso você vai restringindo seu campo de estudo. Assim como existem diferentes tipos de Ensino Médio, para diferentes tipos de pessoas. Também é muito comum o programa de intercâmbio “Erasmus” durante a graduação.

Estrada e no fundo montanhas e ceu
Aljezur

Viver fora da sua cultura pode ser um choque a cada dia, mas é também um constante aprendizado. Eu tive muita sorte: Aljezur é maravilhosa, as praias são tranquilas e a brisa do vento é constante. É um lugar que deve ser visitado por todos que gostam da tranquilidade e do mar.

Vila Rica de Ouro Preto

Por Maria Fernanda Romero

Ao chegar na primeira capital de Minas Gerais, Vila Rica de Ouro Preto, logo me deparei com ruelas estreitas, casarões enormes, ruas de paralelepípedos e imensas  ladeiras. Foi amor à primeira vista. Tudo era lindo, mas ao mesmo tempo denso. Era como estar em um filme de época, mas com as pessoas da atualidade.

HISTÓRIA DE OURO PRETO

Ouro Preto surgiu quando aventureiros e bandeirantes descobriram que era possível extrair ouro na região. A história da cidade é marcada por guerras pelo ouro que dali brotava. É uma história pesada. Além das guerras pelo território e da escravidão, foi lá que ocorreu a Inconfidência Mineira em 1789, uma revolta similar à Revolução Francesa que ocorre no mesmo ano. Por ter traído a Coroa portuguesa, Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes ), líder do movimento, é decapitado na praça pública que hoje é conhecida como Praça Tiradentes. 

igreja na praça central de ouro preto, em minas gerais
Ouro Preto

Mesmo com o declínio da mineração, a capital de Minas Gerais continuou sendo Vila Rica até 1897, quando é transferida para Belo Horizonte. Essa transferência de capital freou o desenvolvimento industrial da cidade, porém isso a tornou especial.  Em 1980 Ouro Preto é tombada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

O que fazer em Ouro Preto:

O centro histórico de Ouro Preto é incrível. Casas e igrejas em estilo barroco, construídas com muito ouro, muitas delas por Aleijadinho, podem ser visitadas em toda a região. Nos arredores da Praça Tiradentes também estão os museus que contam todas as histórias da cidade: O Museu da Inconfidência, a Casa dos Contos e o Museu do Aleijadinho são alguns deles.

Igreja colorida na praça em Ouro Preto
Ouro Preto

O que fazer em Ouro Preto:

O centro histórico de Ouro Preto é incrível. Casas e igrejas em estilo barroco, construídas com muito ouro, muitas delas por Aleijadinho, podem ser visitadas em toda a região. Nos arredores da Praça Tiradentes também estão os museus que contam todas as histórias da cidade: O Museu da Inconfidência, a Casa dos Contos e o Museu do Aleijadinho são alguns deles.

A Escola de Minas de Ouro Preto incrível inaugurada em 1839 foi a primeira Escola de Farmácia da América Latina. Desde a década de 1960, integra a Universidade Federal de Ouro Preto e também funciona como museu. Lá estão expostas as mais diversas pedras e minérios do mundo e também explicações sobre o funcionamento da mineração e extração de minérios.

praça tiradentes. casas coloridas, ceu azul, pessoas caminhando por ouro preto
Praça Tiradentes, Ouro Preto

Na Rua dos Bancos, também no centro, é possível visitar a Casa de Tiradentes e ainda comer muito bem no restaurante O Sótão. A comida mineira é maravilhosa. Qualquer restaurante é incrível, mas o Acaso 85, no Largo Rosário, além de oferecer comida boa é um ponto turístico especial, pois as ruas estreitas, as igrejas, e a arquitetura se assemelham as cidades portuguesas. 

Não foi só a aparência da cidade que me transportou para outros séculos. Ouro Preto não tem cinemas grandes em que passam os filmes hollywoodianos. O Cine Vila Rica é alternativo e, por uma ironia quase metafórica, assisti Cinema Paradiso (1988), quando estive lá.

casaroes, restaurantes e bandeira do Brasil em Ouro Preto
Rua dos Bancos, Ouro Preto

 

As festas típicas e o Carnaval também são atrações de Ouro Preto. Outra possibilidade para sair à noite são as festas nas Repúblicas: os casarões, onde os universitários moram e também servem como palco para diversas festas.

Natureza em Ouro Preto

Para equilibrar o clima denso de uma cidade marcada com tanto sangue, o Parque Itacolomi e a Cachoeira das Andorinhas são lugares de fácil acesso com uma vista incrível. Se estiver de carro, é possível desbravar os distritos de Chapada de Ouro Preto e Novas Larvas.

cachoeira de agua clara na Chapada de Ouro Preto
Cachoeira do Castelinho- Chapada de Ouro Preto
cachoeira de água azul na Chapada de Ouro Preto
Cachoeira do Castelinho- Chapada de Ouro Preto

Minas:

 Há inúmeras minas desativadas em Ouro Preto. É possível visitar algumas delas, como a Mina Du Veloso e a Mina do Chico Rei, e entender um pouco do que elas significaram para o Brasil. Estive na Mina Du Veloso. Lá embaixo é frio. Frio e sombrio. Não porque faltam luzes, mas sim porque lembra a dor.

As Minas foram pensadas por escravos que já tinham experiência em extrair ouro. É muito triste saber que o homem usou o conhecimentos e a força de outros homens para enriquecer. Ao mesmo tempo, é muito interessante observar a tecnologia que esses escravos desenvolveram, como tubos de ventilação, reservatórios de água e mesmo as minas em si, que estão até hoje intactas: Tudo foi muito bem estruturado. Porém é um absurdo saber que o lucro esteve, e ainda está acima da vida.

Mina desativada em Ouro Preto
Mina Du Veloso, Ouro Preto
Mina desativada em Ouro Preto
Mina Du Veloso, Ouro Preto
pedaço de minerio dentro de mina desativada em Ouro Preto
Mina Du Veloso, Ouro Preto

Ainda há atividade mineradora em Minas Gerais. Empresas como a Samarco e a Vale exploram as regiões sem respeito com o meio ambiente ou com a vida. Em um passado não tão distante, duas barragens da Samarco romperam em Mariana. A mineradora não foi penalizada como deveria e está prestes a voltar à atividade.

É impossível estar em Ouro Preto e não se atentar a essas e tantas outras questões do Brasil. Entender o passado também é entender o presente e essa cidade é assim: passado, presente, injustiças, beleza, luta, natureza. Ouro Preto é um destino indispensável a todos que passam por Minas Gerais.

 

Aiuruoca, a casa do papagaio

O QUE FAZER EM AIUROUCA

Seguindo pela Estrada Real no Estado de Minas Gerais, após o município de Baependi, está localizada a Serra do Papagaio, onde fica Aiuruoca, que em tupi significa casa do papagaio.

As estradas de terra do Parque Estadual da Serra do Papagaio nos reservam um visual deslumbrante, de montanhas infinitas. O clima é de paz e sinal de celular é algo raro. Em um entardecer de outono resolvi seguir as montanhas até o fim, encontrei um pedaço  do paraíso.

cachoeira, verde de fundo e uma queda grande
Cachoeira dos Garcias-Aiuruoca

Poucas vozes, o maior barulho era da Cachoeira dos Garcias. O vento gélido das montanhas da Serra da Mantiqueira me faziam implorar por uma lareira. O Casal Garcia foi o lugar, que escolhi para me abrigar. Por lá permaneci durante quatro dias.

Além da Cachoeira dos Garcias, o Parque Estadual da Serra do Papagaio, abriga o Pico do Papagaio. Chegar lá não é fácil. Uma caminhada de quase quatro horas para chegar a 2.105 metros de altitude. Além disso, a trilha não é sinalizada, ou seja, é muito fácil se perder, o recomendado é ir acompanhado de um guia.O poço Joaquim Bernardo também fica no Parque. Seu acesso é mais fácil, que os pontos anteriores.

cachoeira de queda grande e refrescante

Seguindo pela estrada, a pequena cidade de Aiuruoca é habitada por 6.257 pessoas. A cidade também faz parte das Sete Cidades Sagradas de Minas. Pouso Alto, Itanhandú, Carmo de Minas, Maria da Fé, São Tomé das Letras, Conceição do Rio Verde e Aiuruoca formam são tais cidades sagradas, elas formam a Constelação de Órion.

No centro da cidade, outra estrada de terra leva ao vale do Matutu, cabeças sagradas em tupi. O vale do Matutu é uma comunidade, que visa a preservação do meio ambiente. No caminho para Matutu fica a Cachoeira Deus-Me-Livre. Já em Matutu, Um casarão de 1904, patrimônio histórico de Aiuruoca. Lá se pode conhecer mais sobre a história da cidade e sobre a Associação dos Moradores e Amigos do Matutu (AMA).

sensacional queda dágua no sul de minas gerais

VALE DO MATUTU

No vale do Matutu mais cachoeiras maravilhosas. As cachoeiras das Fadas e dos Macacos são as mais famosas. No povoado também há muita comida boa. Produção de cerveja, cachaça, queijo e geleia artesanal. Comer bem, estar em paz e em contato com a natureza e belas paisagens, essa é a Casa do Papagaio.

pôr-do-sol na serra da mantiqueira. Montanhas, ceu laranja e muito verde
pôr-do-sol na serra da mantiqueira

PULSAR: Permita seu coração sentir

Por Maria Fernanda Romero

FESTIVAL DE CULTURAS ALTERNATIVAS

Logo na entrada do distrito de Ipoema, Itabira, em Minas Gerais, uma placa indicava o caminho da Terceira Edição do Festival de Arte, Cultura e Sustentabilidade, PULSAR. Também se referia a ele como “Amigo da Natureza”. Isso porquê o festival teve apoio do  CODEMA, Conselho Municipal do Meio Ambiente, para sua realização.

Municipio de cachoeira alta, em ipoema, muito verde e uma queda dagua maravilhosa
Cachoeira Alta Ipoema

pista principal do festival de culturas alternativas pulsar
Pista Principal

chill out do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

pista tranquila do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

As estruturas, feitas de bamboo, combinadas com uma decoração de outra dimensão, demarcavam as áreas do festival: Pista Principal, Chill Out, Área de Cura, ResPire Redução de Danos e Praça de Alimentação. O Festival situado dentro do Parque Estadual Mata do Limoeira    tinha acesso a uma cachoeira, Cachoeira Alta, de uma queda de 110 metros.

noite de lua crescente, luz e sombra e no fundo a pista chill out do festival de culturas alternativas pulsar
Chill Out

equipe de redução de danos do festival de culturas alternativas pulsar
ResPire Redução de Danos

A Pista Principal era um portal. Até o bar fazia parte da decoração. Projeções, luzes negras e intervenções pirofágicas faziam a mágica acontecer. O Line up também estava impecável. A produção pensou em duas coisas fundamentais: a abertura, com Disfunction, e o encerramento com Kernel Panic. Nenhum dia deixou a desejar. Elowinz, Derango, Giuseppe, Sator Arepo, Farebi Jalebi, Impertinent, Chromatec, Megalopsy foram alguns dos nomes que se apresentaram na festa. Amantes do high BPM do mundo inteiro se impressionaram com as apresentações.

pista de dança do festival de culturas alternativas
Pista Principal

psicodelia na pista principal do festival pulsar
Pista Principal

pista principal e psicodelia. luz negra e cores brilhantes
Pista Principal

Na Área de Cura, além das medicinas alternativas, foram ministradas palestras sobre permacultura e ecologia. O local era um espaço perfeito para descansar e se conectar com uma energia renovada. O papel do Coletivo ResPire também foi fundamental na festa. Um local seguro para informação e discussões sobre o tema de Drogas e Redução de Danos, sem descriminalizar o usuário.

sapo gigante era a estrutura da area de cura do festival pulsar
Área de Cura

O PULSAR encanta e surpreende o público a cada ano. A única reclamação de muitos foi em relação a portaria da festa, e o fato de precisar do ingresso impresso. De resto, a festa deixa saudades e a certeza de que a cena cresce, com muita qualidade, cada vez mais no Brasil.