Spannabis mostra o potencial da indústria canabica em Barcelona

Por Maria Fernanda Romero

A Spannabis é uma das maiores feiras cannábicas do mundo. Sua 15ª edição aconteceu no último fim de semana (9, 10 e 11 de março) em Barcelona.  A feira reúne todos os apaixonados por maconha da Europa e do mundo, desde dos consumidores primários até produtores e todos os especialistas da indústria cannábica.

O evento mostra que a maconha deixou de ser apenas um entorpecente e tornou-se quase um artigo de luxo que tem infinitas variações, acessórios adjacentes, seguidores e especialistas. Já a vi até ser comparada com o vinho! Além disso, a cannabis ganha cada vez mais estudos e produtos visando o lado medicinal, tem utilidade na indústria têxtil e pode até ser usada como combustível.

COMO É A SPANNABIS

Mais de 250 expositores compareceram à feira, dentre os quais os já conhecidos Barney’s Farm, DNA e Sensi Seeds, mas também alguns novos, como Carroll Leds. A feira também recebeu a World Cannabis Conferences 2018, que foi o sexto Congresso Internacional sobre cannabis.

entrada da spannabis, feira cannabica em Barcelona

Na sexta feira, o fórum contou com debates sobre as mulheres cannábicas.O ambiente cannábico é predominantemente masculino, assim como os empresários e pesquisadores desse ramo. Porém, isto está mudando e conforme o ramo cresce também cresce o número de mulheres que estão ocupando espaço nesse mundo.

Alice Reis, 24, brasileira e psicóloga é uma das fundadoras da plataforma digital Girls in Green. A plataforma reúne informações do mundo cannábico no Brasil e no mundo. As duas criadoras da plataforma são entusiastas de viagens e cannabis e têm por objetivo tirar o estigma negativo do usuário de maconha, mas também buscar a representatividade da mulher em um ambiente ainda muito masculino.

“No nosso espaço falamos sobre viagens, política de drogas e maconha. É um espaço para todos, mas permitimos muita conversa entre as mulheres. É um espaço em que as mulheres são acolhidas e muitas vezes desabafam. Nós respondemos todas que entram em contato com a gente, seja tirando dúvidas ou apenas ouvindo as histórias das meninas.”, conta a psicóloga, que completa dizendo que procura incentivar as seguidoras do site a dividirem suas experiências na plataforma.A

menina vaporizando em feira cannabica
Alice Reis provando o vaporizador da Puff Co

Ainda no primeiro dia do evento, a conferência recebeu o ICBC, o fórum internacional sobre  mercado da maconha. Já no sábado, foi o dia da maconha medicinal com a presença do Observatório Espanhol da Cannabis Medicinal.

“Ainda temos que avançar muito no estudo sobre cannabis medicinal. Infelizmente só são permitidos atualmente óleos de maconha de CBD com até 0,2% de THC. O problema é que sabemos que no nível de microdoses os dois trabalham bem juntos” Conta Q., produtor de óleo medicinal de CBD.  “Ainda há muita propaganda demasiadamente ruim do THC e muita propaganda demasiadamente boa do CBD”, completa o produtor.

funcionários da empresa canna testando componentes de maconha
A empresa Canna testa os componentes de marihuanna 

As categorias de expositores são: Banco de Sementes, Cânhamo Industrial, Acessórios, Grow Shops, Medicinal, Fertilizantes,  Vaporizadores e Têxtil. Paralelamente à feira acontece uma votação na qual alguns jurados dentro do público escolhem o melhor expositor de cada categoria.

É impressionante a variedade de categorias e até de produtos dentro da mesma categoria. A Sensi Seeds, que é um banco de sementes conhecido, é uma das empresas que explora o lado alimentício da planta. Eles produzem agora o Hemp Protein Shake, um concentrado de proteína que não tem nenhum efeito alucinógeno, pois é feito com o caule da planta. Além de rico em proteínas o shake tem Vitamina B e ferro em sua composição.

Stands de feira cannabica em Barcelona

Os fertilizantes, reguladores de solo e sistemas de iluminação à base de cannabis estão cada vez mais potentes. Mas as “parafernálias”, que são os novos utensílios relacionados à erva também estão se diversificando. A Rosin Tech, por exemplo é uma empresa que vende máquinas que extraem o rosin da flor de marijuana. As máquinas são conhecidas e custam em torno de €3000, porém a empresa teve a sacada de vender uma mini-máquina para os consumidores comuns poderem fazer a própria extração em casa. A mini-máquina custa em torno de 250 euros.

máquina de prensar rosin em feira cannábica de Barcelona

A Trimpro foi uma das empresas que estava vendendo máquinas que fazem o “trim” automaticamente, isto é, que tiram o excesso de plantas da flor de marijuana. Entretanto, essas máquinas diminuem a qualidade do processo e tiram os empregos das pessoas que o fazem manualmente.

máquina de trimmar (cortar excesso de folhas) em Barcelona

Muitos frequentadores da feira estão muito felizes com o crescimento da Indústria da maconha, mas isso também traz sentimentos pessimistas. “Hoje em dia quem trabalha na indústria cannábica são os apaixonados. Essas pessoas trabalham de forma underground, improvisando e muitas grandes empresas podem ocupar esses espaços.”, conta Jean, francês, 34. “A legalidade da maconha ainda é incerta, ela é cinza. Muitas empresas estão esperando uma regulamentação mais clara, mas tenho medo que a grande indústria monopolize o mercado da maconha e tudo fique nas mãos do grande Lobby”, completa.

MERCADO INTERNACIONAL

Nos Estados Unidos é possível observar que o mercado da maconha já está completamente mercantilizado e que, por consequência do modelo capitalista, os preços subiram muito. O modelo sulamericano de legalização é bem diferente, no entanto, Jean não acredita que a Europa deva seguir por esse caminho, uma vez que desde já os europeus enxergam a maconha como mercadoria.

Alice Reis, que também já esteve na maior feira cannábica do mundo, a Emerald Cup nos Estados Unidos e na Cannabis Cup de Montevideo destaca as diferenças: “Nos Estados Unidos é permitido inclusive a venda da maconha com concentrações variadas de THC, enquanto a feira do Uruguai é muito voltada para o cultivo e, principalmente, para o pequeno cultivador”.

trofeu high times da seed company em feira cannábica

Mistérios e montanhas na Eslováquia

Por Maria Fernanda Romero

MONTANHAS MÁGICAS

Sonhava em conhecer montanhas inteiras brancas que alcançam o céu e são rodeadas por lagos, cavernas e mistérios. Duvidava que elas existissem e que um dia eu pudesse encontrá-las. Até que eu tive o imenso prazer de conhecer a Eslováquia. O Parque Nacional do Alto Tatras fica ao norte do país, na cadeia de montanhas Tatras – ou Tatry em eslovaco – que divide Eslováquia e Polônia. O  parque ocupa as cidades de Poprad, Vysoké Tatry e Tatranska Javorina.

Montanhas brancas, cobertas de neve, águas congeladas, e arvorés caindo na Eslováquia
montanhas brancas cobertas de neve no high tatras

Da janela da última classe de um trem antigo do leste europeu, eu enxergava a neve caindo e as montanhas que alcançam o céu se aproximando. Atravessei o país e, enquanto não estava dormindo, olhava a paisagem e acompanhava o trajeto do trem no mapa do meu celular. Parecia um sonho! Eu nunca tinha estado tão longe de casa nesse mapa. Um friozinho na barriga… É realidade. A porta do trem se abriu e eu senti meu corpo inteiro estremecer. Preciso do dobro de casacos, mas eu vou desbravar essas montanhas.

COMO CHEGAR NO HIGH TATRAS

A cidade principal, Poprad, fica embaixo da montanha e é lá que fica a estação de trem que faz a ligação entre as principais cidades do leste europeu e o Parque Nacional. É possível se hospedar em Starý Smokovec, Štrbské Pleso ou Tatranská Lomnica. As três regiões são incríveis. Eu me hospedei em Starý Smokovec na Pensão Partizan.  Há três estações de esqui, opções para hiking e outros passeios nas montanhas. Em Štrbské Pleso há também um lago que fica totalmente congelado no inverno, mas onde, nas outras épocas do ano, é possível passear de barco.

Trilho de trem no high tatras

Em Tatranská Lomnica fica a principal estação de esqui do parque. Lá  também é possível encontrar restaurantes e pequenos supermercados. Nessa parte do parque fica  a caverna Belianska Jaskyňa. Ela tem 3829 metros de profundidade e a visita é permitida desde que seja acompanhada por um guia. O valor da visita era de 8 euros quando eu fui. Na caverna tem cachoeiras e pequenos lagos. Dentro dela também se formam estalactites e estalagmites, que são formações minerais em forma de cones pontiagudos. As estalactites são as que saem do teto da caverna em direção ao chão e as estalagmites saem do chão em direção ao teto. Às vezes elas se encontram. A visita à caverna é muito interessante, o  único problema é que os guias só falam eslovaco e russo, ou seja, eu não pude entender as explicações mais detalhadas.

Há opções de hiking nas três regiões também. As trilhas que eu fiz foram as indicadas como fáceis pelo folheto com informações do parque. Elas eram longas, porém nenhuma ultrapassa 5 km de distância. Não deveriam ser difíceis, porém são muito escorregadias. É preciso ter os equipamentos corretos e tomar muito cuidado.

placa dizendo que a area é de protecao sem intervencao, que tem risco de queda de arvores é que a entrada é pelo proprio risco

Em Starý Smokovec fica a montanha Hrebienok. Além de outra estação de esqui, lá tem algumas opções de programas para crianças ou para se fazer em família, como por exemplo o sledging (esquibunda) e também tem uma versão da Sagrada Família em gelo. A trilha de Hrebienok até Vodopády Studeného potoka começa perto da Igreja de gelo, tem 1 km e termina em uma cachoeira exuberante.

arvore com neve

Em Štrbské Pleso você encontra  um lago gigante e mais outras opções de trilhas em meio a natureza selvagem. Fazer um seguro saúde para a montanha também é indicado e é possível fazer um nos pontos de informações turísticas dentro do parque.  O que me chamou atenção foi que em várias partes do parque tem placas dizendo que aquela é uma região com risco de queda de árvores e que você está sobre o seu próprio risco. Isso foi muito forte para mim. Realmente é um lugar paradisíaco e selvagem que tem que ser adentrado com muita cautela e respeito. Reforço sempre a importância de um turismo consciente e responsável e isso incluí ter responsabilidade com o próprio corpo e limites. Cada segundo nessa montanha maravilhosa vale a pena.

por do sol das montanhas

Praga: o anti-clichê Europeu

Por: Maria Fernanda Romero

Antes de entrar no trem para a República Tcheca anotei na minha agenda palavras e frases básicas da língua tcheca e também os endereços dos lugares em que ia ficar. Acho que foi a melhor coisa que eu fiz e o único conselho que eu dou àqueles que vão para países em que não entendem absolutamente nada da língua. Anote! Porque, na pior situação, sempre tem a mímica e isso não tem erro.

Além disso, uma coisa que aconteceu muito comigo foi a pessoa estar na maior boa vontade, lascando as informações em tcheco e eu sem fazer a menor ideia do que estava acontecendo. “Nerozumím”: Eu não tô entendendo. Pelo menos foi isso que eu anotei… nem sempre eles paravam de falar ou trocavam o idioma, mas muitas vezes se esforçaram mais e é aí que entra a mímica. “Ahoj” é a saudação e também a despedida. “Prosím”, por favor, “Děkuji”, obrigado. Com essas palavras sobrevivi bem na República Tcheca.

O QUE FAZER EM PRAGA

Praga é um clichê europeu. Um rio que cruza a cidade (o Vltava), a ponte medieval, a parte velha, a parte “nova”, a arquitetura, o castelo – ou o conjunto de castelos, no caso de Praga. A cidade é linda e colorida. Tem um ar meio rebelde e leis mais brandas, porém ao mesmo tempo contraditórias. Por exemplo, não se pode comprar cigarros depois das 22h, mas é possível comprar tabaco. E também souvenirs de maconha com até 0,2% de THC.** (A maconha é descriminalizada no país, mas a venda de qualquer quantia de maconha ainda é um ato criminal e pode render até um ano na cadeia. O porte da droga não é considerado crime e o seu cultivo também é liberado, desde que não ultrapasse o valor máximo de posse, que é de 5 plantas. O uso médico de maconha com receita é permitìdo e também a venda de souvenirs com até 2% de THC).

Rio que divide a cidade de Praga, um barco passando por debaixo da ponte,  e o Castelo de fundo

Em Praga é possível ir para praticamente qualquer lugar a pé. Em Staré Město (Cidade Velha em português), fica – ou ficava -, desde 1410, um dos relógios mais importantes do mundo. O Relógio Astronômico Orloj. Tive sorte, porque alguns dias depois da minha visita, ele foi recolhido para manutenção. Espero que volte logo. Ele é tão especial, que, segundo a lenda, os vereadores de Praga cegaram o relojoeiro que o fabricou para que ele não pudesse fabricar outro igual. Lendas à parte, o relógio simboliza muitas coisas: As estátuas simbolizam a morte, o medo das invasões na cidade, o medo da fome e da pobreza e a vaidade. A bola de ouro representa o sol e a sua posição diz em qual parte do dia estamos. Ela indica também em que signo o sol está, já o ponteiro da lua indica em que signo e em que fase ela está.

A Praça Old Town também é onde está localizada a igreja gótica de Nossa Senhora de Týn, com torres desiguais que a fazem parecer um castelo. No centro da cidade velha, entretanto, tudo é muito caro. Os preços dos restaurantes, dos bares e das casas de câmbio (lá a moeda é a coroa tcheca) não são muito bons.

Por outro lado, tem outras igrejas belíssimas, tanto católicas, como protestantes e a fundação do Clementinum, um conjunto arquitetônico que abriga a Biblioteca Nacional. Outras construções que se encontram no centro são a Universidade Charles, diversos museus como o Mucha e o Rudolfinum, que abriga uma sala de concertos, uma pinacoteca e um museu e que também já foi sede da Assembléia Nacional.

telhados vermelhos e verdes e montanhas no horizonte de Praga

Praga fica bem no meio da região da Boêmia, no centro da Europa e não é coincidência que o nome dessa região tenha dado origem à palavra “boêmio”. Os tchecos criaram as melhores cervejas do mundo, como a Pilsner Urquell, e são até hoje os maiores consumidores de cerveja do mundo. Mel e leite também são produtos locais muito importantes para o país.

cervejas de Praga

Assim como em muitas outras cidades da Europa, muitas empresas oferecem um Free Walking Tour em Praga. Eu fiz com a empresa Sandermans e gostei muito. Aprendi muitas curiosidades sobre a região, além de ir conhecendo os principais pontos turísticos da cidade. Uma das histórias que o guia nos contou foi que o atual presidente do país, Milos Zeman, odeia vegetarianos e jornalistas. Não sei se é verdade, mas espero que não.

Atravessando o rio Vltava pela ponte Charles chega-se ao Malá Strana, onde fica o castelo. Há outras pontes que ligam a parte velha de Praga à parte mais nova, porém a ponte Charles é a mais especial. Ela foi construída por ordem do rei Charles e sua sua construção durou 45 anos, até 1402. No solstício de verão, quem está abaixo da Torre da ponte vê o sol passar e se pôr exatamente atrás da Catedral de São Vito, a catedral do castelo, mas não há registros de que isso seja proposital.

castelo de Praga
Castelo de Praga

O conjunto de castelos de Praga é o maior do mundo. Lá ficam o Antigo Palácio Real, a Galeria Nacional de Praga, algumas prisões medievais e a Catedral de São Vito, que demorou 600 para ser construída e que é um dos símbolos da cidade.

O nosso guia do Free Walking Tour nos contou que Mick Jagger e os Rolling Stones colaboraram com a manutenção do conjunto: Após a queda do comunismo, a banda foi convidada para tocar em Praga e teria patrocinado uma reforma para melhorar a iluminação do castelo. O cantor, que gostava muito da cidade, teria ficado comovido com as dificuldades do país pós-comunismo e esse foi o modo que ele encontrou de ajudar. Provavelmente é uma lenda, mas poderia ser verdade.

Outra estrela que deixou marcas na cidade foi John Lennon. Ainda no bairro de Malá Strana fica um muro em homenagem ao artista. Hoje em dia é mais uma parede com grafite como tantas outras, porém, na década de 80, ele representava a indignação política da população e foi usada como protesto a favor da liberdade de expressão.

horizonte de Praga com telhados vermelhos e azúis

O bairro judeu também é um símbolo de resistência da cidade. Os judeus começaram a ocupar as áreas do subúrbio de Praga ainda na Idade Média. Eles sempre sofreram muita opressão e nem podiam frequentar o centro da cidade. Na Segunda Guerra Mundial, infelizmente, muitos judeus dessa região foram mortos, mas o bairro ainda está preservado para contar essa história.

A sinagoga Pinkas, construída em 1535, é um dos lugares onde mais se pode aprender sobre a cultura judaica na cidade, assim como a sinagoga Staranová, que é a Sinagoga mais antiga da Europa, sobrevivente de vários ataques, incêndios e guerras. No bairro, muitas pessoas também visitam o cemitério antigo, que foi, por mais de 300 anos, o único lugar onde os judeus podiam enterrar seus mortos.

COMER EM PRAGA

Como já disse, a cerveja em todo o país é muito boa, então o que não falta na cidade são bares e pubs com  bons preços e boas bebidas. Além disso, a comida é muito boa. Depois do Trdelnik, um doce que é uma massa assada em uma espécie de churrasqueira, coberto com açúcar, canela, chocolate, doce de leite ou geléias, meu prato preferido foi o Smažený sýr: um queijo empanado frito maravilhoso.

Apesar de ter saído de lá um pouco confusa com tantas ironias e coincidências, enxerguei Praga como uma cidade charmosa, receptiva e bastante intensa.