Catalunha, um novo país europeu?

Por Maria Fernanda Romero

Em todo prédio de Barcelona há pelo menos uma bandeira da Catalunya exposta em alguma janela de ferro. Os catalães nunca se identificaram como espanhóis, mas agora o clima de separação é sentido em cada esquina.

A cultura catalã deixa traços desde da era medieval. A língua é rica e símbolo de resistência contra ditadura franquista, que proibiu o catalão na época. “Eu ía a aulas clandestinas para aprender algo do meu idioma. Tudo e todos aqueles que poderiam parecer uma ameaça eram perseguidos, naturalmente, já que era uma ditadura” M., 52. O catalão não é mais proibido, porém o povo ainda sente que a língua é apagada pelo castelhano.

Bandeiras da Catalunya em prédios de BarcelonaBandeiras da Catalunya em prédios de Barcelona

A província autônoma também tem um hino próprio, que foi escrito em durante a guerra dos Segadors. A música diz, que os soldados ficavam nos povoados e desprezavam a comida, vinho, matavam gente e estupravam mulheres. O povo reclamava e não acontecia nada. Até que um dia mataram um trabalhador de campo (segador) que estava em Barcelona tentando resolver a situação. A partir de então começou a revolta, várias pessoas importantes na época, inclusive o vice-rei da região, foram mortas. Pau Claris declarou a república Catalã em 1641 e a revolta durou até 1659.

Uma das consequências da guerra é o tratado dos Pirineus.  Em 1714, os catalães entraram em novo conflito contra o rei autoritário e centralizador de poder, que queria tirar (e tirou) a autonomia da região na  Guerra de Sucessão. Com a derrota da Catalunha a região passa formar parte do Estado espanhol.

Diferentemente de outras regiões separatistas da Espanha, os catalães sempre buscaram o diálogo. Em algumas consultas feitas pela Generalitat, como é chamado o governo Catalão, a mais importante em 9 de novembro de 2014, a população demonstrou a vontade de votar em um plebiscito se a Catalunha deveria ou não se separar da Espanha. Os casos de corrupção do Partido Popular (PP), cujo o líder é o presidente do governo Espanhol Mariano Rajoy, foi o estopim para que a Generalitat anunciasse o tal referendum em 2017.

ato a favor do referendum em Barcelona

A Espanha não aceitou o plebiscito em nenhum momento. A guerra política começou. O parlamento catalão aprova a “lei da ruptura”, ou seja, leis do novo país caso o “sim” ganhasse. O Tribunal Constitucional espanhol não a aceita. O governo continua fechado para o diálogo. O presidente da Generalitat, Puigdemont e a alcaldesa de Barcelona Ada Colau enviam uma carta para o rei Felipe VI e para Rajoy pedindo uma resolução para o caso espanhol . A resposta é: só haverá negociação se não houver plebiscito.

ato a favor do referendum em Barcelonaato a favor do referendum em Barcelona

Enquanto isso as ruas borbulham. Manifestações todos os dias. O povo quer ser ouvido. A repressão aumenta e 14 funcionários do governo catalão são presos em buscas de materiais que seriam usados no dia 1 de outubro. Outros são multados no valor de 12 mil euros. Mais pessoas às ruas. O governo ameaça e a ordem final é que a polícia impeça a votação a qualquer custo.

ato em favor do referendum em Barcelona

O dia primeiro de outubro de 2017 amanheceu cinza. Frio e chuva acompanharam esse dia de tensão e história na Catalunha. Fui a um colégio eleitoral em Gràcia acompanhar a votação. A fila era imensa e a primeira notícia que chegou foi a de que a Polícia Nacional estava invadindo escolas por toda parte com muita violência. Alguns vídeos começaram a circular nas redes sociais. Massacre e covardia: Não existe outra definição para atuação da polícia espanhola, mas isso só motivou as pessoas a saírem de suas casas.

Me aproximo de um senhor de aproximadamente 70 anos. Pergunto se ele pode me dar uma entrevista. Ele me olha desconfiado, “Sobre o que? Não há nada para se dizer”. Eu respondo “sobre a votação” e digo que sou uma jornalista independente: Escolhi a palavra certa. “Periodista independiente?” Ele muda o tom. Diz que também quer ser independente. Era justamente disso que se tratava a situação. Perguntei se ele tinha medo da polícia. “A princípio não. Olha ali a polícia”, diz apontando os Mossos d’ Esquadra, polícia interna da Catalunha, que também tinha sido ordenada a fechar escolas, mas cuja maioria não cumpriu a ordem. “Somos pessoas normais. Só queremos votar, não devemos ter medo da polícia”. A última pergunta que faço é o que vai acontecer se a Catalunha se tornar livre. “Nunca seremos livre, estamos na Europa”, finaliza o senhor.

“Medo? Não, não não. Não há medo! Não há medo para nada.” C. me responde determinada. “Já estamos vencendo. Vencer é isso, é votar. Ou pelo menos tentar. Força Catalunya!” completa antes de se despedir.

dia da votação em Barcelona

Sigo para Praça Catalunya, onde um pequeno grupo protesta a favor da união com Espanha. P. afirma que, em primeiro lugar, não há um plebiscito: “O que está acontecendo é inconstitucional e não tem nenhum apoio das instituições públicas”. Reforça que é, inclusive, uma afronta contra o estado autônoma da Catalunha.

ato contra a independencia da Catalunya em Barcelona

“Não me sinto motivado a votar, porque votar é apoiar isso. Somente votam os partidários do governo, isso não tem nenhuma validez política. Se eu estivesse participando estaria reconhecendo uma validez que não tenho”. P. acredita que a Espanha é um país plural e que as diferenças entre as regiões reforçam isso. “Todos falamos duas línguas aqui e também há outras línguas na Espanha como o galego e o basco. Isso nunca foi um problema antes. Faz parte do que é a Espanha”.

A oposição acredita que o discurso de Puigdemont, presidente da Generalitat, é vitimista e que o estado autônomo permite o controle da polícia ( Mossos d´Esquadra), da educação e também dos serviços sanitários. “A Catalunha tem muita liberdade e autonomia. Os deputados catalães também estão no congresso e podem defender suas leis. A Espanha respeita a Catalunha”. P. ainda completa que é um absurdo a Generalitat dividir o povo entre bons e maus. “A violência está acontecendo porque a Generalitat está provocando isso para ganhar legitimidade. Eles querem que aconteça a violência e sabiam que ia acontecer se organizassem um referendum ilegal, mas espero que a gente consiga achar uma solução pacífica”.

Enquanto os “espanholistas” protestam, os telões armados na Praça Catalunya mostram imagens dos colégios fechados pela polícia. Literalmente um filme de horror em praça pública. Volto para o colégio na Gràcia e, diferentemente do que imaginava, o clima é de completa paz. O número de pessoas que saíram para votar tinha triplicado. A escola tocava músicas típicas da região e as pessoas na rua dançavam e gritavam hinos de resistência.  Alguns voluntários anunciavam as notícias pelos altos falantes. Um contingente cada vez maior se formava em volta da escola para impedir a chegada da polícia e, principalmente, para proteger as urnas.

Policiais espanhois em uma praça em Barcelonapolicia em Barcelona

Naira L,19, é catalã, mas vive em Madri e estuda Filosofia e Política. Ela viajou da capital do país até Barcelona (630 km) para votar nulo, afinal ela faz questão de votar. “É pela democracia”. Ela diz que os espanhóis não entendem porque os catalães querem a separação. “Eles dizem que é ou porque somos egoístas, ou por outros motivos que não são importantes, e não percebem que o governo do PP não enxerga a Catalunha”. Ela me conta que, na verdade, apenas metade dos catalães querem a separação, mas quanto mais o governo reprime e ataca, mais motivadas as pessoas ficam a a apoiarem. “Temos o direito de votar, votar é democrático”. Ela finaliza dizendo que não tem vontade de encontrar a polícia, “mas eu sei que a nossa polícia protegerá a gente caso a nacional venha aqui. Mas olhe em volta: Tem muita gente, não passará nada”.

O clima de comemoração e ansiedade só aumentou às 20h, quando o plebiscito acabou. “É que agora vão contar os votos”, um catalão me explicou, “as urnas não podem sair daqui, por motivos óbvios, então temos que protegê-las até eles terminarem de contar,”  Um dos voluntários pediu no alto falante para que as pessoas colocassem seus celulares em modo avião. O sinal de internet estava fraco e havia a especulação de que o governo tinha cortado as redes móveis. Enquanto os votos eram contados a mão, pouco a pouco as pessoas saíam em direção à Praça Catalunya, onde o resultado seria anunciado.

O caminho de volta para praça era escuro e tenso. As ruas vazias, a polícia ostentava suas armas e os estabelecimentos estavam todos fechados, mas, chegando na praça, parecia final de Copa do Mundo: Telão, música, bandeiras. A sensação era de vitória, afinal, eles votaram. E eles gritavam “Hem votat, hem votat” (nós votamos, em catalão).

Já era madrugada quando os números foram divulgados. A primeira notícia foi vergonhosa: 844 feridos em confrontos e repressão. Mais feridos que em qualquer ataque terrorista, dos quais eles têm tanto medo. Em seguida a notícia que todos esperavam: 2.020.144 a favor da separação: 90% dos que votaram. Os catalães comemoram a notícia que traz, também, inúmeras dúvidas sobre o futuro incerto da Espanha.

comemoração pós votação em Barcelona. MIlhares de pessoas na praça com bandeiras da Catalunyaprédio com os dizeres de hola democracia em Barcelona

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Autor: culturanavegavel

Jornalista de formação, escritora de alma. Comecei um mochilão por curiosidade e encontrei várias formas de viver e aprender. Hoje levo uma vida nômade, viajando por onde meu coração vibra. instagram: @culturanavegavel

Uma consideração sobre “Catalunha, um novo país europeu?”

  1. Texto bem escrito, só me pareceu um pouco parcial. Falou de corrupção do PP, mas esqueceu que Jordi Pujol foi acusado de cobrar 3% de propina em obras públicas. À época era do mesmo partido de Artur Mas. Este foi “obrigado” a deixar o cargo para que Carles Puigdemont assumisse.

    Então essa tentativa ridícula de independência nada mais é que uma tentativa de perpetuar o poder e corrupção que continua viva nos partidos a favor da separação.

    O que se viu no domingo foi uma coisa provocada pelo próprio governo, que incentivou o povo por meio de grupos em pró da independência a fim de colocar lenha na fogueira. E acabou acontecendo aquelas agressões. Que no meu ponto de vista, algumas delas são justificadas, já que a polícia deu ordem para que as pessoas liberassem caminho, essas não liberaram através do pedido pacífico e tiveram que ser removidas por força.

    Enfim, o governo da Catalunha continua jogando lenha na fogueira a fim de atiçar o povo a provocar a polícia. Então teremos mais episódios de violência, já que o governo central certamente vai destituir o governo da Catalunha caso este continue com essa tentativa falida de obter a separação.

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