Munique: A cinza e viva capital da Baviera

Por Maria Fernanda Romero

ALEMANHA: PRIMEIROS CONTATOS

Estudei a vida toda em um colégio alemão e no colegial fiz um intercâmbio para Alemanha. As lembranças que vêm à minha cabeça quando penso no país são muitas primeiras vezes. Primeira vez na Europa, primeiro intercâmbio, primeira tatuagem, primeira cerveja (Schöfferhofer de laranja) e também o primeiro e o único país em que fui furtada na Europa. Tudo foi incrível. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha um receio de voltar. Não é o país que mais me emociona e faz meu coração vibrar quando me lembro. Mas é o país estrangeiro onde mais aprendi coisas. Bati muito a cabeça para entender que os alemães eram diferentes e eu que tinha que me adaptar às regras deles.

Aberta a reconhecer a Alemanha, chego em Munique (também conhecida como Munich pelos falantes do inglês ou como München pelos alemães) encantada com a vista dos alpes cobertos de neve que tenho do avião. O piloto diz que faz 1º C e neva. Eu estava muito ansiosa para ver a neve, mas assim que o S-Bahn saiu da estação do aeroporto ela já tinha sumido. O frio não.

“S-Bahn” porque os alemães são high-techs e têm vários tipos de transporte público. O S-Bahn seria um trem de menor circulação, mas é diferente do “Zug”, que é o trem de fato. O “U-Bahn” é o metrô e o “Tram” é um trenzinho ao ar livre, que poderia corresponder ao bonde. Claro que também tem o busão! Esse é fácil: “Bus”.

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Vista panorâmica de Munique

A Munique que morava na minha memória era um pouco assustadora. Muitos punks, bêbados, pessoas estranhas que te abordam na rua com um alemão, que nem  na época que eu estudava alemão, muito menos agora (e acho que nem se eu tivesse estudado por 30 anos) eu entenderia. Ela também era cinza, nebulosa e um pouco triste. Com certeza essa lembrança dela ser triste tem a ver com o fato de que, na época em que eu fui para lá pela primeira vez, eu conheci o Campo de Concentração de Dachau, que fica lá perto, e não tem como ver beleza e alegria depois de pensar em tantas mortes.

O QUE FAZER EM MUNIQUE

O passeio em Munique começa pelo centro histórico. Lá tem duas praças importantes. A Karlsplatz, onde podemos entrar pela Karlstor, uma das entradas da cidade quando ela era cercada por uma muralha medieval, e a Marienplatz, onde fica Igreja de St. Peter e as Altes Rathaus e Neues Rathaus, velha e nova prefeitura em português. O relógio da nova prefeitura possui um carrilhão de bonecos e todos os dias, em alguns horários, eles saem para uma apresentação animada.

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Entre as duas praças fica a rua mais comercial da cidade que chama Kaufingerstrasse. Ainda no centro histórico fica a Frauenkirche, a maior Igreja da Baviera. Assim como a Igreja de St. Peter, merece ser conhecidas. As torres verdes da Frauenkirche podem ser vistas de toda a cidade, nenhuma construção atrapalha a sua vista. Ainda no centro, está localizado o Viktualienmarkt, um antigo mercado público da cidade,  onde podemos encontrar pães, queijos, frutas típicas alemãs e todo tipo de alimento de qualidade.

Do centro é possível caminhar até a Hofbräuhaus, uma das mais antigas cervejarias alemãs, fundada em 1589. Na época, fabricava a cerveja do Duque da Bavária, somente 300 anos depois foi aberta ao público. Além da cerveja e dos pratos mais típicos e deliciosos da Alemanha, também há um show com as tradicionais bandinhas históricas.

uma das mais antigas cervejarias alemãs, fundada em 1589. No início ela fabricava a cerveja do Duque da Baviera e somente 300 anos depois foi aberta ao público. Além da cerveja e dos pratos mais típicos e deliciosos da Alemanha, lá também há um show com as tradicionais bandinhas tipícas.

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Hofgarten

Se for verão e o dia for longo é possível fazer muito mais coisas em Munique, mas no inverno os dias acabam cedo na Europa, então talvez a continuação do passeio deva ser feita no dia seguinte.

Partindo da cervejaria dá para ir até a Odeonsplatz, o lugar onde Hitler discursava e também onde foi preso. Lá também fica o Residenz, o palácio que foi residência oficial dos duques e reis da Baviera e a Ópera de Munique. Seguindo em frente, pela Leopoldstrasse, uma avenida com muitos bares e restaurantes você encontra o Siegestor, grande arco que separa as avenidas Leopoldstrasse e Ludwigstrasse. Ele também é comparado ao Arco do Triunfo, de Paris.

Virando à direita na Odeonsplatz, encontra-se o lindo jardim Hofgarten. Atravessando esse jardim, chega-se no Englischer Garten, um dos maiores parques urbanos do mundo. Ele também pode ser considerado a praia de Munique e, no verão, é muito comum encontrar gente tomando sol pelada por lá. Além disso, durante o ano todo, há surfistas no parque, já que é possível surfar nas ondas formadas pelo rio Eisbach.

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Englischer Garten

O parque tem 6 biergartens, que são como jardins para tomar cerveja, comer e conversar. O maior do parque, e também de toda cidade é a Chinesischer Turm, ou Torre Chinesa. O biergarten tem capacidade para 7 mil pessoas sentadas. Além de cerveja, é possível encontrar o glühwein por toda a cidade, um vinho quente com especiarias, que pode ser comparado ao nosso quentão.

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Chinesischer Turm

Para outro dia em Munique, O Nymphenburg Schloss, ou Palácio de Nymphenburg, é um bom plano. Ele foi construído como residência de verão para os duques da Baviera e é uma importante construção nos estilos barroco e rococó. Os jardins do palácio são enormes e tem até um jardim botânico.

O Olympiapark também é uma ótima opção. Construído para os Jogos Olímpicos de 1972, é uma área verde com um lago e uma vegetação muito bem cuidada. Os Jogos Olímpicos de 1972, infelizmente , são lembrados pelo atentado no qual oito terroristas palestinos invadiram o alojamento de Israel e mataram dois atletas. Por esse motivo, há uma homenagem às vítimas no Parque, que também serve de convite à reflexão, em um país que foi palco de tantas guerras e mortes.

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Nymphenburg Schloss

Entretanto, o espaço público também é usado para prática de esportes e diversos eventos culturais. No Olympiapark também é possível subir na Fernsehturm, a maior torre de televisão da cidade com 291 metros. Perto do parque fica o museu da BMW e um pouco afastado da cidade fica o estádio do grande Bayern München, o Allianz Arena. Para quem gosta de futebol, vale muito a pena visitar.

Para engenheiros, amantes de pesquisas sobre energia, curiosos sobre o futuro e até para crianças, recomendo o Deutsches Museum, um museu de ciência e tecnologia, com itens históricos sobre navegação, aviação e outras formas de transporte e, ao mesmo tempo, um incrível acervo sobre a questão do uso de energia consciente e impactos ambientais. O museu abre todos os dias das 9h às 17h e em 2017 a entrada custava 11€.

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Olympiapark

BATE-VOLTA DE MUNIQUE

Há 3h de Munique, na cidade de Füssen, divisa com a Áustria, fica o Schloss Neuschwanstein (em português Castelo Novo Cisne de Pedra). O castelo do século XIX é a inspiração para o Castelo da Cinderela, símbolo da Disney. A natureza de Füssen também me encantou muito. Lagos lindos cobertos de neve. O melhor jeito de chegar na cidade é com Bayern ticket. Ele custa 20 euros para uma pessoa, porém até 5 pessoas podem usar por mais 5 euros cada uma. Ele tem algumas restrições de horário, mas pode ser usado por 1 dia em todo estado da Baviera até Salzburg, na Áustria.

A Munique de hoje não correspondia com a das minhas lembranças. Apesar de continuar cinza, fria e chuvosa, quando o sol aparecia ele era incrível. A natureza da cidade é única e rara. Muita cerveja boa, festas e comida típica alemã. Recomendo comer as batatas de qualquer tipo e para quem come carne, os pratos com Schnitzel.

Munique tem bastante idosos nas ruas,entretanto tem também muitas festas. Além da famosa Oktoberfest, a festa da cerveja em outubro, há várias festas em locais fechados, principalmente na rua Friedenstrasse, em uma praça atrás do número 10. Lá há vários clubes e festas com todos os estilos de música e que vão até o dia seguinte.

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Füssen

Apesar de não ver mais loucos nas madrugadas alemãs, ainda vi muitas pessoas gritando palavras aleatórias, que já nem me esforço para entender. Eles são sempre sérios e corretos. Isso me incomodava. Agora não mais. O trânsito é ótimo e tudo funciona. As pessoas realmente esperam, em todos os horários, o farol fechar para atravessar. As ciclovias me confundem. Elas são cinzas, da mesma cor da calçada e do asfalto e até do céu… Às vezes andava na ciclovia e me assustava com alguma buzina de bicicleta furiosa.

Os prédios também seguem um padrão de cor-de-burro-quando-foge e de arquitetura em geral. Até as construções modernas e de grandes empresas, como MC Donald´s e Starbucks precisam imitar um estilo barroco alemão.

Apesar de curtir a minha experiência em Munique e principalmente as paisagens exóticas, fui novamente furtada na Alemanha. Na primeira vez tinha sido em Berlim, dessa vez foi em Munique. Mas diferente da outra vez, a polícia alemã rígida e competente, até me deu uma passagem de trem.

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Schloss Neuschwanstein

Saí da Alemanha e concluí que visitar um lugar novamente é como reler um livro. Você nota mudanças no lugar e no contexto, mas principalmente nota mudanças em si mesmo. Munique talvez não tenha mudado tanto, mas todas as experiências que temos tem um pouco a ver com o que somos e o que estamos sentindo naquele momento. Aquela Alemanha brava e assustadora, cinza e triste da qual me lembrava agora é uma Alemanha correta e organizada, no limite, beira ao caos. Cinza, mas também viva.

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Autor: culturanavegavel

Jornalista de formação, escritora de alma. Comecei um mochilão por curiosidade e encontrei várias formas de viver e aprender. Hoje levo uma vida nômade, viajando por onde meu coração vibra. instagram: @culturanavegavel

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