Malawi: O coração da África

Por Maria Fernanda Romero
Revisado Clara Porta Guimarães

Malawi, um pequeno e simpático país no sudoeste, ou melhor, bem no coração da África.O país é um destino ainda menos explorado pelo turismo que os seus vizinhos e por isso carrega muito da raiz e da simplicidade africana.

O Malawi foi um dos meus países preferidos do mundo, assim como eu, outros viajantes compartilham dessa opinião. Kevin Dematteï, 26, viajante que atravessou a África do Egito até a África do Sul gostou muito da sua experiência no Malawi “ É um mix perfeito de paisagens maravilhosas e pessoas incríveis”. Ele conta que conheceu pessoas muito hospitaleiras, que o receberam muito bem e que eram abertas aos estrangeiros.

“É um país muito harmônico, as pessoas sempre falavam comigo, no ônibus e na rua. O que eu mais gostava era da rotina de acordar, ir até a cidade falar com as pessoas e criar vínculos sem aquela mentalidade de dinheiro”. Kevin não sentiu que os locais tinham aquela intenção, que os habitantes de outros países mais populares têm, de sempre explorar o turista.

visão panoramica do Lago Malawi. Um dos maiores lagos do mundo localizado no sudoeste africano. Pedra em primeiro plano, à direita o verde e a esquerda o imenso lago
Lake Malawi

Lake Malawi

Um dos traços mais marcantes do país é o lago Malawi, em Kiswahili Niassa, que está entre os dez maiores lagos do mundo, sendo o terceiro maior da África. O lago se estende praticamente pelo país inteiro e também por uma parte dos territórios de Moçambique e da Tanzânia. O mergulho no lago é uma das atrações principais do país. O lago possui uma imensa diversidade de espécies de ciclídeos, porém atenção: Para prevenir a contração vermes que vivem em água doce é recomendado tomar um remédio 6 semanas após o mergulho no lago. O viajante pode ir a qualquer farmácia do país e perguntar sobre o assunto.

Como cruzei a fronteira por terra pela Tanzânia, minha viagem começou ao norte do Malawi. Em Chitimba peguei o transporte para subir a montanha até a cidade Livingstonia, onde pude visitar a Mushroom Farm que, mais que uma fazenda, é um projeto de permacultura, eco educação e socialização com a comunidade. Na fazenda tudo está em harmonia com a terra: o banheiro é de compostagem, os quartos são todos feito respeitando a bioconstrução e quase todos os ingredientes usados na cozinha são colhidos ali. Eles oferecem hospedagem em quartos e campings e o lucro é revertido para os projetos sociais, culturais e ecológicos da fazenda que englobam, entre outros, uma escola de enfermagem, capacitação para fazer artesanato e até uma hidrelétrica.

cachoeira em Livingstonia, Malawi. Foto com a vista de cima, na perspectiva da queda sob o verde
Livingstonia, Malawi

Durante a estadia em Livingstonia é possível conhecer todos esses projetos. A pequena vila, que tem uma linda universidade, museus e igrejas, também possui cachoeiras e trilhas incríveis com vista panorâmica para o Lago Malawi.

De Mushroom Farm fui para Nkhata Bay. Lá fica o porto onde é possível pegar o Ilala Ferry, um barco que atravessa o Lago Malawi de norte a sul uma vez por semana. É o meio de transporte principal dos locais e alguns viajantes escolhem se aventurar nessa jornada. Para saber mais informações sobre horários e duração da viagem, sugiro se informar diretamente no porto, pois é algo que muda muito.

Nkhata bay

Em Nkhata me hospedei na Mayoka Village. A estrutura do lugar é bem bacana, os os banheiros também são de compostagem, há caiaques à disposição e um restaurante que cada dia da semana oferece um jantar “temático” diferente . Rebeca Pessoa, 25, viajante, fez um voluntariado no Mayoka: “Eles me convidaram para fazer parte da família deles e foi exatamente como me senti lá: em família.”

Lago Malawi. Primeiro plano pedras com a sombra de uma escultura de uma mulher, lago cristalino no fundo
Nkhata Bay, Malawi

Nkhata Bay é uma comunidade de Malawianos e estrangeiros e, segundo Rebeca, tem o lago mais lindo que ela já viu. “Meu trabalho literalmente era conversar com os hóspedes, criar um ambiente confortável, e fazer eventos. Eu também fiz uns projetos de pintar placas para o menu e dei direções na rua. Todo dia eu comi comida deliciosa da cozinha de graça e muitas noites nós, voluntários, repartimos um brownie gigante com sorvete caseiro..”

Rebeca aproveitou muito seu período como voluntária. Todo dia nadou no lago e também fez alguns passeios de barco e aulas de yoga com os hóspedes. “Brinquei com as crianças, conversei com viajantes do mundo inteiro, bebemos, fumamos, dançamos debaixo da lua e do sol. Eu amei todo o staff de lá, os donos são pessoas muito generosas e simpáticas. Eu sinceramente saí de lá com uma nova família.”

Malawi Wawi

Kenda Beach, no litoral do lago, é outra praia famosa entre os viajantes. Porém o lugar que mais gostei da região foi Kapeska, onde conheci um projeto incrível de educação primária para as crianças da região, o Malawi Wawi. Tiwanee, a idealizadora e responsável pelo projeto, construiu a escola e também criou uma marca de roupas viabilizando uma forma de gerar renda para o projeto e empregar mulheres da região, que são as costureiras da marca. As peças de roupas são lindas, sustentáveis, únicas e trazem muito amor consigo.

Lilongwe é a capital do Malawi, mas não dei muitas chances para a cidade. Passei lá apenas para pegar ônibus para outros destinos, dentre os quais Monkey Bay, no sul do lago, a poucos quilômetros de Cape Maclear. Ambas são cidades do Parque Nacional do Lago Malawi, patrimônio da Unesco. Me hospedei no Musafa Ecolodge, mas nessa região o que não faltam são lugares para se hospedar.

praia formada pelo lago Malawi, barco em primeiro plano na areia com pedras e o lago ao fundo
Lake Malawi

Vale ressaltar que na África hostels não são muito comuns como na Europa e em outros lugares onde existem mochileiros. Lá existem quartos e albergues simples, ou lodges com opções de quartos individuais, compartilhados e camping. A opção mais barata é sempre camping, mas os quartos costumam equivaler aos preços dos hostels europeus.

No sul do Malawi está localizada a cidade mais industrializada do país: Blantyre. Lá se encontram grandes lojas, mercados, cinemas e restaurantes diversos. Da cidade também há transporte para cruzar a fronteira em direção a Moçambique e para ir ao Monte Mulanje.

Monte Mulanje

Vários mitos giram em torno do Monte Mulanje. Com 3.000 m de altitude, o Monte é o pico mais alto do Malawi. Segundo as lendas locais a montanha é habitada pelos espíritos dos antepassados dos habitantes da região, que decidem quem sobe e quem desce a montanha e que podem fazer uma pessoa desaparecer. Por esse motivo os locais fazem oferendas aos espíritos pela trilha.

Apesar dos contos assombrados, muitos montanhistas passam pelo Malawi e se aventuram pelo Mulanje, onde encontram vistas e cachoeiras deslumbrantes. Entretanto, o clima na região é muito instável, com muita neblina e essa seria uma explicação científica para o desaparecimento das pessoas na região. Um economista e mochileiro brasileiro, Gabriel Buchmann, desapareceu e morreu na trilha do Monte Mulanje em 2009. Sua história inspirou o sensível filme Gabriel e a Montanha, premiado no Festival de Cannes em 2017.

menina entre as montanhas do Malawi em um dos picos mais alto da Africa
Rebeca durante subida ao Monte Mulanje

Gabriel subiu o Monte sem guia. Já Rebeca Pessoa passou o ano novo de 2019 subindo a montanha Mulanje com um guia e um carregador. “Eu levei uma mochila mais leve e o carregador levou a mais pesada com comida e materiais”. A caminhada durou 3 dias e no final Beca não achou tão difícil e acredita que poderia ter ido sem o carregador, mas não sem Harry, o guia. “Harry Naminga foi muito solícito e simpático comigo, sempre me deixando cômoda. Foi muito divertido passar os dias na natureza com eles, conhecendo uma parte de Malawi.”

acampamento raiz na montanha mulanje. mochilas ao lado dos viajantes e comida sendo cozinhada
Rebeca e amigos durante acampamento no Monte Mulanje

“No final nós não conseguimos subir até o pico por causa da chuva do dia anterior. O caminho é completamente feito de pedras, muito perigoso. Nós chegamos até onde foi possível e vimos uma vista até melhor do que no pico, porque de lá só dava para ver nuvens!”. Apesar de não chegar ao pico, a viajante amou o trekking e reforça que o mais bonito foi o caminho. “Nós cruzamos rios e bebemos água deles, vimos vistas maravilhosas, deitamos embaixo de árvores diversas, conversamos, cozinhamos juntos na fogueira as comidas típicas do Malawi, como Nsima e folhas verdes. Cada noite ficamos em uma cabana diferente na rotina. As cabanas eram simples, mas que luxo dormir ao lado de uma fogueira em uma noite fria!”.

O clima na montanha muda muito. De noite faz muito calor e a noite faz bastante frio. Vale lembrar que o Malawi tem uma temporada de chuvas intensas e outra de seca. Outro filme muito bom, que retrata a realidade da população e as dificuldades de produzir alimento por causa desse clima é “O menino que descobriu o vento”.

Hoje o Mulanje é oficialmente uma reserva florestal, nomeada Patrimônio Mundial e está sob a proteção do Mountain Conservation Trust (MMCT).

Para quem quiser escalar o Mulanje com Harry Naminga o contato é +265 882857268

Autor: culturanavegavel

Jornalista de formação, escritora de alma. Comecei um mochilão por curiosidade e encontrei várias formas de viver e aprender. Hoje levo uma vida nômade, viajando por onde meu coração vibra. instagram: @culturanavegavel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s