Viajante quer dar volta ao mundo em 20 anos sem pegar aviões

Por Maria Fernanda Romero
Fotos Dora Lua

Esse é o projeto de Dora, uma pirata romântica extremamente intensa – como ela se define em seu blog. Seu nome de batismo é Luane, mas em homenagem a personagem de Jorge Amado, escolheu ser chamada de Dora nesse seu projeto de transmitir suas vivências na estrada.

Dora nasceu em Recife e abandonou o colégio aos 15 anos por não se adequar saudavelmente ao sistema escolar, entretanto ela nunca deixou de estudar e aprender sozinha. Leu muitos livros e aprendeu duas línguas estrangeiras, inglês e espanhol. Viaja pela BR desde dos 19 anos e afirma categoricamente “ A vida nômade é a única vida possível para mim”.

menina segurando uma gata no canteiro de uma estrada de Pernambuco, com sua bicicleta adptada para carregar sua mochila
Dora Lua na BR 232, chegando em Arcoverde-PE

Volta ao mundo

Apesar de viajar há alguns anos, o projeto Intuitive Dora nasceu em 2018. O objetivo é continuar viajando, mas também poder revelar os mundos que descobre a outras pessoas tão curiosas e apaixonadas pela vida quanto ela, mas que não querem ou não podem estar na estrada também. 

Durantes esses 20 anos Dora quer dar a volta ao mundo, passando por todos os continentes e sem pegar aviões. Indo sempre por terra e mar, independente do meio de transporte, e sempre produzindo conteúdos em textos, vídeos e fotos sobre sua jornada, para o seu blog.

“Desde que saí de Recife tenho viajado principalmente de bike e, eventualmente, carona. Ao longo das décadas de duração dessa jornada, pretendo escrever livros sobre a viagem”.

menina empurrando uma bicileta em uma estrada do Brasil
Show de Segunda, um texto sobre a partida

Um idioma nativo de cada continente

Outro objetivo de Dora durante a sua jornada é aprender um idioma de cada continente. Ela já fala três línguas da Europa. Inglês ela aprendeu em 2017 estudando até atingir um bom nível para conversação, espanhol aprendeu escutando calle 13, mas principalmente viajando. Além do namorado peruano que teve, em Búzios, onde passou uma temporada de um ano, muitos turistas são argentinos. 

Búzios-RJ

Saber outros idiomas não só aproxima os viajantes das culturais e povos locais como também aproxima os viajantes entre si. Falar uma língua não é imprescindível, mas é uma chave muito importante na comunicação e na construção de amizades. “Ao grosso quem tá na estrada, mesmo no Brasil, são pessoas de outros países. Então, falando espanhol, eu estou integrada nessa comunidade viajera latino americana”, conta Dora.

“Permiti meu corpo flutuar na superficie, fechei os olhos e relaxei completamente. Pedi à mente que enviasse à minha consciência, a oração ideal para conjurar o mais perfeito estado de bem-estar. Focando na delícia de boiar no mar, ganhei a frase: “Deus é assim”.
Ainda de olhos fechados, deitada sobre a mais confortavel cama do mundo, repetia e sorria “Deus é assim”.Deus é assim e tudo o que há no cosmos, há em mim também, por isso tenho tudo, nada me falta, a vida é uma delícia.”

Dora Lua

Pausa durante a quarentena

Antes de começar a quarentena, a viajante pretendia realizar uma rota passando pelo Uruguai, Argentina, Paraguai, Mato Grosso do Sul, Bolívia e Peru. Quando comecou a pandemia ela percebeu que teria que fazer uma pausa nos planos de viagem para a quarentena. O problema é que ela já estava no Rio! 

Dora pedalou durante 30 dias até a Bahia e agora está em quarentena na casa de um amigo. Seu plano para quando as fronteiras abrirem é ir direto para a Bolívia. Lá ela quer aprender seu primeiro idioma nativo sulamericano, o Quechua.

Serra da Fumaça, Bahia

Desafios na estrada

Dora viaja como der, no momento é de bike ou carona e ela não enxerga isso como um desafio. Ela acredita que os únicos desafios na estrada são mentais e que não teve nenhum desafio concreto para começar essa volta ao mundo.

“A vida na estrada é a vida mais moleza entre tudo o que eu já experimentei. Passei por grandes desafios nos outros anos antes dessa saída definitiva para a vida nômade”.

Rio São Francisco- BA

No ano de 2017 Dora focou em resolver a sua mente. Ela quase não viajou naquele ano, mas depois que sentiu que estava livres dessas questões, saiu para volta ao mundo e até então não encontrou um desafio de verdade.

Na estrada, a rede serve de cama e a bike é o meio de transporte de Dora Lua

Minas pela Estrada

O Minas pela Estrada é o meu projeto de entrevistar ou postar conteúdos produzidos por mulheres viajantes de todos os tipos. Esse espaço foi criado para mostrar que diferentes tipos de mulheres podem viajar de diferentes formas!

Travessia de Belmonte para Canavieiras- BA

Meu vício é a liberdade

Por Maria Fernanda Romero

Agradeço pela minha liberdade, ao mesmo tempo que percebo que hoje ela é o que me prende. Talvez a liberdade seja a prisão mais perigosa da vida. Porque ela se disfarça. Ela é o convite para um leque de caminhos. Mas ela não oferece bússola. 

Ela é o leme do barco. Sem prever as tempestades. 
Ela é o salto, sem nem olhar o tamanho da queda.
Liberdade é a genuína essência do homem. É direito.
Mas é também escolha.

praia que o mar se mistura com o rio. azul do ceu, com areia e o rio cortando.
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

A mais difícil das escolhas, porque não oferece opções ao mesmo tempo que engloba todas as opções.

Ser livre é tão subjetivo! 

A minha liberdade é saber reinventar em todas as situações, sem me prender em conceitos e definições.  Minha liberdade transmuta o medo e permite o fluxo.  Ela é movimento, constante ou inconstante. Ela questiona.

Ela se tornou um vício discreto e silencioso. Há quem diga que o silêncio é como o vazio. A ausência de significado e de sentido.
Enxergo o silêncio, o nada e o vazio como oposições que trazem sentido, mas nenhum significado pode ser fixo.
Assim como a liberdade.

barco navegando no rio em praias com coqueiros verdes e ceu azul de fundo
Pontal do Maracaípe- Pernambuco

Não ter amarras é ser livre, e ao mesmo tempo estar preso na condição de não aceitar nada imutável, estável, permanente.

Enquanto viaja fotógrafa vende suas artes inspiradas no universo

Por Maria Fernanda Romero
Fotos Alice Perácio

MINAS PELA ESTRADA 

Eu sou privilegiada e sei disso! Meu privilégio facilitou meu processo para viajar, mas conheci diferentes mulheres que viajam sozinhas, com diferentes tipos de vida e dificuldades, que encontraram diferentes formas para viajar. Viver na estrada não é possível para todo mundo, e na verdade, poucas pessoas querem essa vida.

Não quero vender um discurso que “tudo é possível, só basta querer”,  mas quero mostrar que viajar não é apenas hotel caro, comida boa e vinho que custa um rim. Há viagens e viagens! e se planejar ajuda muito!

Quem são as minas pela estrada?

Todas as viajantes! Para me aproximar mais das minhas leitoras e mostrar que diferentes tipos de mulher podem viajar sozinhas criei a série Minas pela Estrada. Aqui vou compartilhar história de outras mulheres viajantes. Hoje o maravilhoso conto é da Alice Perácio, do Creative Roads, sobre uma experiência dela no Rio Grande do Norte em 2018.

ilustradora segurando uma de suas producoes, uma pintura da luda
Alice e uma das artes exuberantes em suas texturas

“É como se o tempo girasse à velocidade das pás daquelas torres…”

 O som é do silêncio, que preenche e retumba em mente, apesar de que às vezes parece um zumbido… Não me incomoda.

O zumbido é como o “som” do Universo, e é só jogar no YouTube se quiser sentir a experiência intergaláctica da qual me refiro. Imagina só, o som das torres humanas confundidos com o que ecoa aqui e sei lá mais onde ao infinito… Eu já nem sei aonde essas palavras vão me levar – quem sabe aos aneis que circulam velozes em torno de Saturno.

O sol tomava os meus olhos. Ele brilhava tão forte que, por momentos, eu não podia enxergar. Aquela luz que quase me cegava, trazia consigo um cansaço – aquele de quem teve um dia bom… Cansaço de água, sabe? O fundo lamacento da lagoa grudava nos meus pés. Um refresco, um alento e gosto de sal nos lábios. Uma dose de caipirinha com um pouco mais de açúcar seria o ideal.

A água escorre pelos cabelos, pinga sobre a areia… Todas aquelas gotas me parecem estrelas que a Mãe Terra agora abraça, e então elas são absorvidas pelo ciclo que continua. Plantinhas irão crescer, minúsculos insetos irão matar a sede e as nuvens vão se encher de gotículas.

menina em deserto de sal refletida no chao, onde também se reflete o ceu e as nuvens
Alice em mochilão pela América do Sul

O dia está lindo, a natureza mais bela do que nunca! Pequenas ondas perfeitas verde-água me tomam o olhar num tom de fascínio. A estrada é a areia, e o mar às vezes teima em ir de encontro às rodas do veículo. Tudo bem, ele é o dono de tudo. O tempo fecha, o céu cinza escuro. A água me parece ainda mais límpida… Gosto de parar e admirar a chegada da tempestade – um mantra.

Eis que vou de encontro a um farol vermelho e branco. Já não consigo mais interagir, a paisagem à minha volta toma absolutamente toda a minha atenção. Ondas brutas se chocam contra as rochas e respigam suaves sobre os meus cílios e a lente da câmera. Pernas já doloridas, caminhadas em dunas, barriga cheia… Descanso na rede para voltar a pular ondas. O mar se agita, mas a água morna nos prende.

E as pás das torres continuam girando… O tempo passa ao ritmo delas. O zumbido elétrico universal agita as minhas partículas, assim como quando o sol toca a pele. E os raios da tempestade continuam a dançar distantes…

arte cheia de texturas sobre o universo
Arte de Alice

Viver do que ama

Alice,  24 anos, nasceu em Belo Horizonte e cresceu no interior do estado de Minas Gerais. Apaixonada em aprender coisas novas, viajar, cantar, escrever, fazer arte e natureza, decidiu seguir o sonho de viver de alguns projetos pessoais, dedicando todas suas energia à eles.

“Passei por momentos cercados de muitas dúvidas, dor e angústia até tomar essa decisão. Eu nunca me encaixei no estilo de vida mais tradicional e gostaria de trabalhar de forma mais livre e independente. No momento estou em transição para viver de arte”.

diversas ilustracoes de aquarela, imitando montanhas, galaxias e o universo. cores e texturas estao em evidencia
Diferentes artes da Alice
E onde a estrada entra nisso?

No final de 2018 Alice criou o Projeto Nômade, atual Creative Roads, e desde então vende suas artes enquanto viaja. Como o projeto está em transição, Alice têm sua base, inclusive já viveu em diferentes lugares do Brasil, mas enquanto se movimento, leva seu trabalho consigo e espalha arte pelas estradas. 

“O meu foco no @creativeroads são aquarelas de montanhas, mapas, galáxias e planetas – puramente inspirada no Universo! Faço as minhas próprias tintas de aquarela com pedras e terra coletadas, já que venho buscando viver uma vida mais sustentável e minimalista e sinto a necessidade de me manter próxima da natureza.”

A arte está presente em tudo 

Alice é uma artista nata. Fotógrafa trabalha com design, ilustração e ainda por cima canta! Alice também pretende escrever livros (por favor, escreva!!) Para acompanhar mais sobre suas histórias, viagens, projetos e muiita arte é só entrar no instagram @aliceperacio

E bora para estrada, manas ! <3

Por que eu ainda viajo?

Por Maria Fernanda Romero

Desde comecei essa página mudei muito minha forma de viajar, me expressar, criar conteúdo- até abandonei um pouco o site, postando mais no instagram, mas nunca deixei de viajar, ao contrário, hoje não tenho endereço fixo, não pago conta de luz, nem aluguel, não tenho conforto e nem sempre uma cama macia- e às vezes tenho dor nas costas, mas continuo viajando e nem penso em abandonar esse estilo de vida !

Viajar não é uma fuga da vida. E sim viver a vida da forma mais intensa, real e presente dela. Viajar é não ter certezas e se reencontrar no desconhecido. Eu comecei a viajar por uma mistura de curiosidade sobre o mundo e suas diferentes formas, decepção sobre a minha rotina e ansiedade de viver logo tudo que eu poderia viver. Mas, rapidamente, toda viagem mudou.

meninas em primeiro plano, em uma estrada de terra, montanhas no fundo
Tankwa Karoo National Park, África do Sul

Eu comecei uma viagem de perdas: de certezas, de verdades, de medos, de rótulos. Uma viagem de compreensão: pelas diferenças, pelos sentimentos. De encontros: com pessoas especiais que me mostraram que vale a pena acreditar na humanidade. Às vezes me falam que tenho que tomar cuidado, que nem todas as pessoas são boas e eu posso ir lá e me hospedar na casa delas, sem nem a conhecerem. Ou pegar uma carona. Mas viajando conheci pessoas, que me fizeram sentir que eu poderia confiar e acreditar.

Minha fé no próximo e na bondade só cresceu durante a viagem. E agora, viajo com mais calma, me surpreendo com a rotina. Mas a viagem mais importante que comecei dentro de tantas viagens, foi a viagem para dentro de mim. Todas as minhas camadas de ser, de luz e de sombra. Viajando lido com a minha escuridão o todo tempo, percebo o quão importante é saber reconhecer e enxergar onde ela está e ainda sim continuar positiva e confiante. E afinal, quando deixo a sombra de lado, priorizo os encontros fantásticos, que parecem ser feitos de sonhos.

victoria falls, cataratas na zambia, arco-iris e menina
Victoria Falls, Zâmbia

O que viajar me ensinou sobre planos

Por Maria Fernanda Romero

Planejar é bom, mas seguir os planos é impossível. Isso porque quando planejamos não levamos em conta um fator crucial, a realidade do momento presente. O momento presente é imprevisível, porém é a única realidade que existe. O agora é a única coisa que importa, que temos controle. Ou que deveríamos ter. 

Na vida real a gente quebra o pé no dia que queria sair para dançar. Pega trânsito quando tinha marcado um encontro. Conhece alguém especial na hora de ir embora.

praia deserta, de um lado a vegetação, no fundo as montanhas de pedra, no meio o encontro do rio com o mar
Aljezur, Portugal

Já pensei que os imprevistos pudessem ser como um anti-destino, ao mesmo tempo são eles que te obrigam improvisar. E é nessa hora que começamos a viver. Então, se é verdade que tudo acontece por algum motivo os imprevistos fazem parte do destino. 

E se nessa hora não sabemos improvisar, perdemos um pouco da vida. Seria o improviso um antídoto contra a morte? Diante aos fatos, me permito sentir tudo que tem dentro de mim. Nos dias de sol e também nos dias de tempestades inesperadas…

areia em primeiro plano, montanha do lado esquerdo e no fundo sob a neblina da manha, casas brancas de pescadores sobem a segunda montanha
Aljezur, Portugal

…E quando me permito sentir também dores, sei que estou vivendo a realidade, e não apenas um exílio da vida.

Mar, meu lar

Por Maria Fernanda Romero

O mar sempre foi a minha fonte de energia,
Nos dias de paz observo as ondas e permaneço tranquila,
Nos dias difíceis olho a imensidão do horizonte e me lembro que o mundo é bem maior,
Nos dias felizes entro correndo e pulando as ondas,
Nos dias tristes misturo minhas lágrimas com água salgada,

Outros dias eu só quero sentar sozinha na beira do mar.
Uns dias eu o olho e grito: um brinde a vida!
Em outros eu quero que ele me leve à outra vida,
Respiro fundo e continuo a navegar

Ainda bem que achei no mar, um lar.

barco no meio do oceano indico, representa o lar e o conforto do mar
Zanzibar, Tanzania

O que você faria com todo tempo do mundo?

Por Maria Fernanda Romero

Se você tivesse todo o tempo do mundo, com o que gastaria seu tempo? Se todas as suas necessidades já estivessem satisfeitas, que necessidades você teria? Se o dinheiro não fosse necessário e a vida fosse a base de trocas  o que você trocaria? 

A verdadeira utopia é preencher o dia somente com as coisas que te fazem feliz? Esse é o caminho para descobrir o sentido da nossa missão?  Se nada fosse uma obrigação, financeira ou estatal, passaríamos os dias desenvolvendo nossas habilidades, se alimentando bem, cuidando do corpo e da alma? Ou apenas morreríamos de tédio? O que é essencial para você? O que te faz ser você? Até que ponto você vive a vida que você quer e não a vida que você precisa?

Qual a forma mágica para conciliar os dois mundos? E porque não tornar nossos desejos as nossas necessidades?  Não tenho nenhuma resposta, mas quando tenho todo o tempo do mundo, percebo que não preciso de mais nada. A partir do momento que o pensamento se tornou “como eu posso ser a minha melhor versão, para mim e para o mundo?” nada mais se é uma obrigação dolorosa, e sim etapas para uma evolução maior.  

yosemite national park, montanhas maravilhosas nevadas em tom de azul refletindo a agua e verdes
Yosemite National Park, Califórnia

Evolução não é linear

Maria Fernanda Romero

As pessoas falam muito sobre crescimento e evolução como se fosse um caminho retilíneo e constante, e na verdade, precisamos dar muitas voltas até conseguir chegar no nosso ideal. Na verdade, a transformação constante faz parte da evolução.

Às vezes, saber o que queremos é a parte mais difícil. E saber o que querer é muito mais do que encontrar uma profissão, uma casa ou qualquer coisa. É algo como ser coerente com o nosso coração, saber como você quer ser e que papel quer ter no mundo.

estrada com arvores cumpridas dentro do parque nacional avenue of the giants california estado unidos
101, Califórnia, USA

Ter clareza sobre si é o primeiro passo, mas depois vem a infinita caminhada de se transformar a cada dia para se realizar. Alguns dias são melhores que outros, em algumas fases o crescimento é constante, mas nem sempre estamos em plena sincronia com a nossa essência.

Tem dias que tudo apenas são sonhos, outros são realizações. Tem dias nebulosos, onde nada faz sentido. Hoje, eu encontrei um sentido, mas ainda não tenho nenhuma resposta.

Na verdade, apesar de tantas dúvidas, não quero mais respostas. Hoje eu só quero aprender como encaixar toda a minha vida em uma mochila.

Afrika Burn: Desafiando o deserto

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

AFRIKA BURN

O AfrikaBurn não é um festival.  É um evento colaborativo, um experimento social, uma expressão da contracultura. No evento não existe dinheiro. Os participantes constroem toda uma metrópole: campings, bares, cozinhas, veículos mutantes, pistas de dança e até a decoração e as esculturas de arte que são queimadas durante a semana.

BURNING MAN

O AfrikaBurn é inspirado no Burning Man, realizado anualmente em Nevada, Estados Unidos, desde 1986. O Burning Man dura uma semana e tem um público bem mais vasto que o AfrikaBurn, chegando a atrair até 50 mil pessoas todo ano. O evento chama “homem em chamas” porque no último dia uma escultura em formato de homem é queimada.

O deserto de Tankwa, África do Sul

No AfrikaBurn acontecem queimas de todas as esculturas e até dos palcos. As queimas sempre têm um propósito, seja ele uma reflexão ou uma comemoração. Algumas são em homenagem aos criadores do Burning Man.

OS PRINCÍPIOS 

Os burnings pelo mundo são baseados em 10 princípios. O principal é não existir dinheiro. Tudo é troca ou presente. Apesar disso há uma incoerência, pois para participar de campings temáticos as pessoas devem fazer uma alta colaboração financeira. Ao mesmo tempo, é verdade que os camping temáticos proporcionam uma festa à parte: decorações impecáveis, vivências, jantares e alguns deles até oferecem palestras e aulas de yoga. Então, para quem busca uma estrutura maior dentro do festival, os valores cobrados são justificáveis. 

Outro princípio importante do evento é não deixar nada para trás. Você deve levar absolutamente TUDO que for consumir (a não ser que fique em um camping temático), desde água, fogo, até as refeições e bebidas alcoólicas. No festival a única coisa que se vende é gelo por duas horas ao dia. Além disso, no fim do festival, você deve levar TUDO de volta com você. Nem um plástico pode ser deixado para trás. Os outros princípios giram em torno da liberdade, da auto expressão, de fazer valer o “aqui e agora” e de participação.

Todos podem ser voluntários e trabalhar em alguma área do festival. O instinto de comunidade também é reforçado, além de se presentear sem esperar algo em troca. E o presente dado nem sempre é algo material. Nos Burnings todos oferecem alguma coisa. Eu ofereci fotografia e algumas garrafas de gin e ganhei um corte de cabelo ali no deserto.

O AfrikaBurn tem ainda um décimo primeiro princípio adicional: ensinar o outro. Um princípio que também reforça o instinto de comunidade.

Meus dias no AfrikaBurn

Teimosa, achei que não precisava de ninguém para ir ao deserto. Consegui uma carona de Cape Town e achei que chegaria no festival com 60 litros de água, sem camping, sem sombra, sem uma proteção do vento (e tem cada tempestade de areia nesse deserto…) e tudo ficaria bem. 

Dois dias antes do Burn, uma amiga que conheci cinco meses antes me ligou e disse que alugaria um carro para ir e que compraria materiais para construir uma espécie de vila. Eu fiquei animada para vê-la, mas estava sem dinheiro e achava que não precisaria de nada. Falei para ela me encontrar no hostel que eu estaria em Cape Town para a gente sair mais ou menos juntas e acampar perto.

E foi essa a minha sorte! Logo no primeiro dia, uma tempestade de vento quase destruiu minha barraca, se não fosse o carro da minha amiga, a barraca teria virado pó. Me rendi. Não dava para ficar sozinha no deserto. E o evento é exatamente sobre isso! 

Lá fiz meu eneagrama, desenhei e pintei, escrevi cartas e cartões-postais (tinha um correio na festa e eu sou louca por cartões-postais!), tirei muitas fotos, aprendi sobre ritmos africanos, dancei, me surpreendi a todo momento com a beleza da natureza e com as alegorias do evento.

O deserto é desafiador – até fisicamente. Não é uma experiência das mais confortáveis, mas é isso que a torna uma vivência enriquecedora e especial do começo ao fim.

DICAS PARA O AFRIKABURN

  • Vá em grupo
  • Leve muita água, inclusive para o banho
  • Leve alguma proteção para o vento, por exemplo uma lona
  •  A noite faz muito frio! Leve roupa de frio!
  • Prepara seu presente com carinho!
  • APROVEITE O MOMENTO PRESENTE!



Zanzibar: Ilha paradisíaca no leste africano

Por Maria Fernanda Romero
Revisão Clara Porta Guimarães

Imagine uma ilha paradisíaca na costa da Tanzânia, na África Oriental. O que vem à sua cabeça? Pense em um mar claro, vegetação verde viva, frutas doces, especiarias várias… cúrcuma, cravo, canela… e o cheiro delas mesclado com a maresia.

Pense em uma população bem humorada, em canções em swahili, em flores cor-de-rosa. Tudo isso poderia definir Zanzibar, mas ainda seria muito pouco considerando tudo que essa ilha pode oferecer.

coqueiro em praia paradisiaca na ilha de Zanzibar na tanzania
Kizimkazi


Como chegar em Zanzibar?


O aeroporto da ilha é super pequeno. Mesmo assim, lá chegam vôos de diversos lugares do mundo. Outra opção para acessar a ilha, é pegar a balsa em Dar Es Salaam, a ex-capital da Tanzânia. A travessia custa 35 usd.

Para entrar na Tanzânia é necessário um visto no valor de 50 usd e um comprovante de vacina de febre amarela. O visto é obtido na entrada do país, tanto no aeroporto de Zanzibar, quanto no aeroporto de Dar Es Salaam, e também nas fronteiras terrestres.

O que fazer em Zanzibar?


Todas as praias da ilha são excelentes e todas têm sua particularidade. No sul, a tábua da maré varia tanto que às vezes parece uma praia deserta, sem mar, e, horas depois, o mar sobe até as casas construídas na frente da praia.

Kizimkazi é o extremo sul da ilha e é muito tranquilo. Não há muito turismo, como em outras partes de Zanzibar e a vila local é habitada por pescadores. Ali se observa uma forma de viver bem simples e tranquila. Vale muito a pena.

mar azul, areia e conchas em praia da ilha paradisiaca de Zanzibar
Jambiani


De Kizimkazi saem passeios para ver e até nadar com golfinhos:

MAS ATENÇÃO

descobri um pouco tarde demais que o barulho dos barcos (e saem muitos barcos) atrapalha a ecolocalização dos golfinhos, isto é, a capacidade deles de se localizar através do som. Isso é extremamente estressante e prejudicial para eles, por isso, recomendo buscar um barco a vela para ir visitá-los. Além disso, o melhor é fazer esse passeio o mais cedo possível, porque barcos e turistas saem de todas as partes da ilha em busca dos golfinhos.

Em Kizimkazi também fica a Promised Land, um lodge e restaurante super aconchegante, com uma vibe de paz de espírito e um reggae tocando ao fundo. Um ótimo lugar para descansar, tomar uma cerveja e ver o maravilhoso pôr-do-sol.



Também vale a pena subir a ilha e visitar as praias de Jambiani e Paje. Lá o mar tem o mesmo tom azul-esverdeado das praias ao sul, porém há muito mais vento, o que torna Paje um dos principais points de Kitesurf de toda ilha. Jambiani também é especial pela presença dos “red monkeys”, uma espécie de macacos ameaçada de extinção. Um dos únicos lugares em que eles ainda podem ser vistos, é Zanzibar. Outro lugar da ilha em que os red monkeys, assim com outras espécies de macacos estão presentes é o parque nacional Jozani Chwaka Bay. A entrada custa 8 usd.

A Chwaka Bay, ao norte de Paje e ao centro da ilha, é onde fica o famoso restaurante The Rock. Sinceramente, foi a minha única decepção em Zanzibar. O restaurante fica no meio do mar e para acessá-lo é necessário pegar um barco ou esperar a maré baixar. Além disso o restaurante é absurdamente caro e as porções são minúsculas. Um passeio extremamente caro, turístico e pouco relevante para a experiência como um todo.

Um destaque da costa leste são as praias Kiwengwa e Matemwe. Já o norte da ilha é muito mais famoso e turístico que o sul e existe uma razão para isso: a água do mar ao norte, tem um tom de azul turquesa que eu nunca tinha visto antes na vida.

pôr-do-sol maravilhoso na praia de Kizimkazi, ilha paradisiaca de Zanzibar
Kizimkazi

Areia fina, água turquesa, uma maré que não varia tanto… Não é surpresa que a praia de Nungwi, no extremo norte da ilha, se tornou a mais famosa! E por isso, o que não falta por lá são restaurantes, hotéis e festas. Gostei muito dos restaurantes Coco Cabana, Mama Mia e Coccobello. Também gostei da festa da lua cheia em Kendwa Rocks.

No norte da ilha também tem muitas opções de mergulho e snorkeling. A ilha de Tumbatu é deslumbrante, com uma vida marinha exuberante, muitos corais coloridos, peixes e estrelas do mar.

Na costa oeste, tem as “Spices Farms”, as fazendas com plantações dos temperos mágicos da ilha. Um tour por ali vale muito a pena, principalmente para quem gosta de cozinhar. Os valores dos passeios variam muito, porque encontrar quem te leve nessas fazendas é algo que se faz através do boca a boca e de contatos. Meu tour custou 5 usd.

Lua cheia no ceu azul no norte da ilha de Zanzibar
Lua cheia



O centro antigo da ilha, conhecido como Stone Town, é uma atração além das praias. Foi ali que Freddie Mercury, astro principal da banda Queen morou com sua família. Hoje a casa dele é um hotel e só pode ser visitada por fora.

Zanzibar teve muita influência árabe. E isso se manifesta na cultura, língua e arquitetura da ilha. As vielas e arcos de Stone Town são um retrato disso. Considerado patrimônio da Unesco, o centro de Zanzibar tem muitas construções e prédios importantes e cheios de história. Alguns deles são o museu “Beit el-Ajaib”, o antigo forte e a catedral anglicana, construída no local do maior mercado de escravos, fazendo-nos lembrar e refletir sobre a tristeza e as injustiças da escravatura.


De Stone Town também saem barcos para Prison Island, onde tem tartarugas gigantes de até 100 anos de idade. Também é possível ir para Nakupenda beach. Essas viagens custam cerca de 15usd

Para se locomover de norte a sul na ilha é um pouco complicado, pois as estradas são péssimas e o táxi é caríssimo. O transporte local é o dala dala, e andar nele é uma aventura à parte, mas que faz parte da experiência, além de ajudar muito na economia da ilha. De qualquer forma, recomendo organizar muito bem os passeios, e até dividir as hospedagens para não perder tempo e energia com os deslocamentos.

transporte local da Tanzânia, o dala dala
Dala dala


O que comer em Zanzibar?

Frutas. Muitas frutas. A ilha tropical é rica em todas as frutas imagináveis, como o nosso país, Brasil. Só que lá eles as usam muito na preparação das refeições todas. Há muitos pratos com banana e muitos com coco, que é utilizado até no feijão. Água de coco também é abundante, além, claro, de pratos com as especiarias da ilha, que são muitas.

Em Zanzibar ficam algumas das praias mais incríveis que eu já vi na vida. Lá tem muita dança, alegria, cultura, diversidade e tantas outras coisas que não são possíveis descrever. Isso é Zanzibar.